julho 27, 2017

[RESENHA] A ROSA E O ESPINHO, DE THEODORA GOSS

Sinopse: “Quando Evelyn Morgan entrou na livraria da pequena cidade de Clews não imaginava que iria encontrar ali seu grande amor… E quando Brendan Thorne entregou-lhe um romance medieval, também não sabia que tal fato mudaria tudo… Era como se os dois fizessem parte daquele velho livro e a história de amor registrada naquelas páginas ganhasse vida.

A Rosa e o Espinho é um artefato literário especial: o leitor é convidado a escolher qual lado da história prefere ler primeiro. Um amor eterno, onde o fim é só o recomeço.”

 

Não vou mentir: primeiramente, o que mais me chamou atenção em A Rosa e o Espinho foi o projeto gráfico do livro. Vemos aos montes histórias em que há a versão da mocinha e do mocinho, algumas até bem legais ao ponto de querermos reler a mesma história imediatamente ao final da leitura, mas com o ponto de vista de outro personagem. Entretanto, aqui a edição e a ideia do livro são muito especiais para serem resumidas apenas em os dois lados da mesma história.

O livro vem dentro de um estojo e é sanfonado. Não sei se foi essa a intenção, mas fiquei dias e mais dias pensando em como uma história era o espelho da outra. Nem melhor, nem pior. Apenas o espelho. É preciso certo cuidado ao ler, não indico A Rosa e o Espinho para ler em um ônibus, por exemplo, embora eu tenha lido boa parte da História de Evelyn no caminho para o trabalho. Apesar da estrutura e do certo cuidado recomendado, não é difícil nem enjoado de ler esse livro e, apesar das folhas serem brancas, toda a edição é muito charmosa, fiquei encantada.

 

 

A Rosa e o Espinho é uma leitura que pode ser feita em um único dia. Cada versão do encontro e da história de amor entre Brendan e Evelyn tem exatamente 45 páginas e são igualmente encantadoras. Ele é um rapaz de Clews, na Cornuália, que, contrariando os planos do pai, ao invés de vender livros na livraria da família, optou por estudar literatura. Ela, uma jovem de Boston, EUA, que é perturbada por visões de seres da floresta desde a infância e contraria a família quando decide trocar o curso de Direito pelo de literatura. Eles se conhecem em uma viagem que Evelyn faz à Clews e Brendan está cuidando da livraria para o pai dele. A partir daí, eles vão se envolvendo um com outro em uma história entremeada por personagens da literatura medieval: Sir Gawan e Elowen. Para mim foi uma leitura incrível, estou até hoje pesquisando sobre os livros e os lugares citados em A Rosa e o Espinho. O conto é uma bela e delicada história de amor, mas não recomendo a leitores que precisam ver o final feliz ao virar a última página. Essa leitura termina com expectativas e depende da nossa imaginação para responder às perguntas que ficam.

 

Esperei meses até poder comprar esse livro em um valor razoável para o meu bolso e valeu muito a pena a aquisição. Além de mais uma bela edição em minha estante, tive o prazer de conhecer uma escritora que ainda não conhecia e viajar em sua encantadora história.

 

“Brendam não conseguiu se conter. Levou a mão ao rosto dela, inclinou-se e beijou-a. Foi um beijo delicioso, tão bom que chegava a ser quase um sonho. Evelyn cheirava a flores, certamente de algum perfume que estava usando. Brendan sentiu a maciez de seu rosto, os lábios encostados nos seus. Era isso, pensou uma parte de si – era isso que havia passado a vida inteira esperando, desejando.

O remédio para a solidão que sentia desde criança e à qual os outros pareciam imunes.” (p. 18 – Brendan)

 

“Ela sentiu a boca dele em seu pescoço, depois descendo pelos ombros, os dedos desabotoando e depois tirando a blusa que ela havia escolhido com tanto cuidado para que fosse bonita, mas não excessivamente sensual, pois não queria parecer ansiosa demais. Ainda que não estivesse pensando nisso agora nem se importasse com o que Brendan achava. Só queria que continuassem. Então era essa a sensação de se fazer amor. Nunca na vida tivera essa experiência – nem com os namorados da faculdade, nem com David, nem com os poucos caras depois de David que acabara levando para o seu apartamento em Nova York. Brendan a tocava com um misto de paixão e experiência que ela nunca pensou que existisse. Era como se os seus dedos soubessem exatamente aonde ir, onde encontrar os lugares secretos de seu corpo, como provocá-la e acariciá-la até ela gritar de surpresa e prazer, perplexa com aquela revelação. Quando acabaram, ela dormiu um sono profundo e sem sonhos, enroscada junto às costas dele. Pela primeira vez em sua lembrança, o mundo lhe pareceu correto, como deveria ser. Como se tudo estivesse em seu devido lugar.” (p. 32 – Evelyn)

 

 

SOBRE A AUTORA: Theodora Goss ganhou o prêmio World Fantasy 2008 pelo conto “Singing of Mont Abora” [“O Canto do Monte Abora”]. Entre suas publicações estão a coletânea de contos In the Forest of Forgetting [Na Floresta do Esquecimento], de 2006; Interfictions [Interficções], antologia de contos coorganizada com Delia Sherman em 2008; e Voices from Fairyland [ Vozes da Terra das Fadas], antologia de poemas de 2008 que inclui ensaios críticos e uma seleção de seus próprios poemas. Finalista dos pr~emios Nebula, Crawford, Locus e Mythopoeic, a autora integrou a lista de honra do prêmio Tiptree. Suas obras foram incluídas diversas vezes em antologias de “Melhores do Ano”. Theodora Goss vive em Boston, onde leciona literatura e criação literária na Universidade de Boston.

 

 

Título: A Rosa e o Espinho
Autora: Theodora Goss
Ilustrações: Scott McKowen
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: V&R
Páginas: 90

 

Compre na Amazon: A Rosa e o Espinho.

julho 07, 2017

[CONTO] ANNE: UMA HISTÓRIA INSPIRADA EM PERSUASÃO, DE JANE AUSTEN

Sinopse: Anne pertence a uma importante, porém empobrecida, família do interior de Minas Gerais. No passado, foi apaixonada por Fred, um inteligente e ambicioso rapaz de família humilde. Teria se casado com ele, mas foi persuadida por sua família e recuou do compromisso firmado anteriormente. Vários anos se passam até que um novo Fred volta ao lugar onde foi desprezado pela família Elias. Agora, ele é um homem bem sucedido, um veterinário respeitado e de boa situação financeira. “Anne” é uma releitura moderna de Persuasão, de Jane Austen: a história de um amor que precisará vencer as barreiras do orgulho e do ressentimento para ser vivido.

 

O post de hoje é um convite à leitura do meu conto, Anne, em desenvolvimento na plataforma Wattpad. Veja o primeiro capítulo abaixo:

O Sr. Walter Elias, da fazenda Élio, em Minas Gerais, era um homem que não se distraía com mais nada em momentos de ócio, do que com a leitura do livro de recortes de sua família. Ali tinha um porto seguro nos momentos difíceis e situações desagradáveis ocasionadas, em maior parte, por problemas domésticos. Os jornais antigos mostravam os coronéis, chefes de capitanias hereditárias, todos os grandes homens que tiveram a honra de carregar o sobrenome Elias.

Quando cansava-se de ler sobre seus antepassados, lia fatos de sua própria história, sempre muito bem narrados pelos jornalistas, em nível regional e até nacional. Eis um trecho da biografia do respeitável senhor publicada pelo jornal Estado de Minas Gerais:

Walter Elias, nascido em 1º de março de 1951, casou-se em 15 de julho de 19- com Elisabeth, filha de Frederick Stevenson, distinto cavalheiro imigrante da Inglaterra. Ficara viúvo com três filhas ainda bem jovens: Elisabeth, nascida em 1º de abril de 1981; Anne, nascida em 20 de setembro de 1985; e Mariah, nascida em 19 de novembro de 1987.

Orgulhosamente, usando uma caneta de escrita fina e com traços delicados, escreveu, logo após a data de nascimento de Mariah “casada em 16 de dezembro de 2009 com Carlos Musgrove Filho, herdeiro de Carlos Musgrove, distinto empresário de São Paulo”.

Ninguém podia dizer que o Sr. Walter, conhecido por muitos como Dr. Walter, embora nunca tenha concluído um curso universitário, não era um homem atraente. Aos 66 anos era um viúvo respeitado, que ainda atraía olhares, inclusive de mulheres mais novas, como bem gostava de observar. É bem verdade que a estima que adquiriu em sua comunidade deve-se, além do sobrenome Elias, da lembrança que muitos ainda guardavam de sua falecida esposa, que era uma flor de candura e sabia ignorar os defeitos do marido.

Sr. Walter contou com a valiosa ajuda de D. Glória, uma grande amiga de sua finada mulher, para o término da criação das filhas. Ela também é viúva e de boa família, mas, contrariando todos os mexericos e expectativas da comunidade, os dois não se casaram. Não havia necessidade, tampouco desejo da parte de Sr. Walter. Era um bom pai e viveria o resto de sua vida em função das filhas, sobretudo da mais velha, fisicamente semelhante à mãe, mas de temperamento e caráter iguais ao seu. Mariah havia se casado na primeira boa oportunidade que teve e Anne… bem, Anne sempre esteve a cargo de D. Glória, sua madrinha de batismo. Embora fosse a imagem e semelhança do pai, ele não tinha paciência para os arroubos de Anne e seu diferente jeito de ser.

No momento, irritava-se facilmente com os pitacos que a filha dava em relação à situação financeira da família.

– A fazenda não produz como antes! Na verdade, não produzimos nada de relevante, não nos automatizamos e gastamos muito dinheiro com frivolidades! – dizia Anne.

– Elisabeth é uma ótima senhora para a Fazenda Élio. Se os negócios vão mal, a culpa é da economia brasileira, que está em frangalhos! – defendia o Sr. Walter.

– Querido pai, não podemos culpar a economia pelos gastos frequentes e as festas que vocês dão. Daqui a pouco não teremos como pagar os salários dos empregados! A melhor saída, como eu já disse mais de uma vez, é arrendar a fazenda. Pelo menos parte dela. O Dr. Gonçalo tem algumas pessoas para nos indicar. Vamos ouvi-lo!

Dr. Walter se enfurecia toda vez que percebia que Anne tinha razão. A serenidade com a qual ela lidava com a situação o fazia odiá-la. Certamente não se importava em deixar a fazenda, virava-se bem no meio de gente pobre e se achava independente, pois tinha um emprego. Mas Elisabeth, pobre Elisabeth, o que seria dela e dele próprio não podendo mais serem os senhores da Fazenda Élio? Infelizmente não tinham saída. Teriam de arrendar a fazenda. Mas seria por pouco tempo, tinha certeza. Eram férias do campo! Enquanto isso viveriam em uma casa não muito longe dali, uma residência mais modesta, comparada à sede da fazenda. Muito bem localizada, a casa ficava de frente para o Paço Municipal, com suas belas árvores e mesinhas de jogar xadrez.

 

***

 

– Dr. Walter, tenho o arrendatário perfeito para o senhor! – Disse o animado advogado da família, Dr. Gonçalo. – É um militar aposentado e sua esposa. Não têm filhos e desejam a calmaria do interior. Não tendo achado uma propriedade para comprar, estão dispostos a arrendar a Fazenda Élio; a área da casa grande, os estábulos e uma parte do campo, onde fica o pomar. A parte agrícola, como o Sr. sabe, será arrendada para a indústria.

– E esse militar, acaso tem dinheiro? – perguntou Sr. Walter.

– Sim, e muito! Nem quis negociar. É de família abastada, afastou-se da Aeronáutica por problemas de visão, pelo o que eu pude entender. – disse o advogado.

Sr. Walter bufou.

– Então um velho cegueta vai ser o senhor da minha fazenda? – Sr. Walter debochou, sob o olhar de reprovação de Anne.

– De maneira alguma, Dr. Walter. Ele não é cego, nem velho. Bem, deve ter a idade do senhor, talvez um pouco menos. – Dr. Gonçalo riu e logo se envergonhou com o olhar de reprovação do Sr. Walter. – Ele saiu da Aeronáutica porque lá não admitem pilotos com problemas de visão que podem ser tornar mais graves com o tempo. E ele já tinha muitos anos de serviço, pelo que pude apurar. Ademais, o cunhado dele conhece bem a região. É um renomado veterinário, cuidará dos cavalos enquanto estiver aqui. Dr. Andrade é o sobrenome dele, mas não me recordo o nome.

Sr. Walter franziu o cenho ao perceber Anne pálida como um fantasma.

– Não conheço ninguém com esse sobrenome. – disse Sr. Walter.

– Frederick. O nome dele é Frederick. – respondeu Anne, de forma quase inaudível.

– Ah, então vocês o conhecem? Ótimo! Vou dar andamento à papelada e em breve procuro o Sr., Dr. Walter, para finalizarmos a transação, assinando o contrato.

Sr. Walter acompanhou o advogado até a saída e foi tratar com Elisabeth os detalhes da decoração da casa da cidade, pois vários objetos teriam de ser substituídos ou acrescentados agora que a família Elias estava de mudança. Anne ficara jogada em sua poltrona favorita, o pensamento apenas em uma pessoa.

– Em pouco tempo ele estará aqui novamente. Fred estará aqui.

 

Ouça a playlist de “Anne” no Spotify (clique na imagem)!

 

Avaliações e comentários são muito bem-vindos! Será uma história curta, com previsão de término no final deste mês de julho ou início de agosto. Quem gosta de romance sem muitas cenas quentes, só amorzinho mesmo, está convidado a suspirar comigo! Basta clicar aqui.

junho 20, 2017

[CONTO] O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA

 

ATENÇÃO: Texto não recomendado para menores de 18 anos. Conteúdo sexual. 

 

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morras.”  (Gênesis 3:3)

Apaixonaram-se tão logo seus olhos se encontraram. E o primeiro beijo confirmou o fato. Qualquer um que visse o casal pensava que eram eternos apaixonados, conhecidos de muitos anos. Era um encontro de almas, Sofia pensava. Não podia ser nada menos que isso.

Encontravam-se nos finais de semana em que ele não estava de serviço. Era um acordo implícito, mas que Sofia respeitava com o rigor de um culto religioso. Bastavam os olhos deles se encontrarem para a magiar acontecer, um sorriso espontâneo surgir.

Na noite em que se conheceram, ele a levou para casa. A vontade de ficar junto àquele homem era maior que o pânico de entrar no carro de alguém que ela mal conhecia. Antes de chegar ao destino final, o carro rumou para um lugar deserto: o alto de um morro onde estava sendo construído um condomínio de gente bacana. Parou onde, futuramente, seria uma bela e segura portaria. Abaixo, as poucas luzes ainda acesas na cidade.

“Você pode pensar o contrário, mas eu não sei bem o que fazer. Não sou do tipo que pega carona com estranhos… Na verdade, mal vou a festas…”, sentia-se idiota por tentar se explicar, mas precisava fazê-lo. O dedo indicador dele interrompeu as explicações de Sofia.

“Você é linda. Estou apaixonado por você. Tenho a impressão que estamos nos reencontrando…”

Alguma coisa na cabeça de Sofia a alertava de que aquilo era exatamente o que ela gostaria de ouvir e que ele talvez soubesse disso. Mas aquele homem, o cheiro dele e aquele lugar… ela queria viver aquela paixão. Depois pensaria no depois.

Beijaram-se como se o mundo estivesse prestes a acabar, como se todas as respostas e todas as perguntas estivessem nos lábios um do outro. No banco de trás do carro, embalados por Sacrifice, de Elton John, ele tomava um dos seios de Sofia com a boca, enquanto suas mãos passeavam pelo corpo da jovem. Era um homem que sabia bem o que estava fazendo, maravilhado com uma garota que parecia recém-saída de um casulo, prestes a voar com ele.

Sofia já estava nua no banco de trás do carro quando ele conseguiu afastar os lábios de seu sexo e finalmente tirar a calça. Ela, tomando o controle da situação, subira nele, surpreendendo-o. A surpresa foi dando lugar ao prazer e ao gozo. Sofia, embora não fosse mais virgem há algum tempo, teve ali seu primeiro orgasmo, com alguém que ela não conhecia muito bem, mas já amava secretamente.

“Linda! Linda! E gostosa…” disse ao pé do ouvido de Sofia, para então beijá-la novamente; o gosto dela ainda na boca dele. Abriu a porta do carro e saiu despido como estava, para ser banhado pela lua.

“Vem aqui, deixa eu te ver plena como você está!” Sofia saiu do carro envergonhada, mas logo estava recostada no capô, serena, com a lua banhando sua nudez.

“Eu queria congelar esse momento. Você, linda, minha… vestida apenas pela noite.” E ele ficou alguns segundos olhando aquele corpo nu, fresco, de mulher jovem, deliciosa. Em seu íntimo sabia estar brincando com fogo, mas já havia se queimado. Sentia-se mais viril com Sofia, o desejo dela o inflamava. Era a primeira vez que se sentia assim, mesmo já tendo passado dos quarenta anos.

“Acho melhor você me levar para casa agora.”, disse Sofia, começando a ter vergonha de sua nudez, na rua, praticamente deitada no capô do carro.

Ele não respondeu, deu um sorrisinho e logo a estava beijando novamente. Suas mãos tinham completo controle sobre ela e eles se amaram ali mesmo, com a benção da lua.

No caminho de volta, Sofia mal ouvira o que tocava no rádio. De olhos fechados por boa parte do trajeto, ela se perguntava se algo assim realmente teria acontecido com ela. Mas era só abrir os olhos para ver o homem sorridente ao seu lado provando que sim. O cheiro em seu corpo e os sinais de que fora amada, também.

“Me dê o seu número, Sofia.” Ela deu, e também um longo beijo de despedida. Mas a semana passara sem que ela tivesse notícias dele.

 

***

 

“Não esperava flores ou bombons, mas você podia ter me ligado!” disse em tom de brincadeira na semana seguinte, embora estivesse realmente magoada. Desculpas foram dadas e aceitas e Sofia desejou nunca mais ficar a sós com aquele homem. Entretanto, ele era presença frequente no barzinho que ela frequentava e Sofia continuava a ir lá todos os fins de semana para vê-lo. Quando ficava parada, olhando para ninguém, logo sentia a presença dele. Um passo para trás e ele logo a fisgava.

“Desculpe. Gosto de ficar perto de você, sentir o seu cheiro. Linda!”

Toda vez que ela pensava em largá-lo, o mel das palavras dele faziam-na desistir. Toda vez que ela pensava em ir embora sozinha, um simples toque a lembrava que ela gostava de se sentir mulher com ele.

Sofia sempre falava mais, contava mais de sua vida, nos breves momentos em que eles apenas conversavam. Sua paixão se esquivava, ela percebia. Teciam apenas o velho diálogo de Adão e Eva, lembrara ferida, ao reler Machado de Assis.

Queria mais que sexo, embora o sexo fosse maravilhoso. Quando o cérebro de Sofia sinalizava a verdade, ela fechava os olhos e fingia não entender.

“Me faz um favor? Não diz que me ama se não for verdade.”

“Eu amo você, Sofia. Sabe tatuagem? É impossível tirar. Você está tatuada aqui dentro…”

Não tinha certeza se ele a compreendera, mas não quis ter o esforço de insistir na conversa. A velha impressão de que ele falava o que ela queria ouvir era evidente. Resolveu ouvir. Depois pensaria no depois.

 

***

 

Sofia vislumbrava uma família linda como as que ela sempre via em suas corridas pelo parque municipal. É certo que fazia algumas semanas que ela não corria, pois tinha muito trabalho naquela época do ano. Não reparava bem as pessoas, mas tinha a meta de um dia ser como aqueles casais que ela via rodeado de crianças, felizes nos fins de tarde.

Resolveu caminhar ao invés de correr e o pensamento de que o seu amor podia, no futuro, estar ali com ela, rodeado de crianças, aquecera seu coração. Todas aquelas famílias acabavam forçando esse pensamento. Resolveu olhar bem para as pessoas, ver se conhecia alguém. Uma visão em especial chamara-lhe a atenção. Não sabia se já o havia visto no parque, mas a visão de um casal feliz, trocando carícias, e três crianças gargalhando em um balanço deixara Sofia sem ar. Os olhos se encontraram, mas não houve sorriso. Apenas a verdade que Sofia não quis perceber.

 

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