outubro 05, 2018

[RESENHA] TENTE OUTRA VEZ, DE FABIANO JUCÁ

Sinopse: “E se uma música fosse a chave de comunicação entre dois mundos? Um convite para esta obra de gênero híbrido entre a ficção científica, o espiritual e o drama.

Tente Outra Vez é sobre a brevidade da vida. Sobre como a vida é breve e bela. Bela em sua brevidade e breve em sua beleza. Não espere por dias melhores. Faça de hoje o seu melhor dia.
Tente Outra Vez é sobre a aceitação do inevitável, é sobre a superação da dor. É sobre, principalmente, o amor. Sobre o amor e sobre amar. Ame incondicionalmente.

Uma história surpreendente. Uma grande reviravolta. Uma jornada de autoconhecimento e superação. Solomon, às voltas com problemas no casamento, se vê, em dado momento, num mundo onde sua esposa e sua filha… nunca existiram. É nesse ponto que começa sua batalha, com a ajuda de um velho tagarela e risonho chamado Amit, que mais atrapalha que ajuda.

Tente Outra Vez é nome de uma música de Raul Seixas, e a letra dela dá o tom da luta de Solomon.

Venha se encantar e se apaixonar por uma história verdadeiramente de amor!”

 

QUE. LIVRO. INCRÍVEL. Eu sei que essa é uma forma bastante estranha para se começar uma resenha, mas cá entre nós, minha intenção aqui é, quase sempre, fazer com que você parta o quanto antes para a leitura e não perca muito tempo comigo (é sério!). Tente Outra Vez, do escritor paranaense Fabiano Jucá foi uma das melhores leituras que eu fiz neste ano. É um livro curto, com uma trama muito envolvente e um enredo diferente. O leitor logo percebe que está diante de uma ótima ideia e que ela foi muito bem desenvolvida.

Solomon é uma pessoa que em determinado momento da vida sente-se cansado. A rotina, nós pobres mortais que somos casados e batemos ponto diariamente sabemos muito bem, pode ser bem estressante. Certo dia, em uma viagem com sua esposa e filha, ele estaciona o carro em uma lanchonete de beira de estrada para dar uma pausa após algum tempo de rusga com a esposa e sente uma coisa estranha, uma fraqueza. Passado o mal estar, qual não é a surpresa de Solomon ao perceber que sua família havia sumido! Não havia rastro da esposa ou da filha, sequer uma prova que elas realmente existiam.

A partir desse susto, Solomon embarca em uma jornada de autoconhecimento e nós viajamos com ele, afinal, temos dois pés para cruzar a ponte. Prepare-se para ter a voz de Raul Seixas ecoando em sua mente ao longo da leitura — e também depois dela — pois Tente Outra Vez (a música) é muito marcante nesta novela.

 

 

Tente Outra Vez é uma obra híbrida que une o melhor de todos os temas a que se propõe: é ficção científica, mas é acessível; é espiritual, mas não é doutrinadora; e é drama, mas tem pitadas muito assertivas de humor. Particularmente, incluiria também o gênero filosófico. Em dado momento percebi que a história de Solomon conversa muito com o livro Ei! Tem Alguém Aí?, de Jostein Gaarder. Aliás, Tente Outra Vez transmite tantas lições, de forma tão despretensiosa, que Gaarder ficaria confuso se pudesse ler um livro que parece dele, mas foi lindamente escrito por um brasileiro.

“O que é a loucura afinal? Viver coisas que não existiram é loucura? Os loucos realmente existem? Perceba: o mundo é feito de perguntas, muito mais que de respostas. Para cada resposta, podemos formular um número infinito de perguntas. Será mesmo que você quer respostas?”

 

Com a leitura, tive reforçada a convicção de que o amor é o que temos de mais belo e importante na vida e de que todo dia é dia de respirar fundo e pensar alguns segundos antes de ter uma discussão banal com alguém, pois cada minuto conta e pode ser definitivo. Temos mais facilidade para falar algo que magoa do que simplesmente fazer um elogio ou dizer um “eu te amo”, já percebeu?

Cada página de Tente Outra Vez foi uma descoberta. Garanto que vai ser assim quando você embarcar na estrada com Solomon.

 

“Cometemos muitos erros, o tempo todo. Não estamos livres. Não crescemos sem errar. E quem vive em função de não errar, já erra exatamente aí, pela covardia e omissão diante da vida.”

 

 

*** Não posso falar de Amit (ver sinopse) sem dar spoilers significativos sobre a obra. Mas estou sempre disponível nos inbox da vida para comentar algo que precisa ficar de fora da resenha pelo bem da sua leitura e do meu pescoço.

 

 

Título: Tente Outra Vez

Autor: Fabiano Jucá

Editora: Independente

Páginas: 113

Compre na Amazon (gratuito para assinantes Kindle Unlimited): Tente Outra Vez.

Disponível em formato físico para compra direto com o autor.

janeiro 09, 2018

[CONTO] QUERIDO PAULO

Sinopse: “Prestes a se mudar para Londres, Lília encontra uma foto nas páginas de um livro que fora o seu favorito, presente de uma pessoa especial. Por lembrar-se demais de Paulo lendo os versos de Florbela Espanca, o belo exemplar, presente do namorado de seus tempos de juventude ficara guardado, intocado em sua estante, por quase trinta anos! Uma única foto desperta-lhe lembranças de um amor até então sufocado em seu peito. Não podia fugir, precisava escrever algumas linhas para seu querido Paulo antes de ir embora de vez.”

 

Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2016.

 

Querido Paulo,

É estranho chamá-lo pelo nome, mas creio não ter mais o direito de chamá-lo de amor. Estou de mudança para Londres. Sim! Finalmente surgiu a oportunidade de realizar um dos meus maiores sonhos: estudar História da Arte no meu lugar favorito no mundo! Depois de tantos anos, consigo novamente sentir aquele frio na barriga, uma ansiedade gostosa sobre o que há de vir.

Você deve estar se perguntando o porquê desta carta. E tem todo o direito de fazê-lo. A questão é que tenho medo de tentar explicar e acabar trocando os pés pelas mãos, novamente. Já viu a foto que eu enviei junto, no envelope? Fiquei horas olhando para ela! Fazia tempo que não a via. Pensei nem ter mais algum registro de nós dois. Comparei o meu eu de trinta anos atrás com o de agora. Fisicamente, orgulho-me em dizer, foram poucas as mudanças. Algumas rugas, certamente. O cabelo mais curto, em um corte moderno (acho que você iria gostar!). Minha pele nunca mais foi tão bronzeada quanto naqueles dias que passamos juntos em Búzios. Estou sendo prolixa… O que realmente mais me chamou atenção, o que mais me chocou, na verdade, ao olhar para essa foto, foi o meu sorriso. E o seu olhar. Trinta anos se passaram desde esse registro e eu não consigo me lembrar de sorrir assim de nada, nem com ninguém. A felicidade genuína que transborda dessa foto partiu o meu coração, novamente. Fui transportada para esse dia em que, naquele cenário paradisíaco, trocamos juras de amor eterno. Ah, a juventude! Lembra-se? E o seu olhar. Não vou mentir: nunca mais tive em mim um par de olhos que me fitasse com tamanha paixão e desejo! Você pode pensar, talvez, que eu esteja exagerando, mas, se alguém depois de você me olhou de forma parecida, o sentimento não era tão visceral quanto aquele que você tinha por mim. Você me amou tanto quanto eu te amei, não é verdade? Preciso continuar acreditando que sim. Ver essa foto depois de tantos anos tirou-me do prumo!

A propósito, essa lembrança de nós dois foi o que me motivou (e deu coragem) para escrever-lhe essas palavras. Encontrei nossa foto em um livro que você me deu de presente, uma antologia poética de Florbela Espanca, edição luxuosa, de capa dura, importada de Portugal. Lembra-se? Foi o melhor presente que já ganhei! Florbela traduz-me como ninguém em seus versos. Bem, assim eu gostava de pensar. Gostava. Há muito tempo tenho evitado os versos de Espanca. Todos me remetem a você. Não por acaso, ouço nesse instante os versos da poetisa na voz inconfundível de um de seus cantores favoritos, Fagner. Ele ainda é uma presença constante no toca-fitas do seu carro? Melhor dizendo, em um pendrive ou rádio on-line qualquer?

Tenho uma filha. Sim, tenho uma filha. Chama-se Paulina. Uma graça de menina. Fez vinte e nove anos há poucos meses. Quando eu estiver com tudo pronto em Londres, ela irá morar comigo. Somos amigas e companheiras uma da outra. Ela saiu-se tal qual a mãe em relação às desilusões amorosas. Mas ainda tem tempo para ser feliz, creio que sim. Ela tem um ímpeto que eu nunca tive. Uma garra, uma sagacidade! Um olhar apaixonado… que me faz lembrar você, às vezes.

Desculpe se com essas palavras te deixo confuso, falar coisas assim depois de trinta anos… Mas essa foto, quando a vi, quando a reencontrei, percebi que precisava dizer tudo isso antes de ir embora. Querido Paulo, onde foi que nos perdemos? Só me lembro de nosso adeus! Quando foi que decidimos que os nossos caminhos não poderiam mais ser trilhados juntos? Por que a chama do seu olhar se apagou enquanto ainda incendiava o meu? Foi essa foto, essa maldita foto, a responsável por essa carta! Despertou em mim algo que eu pensara estar morto ou pelo menos bem enterrado. O pior de tudo: despertou em mim o desejo de ter algo mais que ainda fosse nosso. Guarde-a junto a essa carta. Ou destrua ambas, caso possam lhe causar algum transtorno. Não posso levar essa foto comigo, não consigo.

Quero lhe dizer o que ficou entalado em minha garganta naquela noite, mas não tive coragem de correr até você e dizer: Eu te amo. Eu te amei. Eu te amava demais naquele verão. Você entendeu tudo errado, ou eu não soube me explicar muito bem. Agora não importa mais. Mas eu queria que você soubesse.

Se quiser me encontrar, não será difícil, eu garanto. Se não quiser, fique tranquilo: não haverá mais cartas como essa. Talvez mais uma ou duas, se me permitir, para que eu possa lhe falar sobre a vida em Londres. Talvez voltemos a conversar sobre nossos escritores favoritos. Ou não. Bem, você é quem sabe.

Agradeça (novamente) ao Jorge por ter-lhe entregado essa carta. Durante anos ele teve a delicadeza de omitir o seu nome nas nossas conversas. Mas eu soube ler nas entrelinhas.

 

Sem mais, com amor,

Lília.

 

****

 

Jorge olhou para aquela carta mais uma vez e uma lágrima escorreu por seus olhos. Não sabia como Lília reagiria se a verdade viesse à tona, mas sabia que fizera o certo em criar aquelas falsas conversas, em ao menos manter a chama acesa no coração dela. Era o que Paulo queria. Com certeza era. Ele se agachou e deixou a carta sob o concreto gelado, ao lado de um vaso de flores que havia comprado. Sorriu. Havia cumprido seu papel. Havia entregue a carta conforme solicitado. Que as palavras chegassem ao amigo e ele também pudesse alimentar a chama desse amor eterno.

 

 

 

dezembro 28, 2016

[RESENHA] A VERDADE É UMA CAVERNA NAS MONTANHAS NEGRAS

A Verdade é uma caverna nas montanhas negras, é um conto de Neil Gaiman, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca em 2015. É uma história densa sobre família, a busca por um tesouro escondido, vingança e a descoberta de um mundo invisível. O livro é fruto do trabalho de Gaiman e do ilustrador Eddie Campbell, que transformou a história em um misto de graphic novel e prosa ilustrada.

Neil Gaiman foi convidado para ler um conto em um festival no Sydney Opera House e indicou Campbell para fazer as ilustrações. Em agosto de 2010 a história foi apresentada para uma grande plateia, com o acompanhamento do Quarteto de Cordas FourPlay e foi um sucesso. A verdade é uma caverna nas montanhas negras, publicado originalmente na antologia Stories, recebeu os prêmios Locus e Shirley Jackson, ambos na categoria melhor conto.

“Pouco depois de me apaixonar pela ilha de Skye, descobri os livros da falecida Otta F. Swire, obras que contam lendas e a história das Hébridas Interiores e Exteriores. Esta história começou com uma frase de um dos livros da autora, e cresceu ao seu redor.” (Neil Gaiman)

 

Essa é uma história de leitura rápida não só por ser um conto, mas por ser um conto de Neil Gaiman, autor que consegue nos prender e nos encantar sejam em 10, 20 ou 500 páginas. Dificilmente uma pessoa conseguirá ler o início desta história e deixar o livro de lado:

“Indaga se sou capaz de me perdoar? Posso me perdoar por muitas coisas. Por onde o deixei. Por aquilo que fiz.” (p. 7)

 

O anão de “A verdade é uma caverna nas montanhas negras”.

 

Em A verdade é uma caverna nas montanhas negras, somos transportados para a nebulosa Escócia, onde um anão procura por Calum MacInnes para que este o acompanhe até a caverna na Ilha das Brumas. Chega sem se identificar, mas oferece um pagamento a Calum, que aceita prontamente.

A caverna era amaldiçoada e eles não tinham certeza se encontrariam a Ilha das Brumas, pois o lugar guardava certa magia em si. Os caminhos que os levariam até a caverna eram repletos de desconfianças e pequenas revelações sobre a vida e a personalidade de Colum e do anão.

“- Às vezes acho que a verdade é um lugar. Para mim, é como uma cidade: pode haver uma centena de estradas, uma centena de caminhos que, no fim, nos levarão ao mesmo lugar. Não importa de onde venhamos. Se seguirmos na direção da verdade, vamos alcançá-la, independentemente do rumo que tomarmos.

Calum MacInnes olhou para mim e nada disse. Então:

– Está enganado. A verdade é uma caverna nas montanhas negras. Há somente um caminho até lá, e um caminho apenas. Um caminho árduo e traiçoeiro. E, se seguir na direção errada, vai morrer sozinho na montanha.” (p. 27)

 

Gaiman nos envolve em sua história fazendo-nos acreditar que ela seguiria para um desfecho previsível, e quando estamos quase certos disso, uma grande revelação é feita, deixando-nos de queixo caído. O final desse conto é ótimo, um dos melhores que eu já li. E não perde a qualidade em uma releitura, muito pelo contrário. Recomendo!

 

“As montanhas negras são as Black Cuillins na ilha de Skye, também conhecida como ilha alada, ou talvez ilha das brumas. Dizem que há uma caverna cheia de ouro por lá, e que aqueles que a procuram para levar parte de seu ouro se tornam um pouco mais malignos…” (Neil Gaiman)

 

 

 

Título: A verdade é uma caverna nas montanhas negras
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Eddie Campbell
Tradução: Augusto Calil
Editora: Intrínseca
Páginas: 80

 

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