dezembro 06, 2018

[RESENHA] A CASA DA ALEGRIA, DE EDITH WHARTON

Sinopse: “Lily Bart, a personagem principal de A Casa da Alegria, é uma mulher bonita, refinada e inteligente que vive em Nova Iorque no início do século XX e sofre as consequências da falência financeira da família. Órfã de pai e mãe ela vai morar de favor com uma tia de padrões morais rígidos. A única saída para as dificuldades de Lily é encontrar um bom casamento, pois já começam a correr boatos de que ela está passando da idade de se casar. A linda, espirituosa e sofisticada moça vive uma vida de luxo e facilidade e se conduz como se tivesse direito a tal existência, apesar de ser incapaz de pagar por ela: uma jovem muito pobre com gostos muito caros, ela precisa de um marido rico para preservar sua posição social e garantir um futuro palatável. Mas ela recusa-se a casar sem amor e tenta impor sua independência na conservadora sociedade nova-iorquina.”

 

“Para que vivemos, senão para fazer graça para os nossos vizinhos, e para rirmos deles quando for a nossa vez?” (Jane Austen, Orgulho e Preconceito)

 

A Casa da Alegria, romance de Edith Wharton publicado originalmente em 1905, conta história de Lily Bart em sua tentativa de se manter entre a alta sociedade nova-iorquina do início do século XX, embora já não tenha recursos financeiros para isso. Ela é uma jovem linda e muito bem educada, mas sua renda é composta apenas por uma modesta pensão deixada por seus pais e a caridade de uma tia levemente avarenta que a acolhe em seu lar.

O Livro da Literatura, almanaque fundamental para quem quer se inteirar sobre as principais obras do cânone da literatura mundial, coloca A Casa da Alegria como um sucessor temático de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; e de A Feira das Vaidades, de William Makepeace Thackeray; tendo como foco o romance de costumes, todos eles precedidos por Pamela, de Samuel Richardson (este último com publicação em português pela Pedrazul Editora). Em A Casa da Alegria, diferente de Austen ou Charlotte Brontë, por exemplo, em que o nosso foco acaba sendo desviado para os mocinhos e a história de amor entre os protagonistas, desde o começo temos plena consciência que o tema principal é o malabarismo de Lily Bart para continuar usufruindo dos prazeres do luxo e do divertimento que a alta sociedade usufrui e das consequências que cada um de seus atos pode acarretar em sua vida, ou melhor, em sua honra.

Lily Bart é um bibelô entre os ricos, por essa razão é sempre convidada para festas, retiros no campo, viagens internacionais etc. Apesar de oficialmente viver com a tia, a viúva sovina Mrs. Peniston, a “agenda” de Lily é tão cheia de eventos sociais que ela vive passando temporadas nas casas de um ou outro casal de amigos, como uma folha desgarrada da árvore que vai para aonde o vento soprar. Obviamente, isso tudo tem um preço para Miss Bart: apesar de não pagar pela hospitalidade ou pelas viagens, ela precisa estar sempre muito bem apresentável. E esse custo de beleza já não cabe em seu módico orçamento.

Lily sabe que precisa se casar o quanto antes, mas ela precisa analisar as opções, pois não poderia se casar com qualquer um. O desejável seria casar-se com um homem rico, mas Miss Bart não conseguiria confiar a sua felicidade facilmente a alguém por quem não estivesse, no mínimo, apaixonada (ou o inverso, por uma questão também de poder). Fica muito claro desde o começo da história que ela quer ter dinheiro, mas também quer ser feliz, quer sentir o coração palpitar, quer admirar o parceiro com o qual ela dividirá sua vida…

 

“Ah, tem uma diferença… uma garota é obrigada a se casar, já um homem pode escolher – e o encarou com um olhar crítico. – Se o seu paletó estiver um pouco velhinho, quem se importará? Isto não impedirá as pessoas de convidá-lo para jantar. Já se eu andasse malvestida ninguém iria me convidar para nada: uma mulher é convidada mais pelas suas roupas do que por ela mesma. As roupas são o cenário, a moldura, se assim preferir. Elas não garantem o sucesso, mas fazem parte. Quem quer ver uma mulher maltrapilha? É esperado que sejamos bonitas e bem-vestidas até o fim, e se não conseguimos manter tudo isso sozinha, precisamos sair em busca de um parceiro.”

 

“Na verdade não queria se casar com um homem que fosse rico apenas; no fundo ela tinha vergonha da paixão da sua mãe pelo dinheiro. Lily gostaria de se casar com um nobre inglês com ambições políticas e vastas propriedades; ou, como segunda opção, um príncipe italiano com um castelo nos montes Apeninos e um posto hereditário no Vaticano. Causas perdidas tinham um charme romântico e ela gostava de se imaginar alheia à imprensa vulgar do Quirinal, sacrificando seus prazeres em nome de uma tradição de longa data…”

 

“Dúzias de meninas bonitas e jovens tinham se casado e ela com vinte e nove anos ainda era Miss Bart. Ela estava começando a se revoltar com o destino, quando pensou em abandonar a corrida e conquistar uma vida independente. Mas que tipo de vida seria? Ela mal tinha dinheiro para pagar a conta da modista e suas dívidas de jogo e nenhum dos interesses aleatórios que ela classificava como “preferências” parecia promissor o bastante para ela viver bem na obscuridade. Ela sabia que odiava a pobreza tanto quanto sua mãe, e por conta disso pretendia lutar até o seu último suspiro contra isso, emergindo repetidas vezes acima desta maré até alcançar o ápice do sucesso que se apresentava na forma de uma superfície difícil de ser alcançada.”

 

Um tema bastante delicado tratado no romance é o de que uma mulher não pode tudo. A Casa da Alegria, segundo O Livro da Literatura, é um romance sobre as restrições econômicas e morais impostas às mulheres. Miss Bart erra (e paga caro por isso) muitas vezes ao pensar que certas atitudes bobas, como viajar sozinha em companhia de um homem, ou ser vista na companhia de um deles em horário impróprio, ou ainda pedir dicas de aplicações financeiras, podem não ser algo tão grave a ponto de por a sua reputação em risco. Ela tem a ilusão de que pode tratar de negócios com um homem sem oferecer nada em troca, como uma igual. A literatura e, principalmente, a história, mostram como sempre foi difícil para uma mulher ser tratada como igual pelo sexo oposto. Em A Casa da Alegria, além das armadilhas do sexo masculino, temos também amizades femininas bastante traiçoeiras, que não hesitam em puxar o tapete de uma querida amiga para se manterem afastadas de escândalos ou não serem protagonistas de um. Lily Bart percebe o quanto é cansativo o malabarismo para viver essa vida de luxo, mas ao mesmo tempo ela é sugada para isso, pois foi moldada desde a infância para valorizar o prazer sem esforço, o prazer pelo simples fato de ser Lily Bart, uma pessoa que deixa por onde passa um rastro de encantamento e inveja.

Lily teve seus pretendentes, mas nenhum deles fez seu coração pulsar como Lawrence Selden, um advogado que flutua bem na alta roda, mas não tem uma fortuna suficiente para encher os olhos da jovem. Neste ponto, ela lembra bastante Lady Mary Crawley, de Downton Abbey, quando havia uma possibilidade remota de Matthew não ser o herdeiro do condado (a Condessa estava grávida) e ela tinha dúvidas em se comprometer definitivamente casando-se com um simples advogado, embora estivesse perdidamente apaixonada por ele.

 

“Ela era como uma roseira rara cultivada para ser exposta, uma planta da qual cada botão tinha sido extirpado, exceto a flor principal da sua beleza.”

 

Lily Bart é uma personagem para amar e odiar, não necessariamente nessa ordem, mas talvez com a mesma intensidade. Sabe aquelas personagens que você tem vontade de chamar para uma conversa e dizer: “Meu Deus, fulana, não faz isso! Não tá vendo que você vai quebrar a cara?”. A jovem Lily é uma dessas! A Casa da Alegria é um romance para devorar e se surpreender, uma crítica social ácida com um texto de uma crueza impensável na época de Jane Austen, mas carregado com a ironia característica dela que é uma das mais adoradas dentre os ilustres predecessores de Edith Wharton.

 

 

 

Título: A Casa da Alegria

Autora: Edith Wharton

Tradução: Silvia M. C. Rezende

Editora: Pedrazul

Páginas: 300

Compre no site da Editora Pedrazul (pré-venda): A Casa da Alegria.

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