outubro 11, 2017

[RESENHA] ED MORT, DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Sinopse: “Um dos personagens mais populares de Luis Fernando Verissimo, o detetive Ed Mort apareceu pela primeira vez em 1979, no conto “A armadilha”, para nunca mais sair de cena. De língua afiada, coração mole e sempre sem um tostão no bolso, saiu das páginas dos livros, virou filme e, mais recentemente, minissérie para a televisão no canal Multishow, com Fernando Caruso no papel do detetive trapalhão.”

 

Mort. Ed Mort. Detetive Particular criado por Luis Fernando Veríssimo. Suas histórias são curtas, mas deliciosamente envolventes e bem humoradas. É uma caricatura de outros detetives, sobretudo Philip Marlowe, de Raymond Chandler. Seu escri (o tório foi sublocado) tem a presença constante de baratas e de um rato albino, o Voltaire. O nome, é porque ele some, mas sempre volta. Tem tudo o que Agnaldo Timóteo já gravou. Suas frases são curtas como o cano do seu .38, cujo talão do penhor ele carrega no coldre para qualquer eventualidade. Fez o curso de detetive por correspondência, mas há relatos (do próprio Ed) de que o carteiro foi subornado. Ainda assim, nunca entregou a aula sobre como ganhar dinheiro nesta profissão. Mort. Ed. Mort. Detetive Particular. Tá na capa do livro. Leia, eu recomendo.

 

“— Qual foi o motivo do crime?

— Não sabemos.

— Vocês não sabem nada. Eu resolveria esse caso em três minutos. Dois, se tivesse verba do Estado. Encontraria o assassino e o motivo do crime.

— Você não encontraria o próprio nariz com as duas mãos.

Levei a mão ao nariz e o segurei com força.

— Olhe. E com uma mão.

Ninguém me ganha em diálogo inteligente.”

 

Trecho de Ed Mort, de Luis Fernando Veríssimo.

 

 

Abaixo, um trecho da adaptação mais recente, a minissérie do canal Multishow, tendo Fernando Caruso no papel de Ed Mort.

 

Essa resenha pode ter ficado um pouco estranha, mas eu desafio você, leitor, a ler esse livro e não falar usando a mesma estrutura narrativa de Luis Fernando Veríssimo e seu hilário detetive particular, que é uma caricatura não só de detetives ilustres da ficção, mas de um Brasil não muito distante de nós. É uma leitura rápida, leve e divertida. O livro reúne todas as histórias do personagem em contos bem curtinhos. Uma ótima pedida para o feriado ou qualquer dia em que a palavra de ordem seja relaxar.

 

 

 

Título: Ed Mort
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Páginas: 80

 

Compre na Amazon: Ed Mort.

julho 27, 2017

[RESENHA] A ROSA E O ESPINHO, DE THEODORA GOSS

Sinopse: “Quando Evelyn Morgan entrou na livraria da pequena cidade de Clews não imaginava que iria encontrar ali seu grande amor… E quando Brendan Thorne entregou-lhe um romance medieval, também não sabia que tal fato mudaria tudo… Era como se os dois fizessem parte daquele velho livro e a história de amor registrada naquelas páginas ganhasse vida.

A Rosa e o Espinho é um artefato literário especial: o leitor é convidado a escolher qual lado da história prefere ler primeiro. Um amor eterno, onde o fim é só o recomeço.”

 

Não vou mentir: primeiramente, o que mais me chamou atenção em A Rosa e o Espinho foi o projeto gráfico do livro. Vemos aos montes histórias em que há a versão da mocinha e do mocinho, algumas até bem legais ao ponto de querermos reler a mesma história imediatamente ao final da leitura, mas com o ponto de vista de outro personagem. Entretanto, aqui a edição e a ideia do livro são muito especiais para serem resumidas apenas em os dois lados da mesma história.

O livro vem dentro de um estojo e é sanfonado. Não sei se foi essa a intenção, mas fiquei dias e mais dias pensando em como uma história era o espelho da outra. Nem melhor, nem pior. Apenas o espelho. É preciso certo cuidado ao ler, não indico A Rosa e o Espinho para ler em um ônibus, por exemplo, embora eu tenha lido boa parte da História de Evelyn no caminho para o trabalho. Apesar da estrutura e do certo cuidado recomendado, não é difícil nem enjoado de ler esse livro e, apesar das folhas serem brancas, toda a edição é muito charmosa, fiquei encantada.

 

 

A Rosa e o Espinho é uma leitura que pode ser feita em um único dia. Cada versão do encontro e da história de amor entre Brendan e Evelyn tem exatamente 45 páginas e são igualmente encantadoras. Ele é um rapaz de Clews, na Cornuália, que, contrariando os planos do pai, ao invés de vender livros na livraria da família, optou por estudar literatura. Ela, uma jovem de Boston, EUA, que é perturbada por visões de seres da floresta desde a infância e contraria a família quando decide trocar o curso de Direito pelo de literatura. Eles se conhecem em uma viagem que Evelyn faz à Clews e Brendan está cuidando da livraria para o pai dele. A partir daí, eles vão se envolvendo um com outro em uma história entremeada por personagens da literatura medieval: Sir Gawan e Elowen. Para mim foi uma leitura incrível, estou até hoje pesquisando sobre os livros e os lugares citados em A Rosa e o Espinho. O conto é uma bela e delicada história de amor, mas não recomendo a leitores que precisam ver o final feliz ao virar a última página. Essa leitura termina com expectativas e depende da nossa imaginação para responder às perguntas que ficam.

 

Esperei meses até poder comprar esse livro em um valor razoável para o meu bolso e valeu muito a pena a aquisição. Além de mais uma bela edição em minha estante, tive o prazer de conhecer uma escritora que ainda não conhecia e viajar em sua encantadora história.

 

“Brendam não conseguiu se conter. Levou a mão ao rosto dela, inclinou-se e beijou-a. Foi um beijo delicioso, tão bom que chegava a ser quase um sonho. Evelyn cheirava a flores, certamente de algum perfume que estava usando. Brendan sentiu a maciez de seu rosto, os lábios encostados nos seus. Era isso, pensou uma parte de si – era isso que havia passado a vida inteira esperando, desejando.

O remédio para a solidão que sentia desde criança e à qual os outros pareciam imunes.” (p. 18 – Brendan)

 

“Ela sentiu a boca dele em seu pescoço, depois descendo pelos ombros, os dedos desabotoando e depois tirando a blusa que ela havia escolhido com tanto cuidado para que fosse bonita, mas não excessivamente sensual, pois não queria parecer ansiosa demais. Ainda que não estivesse pensando nisso agora nem se importasse com o que Brendan achava. Só queria que continuassem. Então era essa a sensação de se fazer amor. Nunca na vida tivera essa experiência – nem com os namorados da faculdade, nem com David, nem com os poucos caras depois de David que acabara levando para o seu apartamento em Nova York. Brendan a tocava com um misto de paixão e experiência que ela nunca pensou que existisse. Era como se os seus dedos soubessem exatamente aonde ir, onde encontrar os lugares secretos de seu corpo, como provocá-la e acariciá-la até ela gritar de surpresa e prazer, perplexa com aquela revelação. Quando acabaram, ela dormiu um sono profundo e sem sonhos, enroscada junto às costas dele. Pela primeira vez em sua lembrança, o mundo lhe pareceu correto, como deveria ser. Como se tudo estivesse em seu devido lugar.” (p. 32 – Evelyn)

 

 

SOBRE A AUTORA: Theodora Goss ganhou o prêmio World Fantasy 2008 pelo conto “Singing of Mont Abora” [“O Canto do Monte Abora”]. Entre suas publicações estão a coletânea de contos In the Forest of Forgetting [Na Floresta do Esquecimento], de 2006; Interfictions [Interficções], antologia de contos coorganizada com Delia Sherman em 2008; e Voices from Fairyland [ Vozes da Terra das Fadas], antologia de poemas de 2008 que inclui ensaios críticos e uma seleção de seus próprios poemas. Finalista dos pr~emios Nebula, Crawford, Locus e Mythopoeic, a autora integrou a lista de honra do prêmio Tiptree. Suas obras foram incluídas diversas vezes em antologias de “Melhores do Ano”. Theodora Goss vive em Boston, onde leciona literatura e criação literária na Universidade de Boston.

 

 

Título: A Rosa e o Espinho
Autora: Theodora Goss
Ilustrações: Scott McKowen
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: V&R
Páginas: 90

 

Compre na Amazon: A Rosa e o Espinho.

julho 07, 2017

[CONTO] ANNE: UMA RELEITURA DE PERSUASÃO, DE JANE AUSTEN

Sinopse: Anne pertence a uma importante, porém empobrecida, família do interior de Minas Gerais. No passado, foi apaixonada por Fred, um inteligente e ambicioso rapaz de família humilde. Teria se casado com ele, mas foi persuadida por sua família e recuou do compromisso firmado anteriormente. Vários anos se passam até que um novo Fred volta ao lugar onde foi desprezado pela família Elias. Agora, ele é um homem bem sucedido, um veterinário respeitado e de boa situação financeira. “Anne” é uma releitura moderna de Persuasão, de Jane Austen: a história de um amor que precisará vencer as barreiras do orgulho e do ressentimento para ser vivido.

 

O post de hoje é um convite à leitura do meu conto, Anne. Veja o primeiro capítulo abaixo:

Anne

Capítulo 1

Minas Gerais, século XXI.

 

O Sr. Walter Elias, da fazenda Élio, em Minas Gerais, era um homem que, em momentos de ócio, não se distraía com mais nada além da leitura do livro de recortes de sua família. Ali tinha um porto seguro nos momentos difíceis e situações desagradáveis ocasionadas, em maior parte, por problemas domésticos. Os jornais antigos mostravam todos os grandes homens que tiveram a honra de carregar o sobrenome Elias.

Quando se cansava de ler sobre seus antepassados, lia fatos de sua própria história, sempre muito bem narrados pelos jornalistas em nível regional e até nacional. Eis um trecho da biografia do respeitável senhor publicada pelo jornal Estado de Minas Gerais:

 

Walter Elias, nascido em 1º de março de 1951, casou-se em 15 de julho de 19-— com Elisabeth, filha de Frederick Stevenson, distinto cavalheiro imigrante da Inglaterra. Ficou viúvo com três filhas ainda bem jovens: Elisabeth, nascida em 1º de abril de 1981; Anne, nascida em 20 de setembro de 1985; e Mariah, nascida em 19 de novembro de 1987.

 

Orgulhosamente, usando uma caneta de escrita fina e com traços delicados, escreveu, logo após a data de nascimento de Mariah: “casada em 16 de dezembro de 2009, com Carlos Musgrove Filho, herdeiro de Carlos Musgrove, distinto empresário de São Paulo”.

 

Ninguém podia dizer que o Sr. Walter, conhecido por muitos como Dr. Walter, embora nunca tenha concluído um curso universitário, não era um homem atraente. Aos sessenta e seis anos, era um senhor respeitado, que ainda atraía olhares, inclusive de mulheres mais novas, como bem gostava de observar. É bem verdade que a estima adquirida em sua comunidade se deve, além do sobrenome Elias, à lembrança que muitos ainda guardavam de sua falecida esposa, que era uma flor de candura e sabia ignorar os defeitos do marido.

Sr. Walter tão logo enviuvou, teve a valiosa ajuda de D. Glória, uma grande amiga de sua finada mulher, para o término da criação das filhas. Ela também é uma viúva e de boa família, mas, contrariando todos os mexericos e expectativas da comunidade, os dois não se casaram. Não havia necessidade, tampouco desejo da parte de Sr. Walter. Ele se considerava um bom pai e viveria o resto de sua vida em função das filhas, sobretudo da mais velha, fisicamente semelhante à mãe, mas de temperamento e caráter iguais ao seus. Mariah havia se casado na primeira boa oportunidade que teve, e Anne… Bem, Anne sempre esteve a cargo de D. Glória, sua madrinha de batismo. Embora fosse a imagem e semelhança do pai, ele não tinha paciência para os arroubos de Anne e seu diferente jeito de ser.

No momento, irritava-se facilmente com os pitacos que a filha dava em relação à situação financeira da família.

— A fazenda não produz como antes. Na verdade, não produzimos nada de relevante, não nos automatizamos e gastamos muito dinheiro com frivolidades! – Dizia Anne.

— Elisabeth é uma ótima senhora para a Fazenda Élio. Se os negócios vão mal, a culpa é da economia brasileira, que está em frangalhos! – Defendia o Sr. Walter.

— Querido pai, não podemos culpar a economia pelos gastos frequentes e as festas que vocês dão. Daqui a pouco, não teremos como pagar os salários dos empregados! A melhor saída, como eu já disse mais de uma vez, é arrendar a fazenda. Pelo menos parte dela. O Dr. Gonçalo tem algumas pessoas para nos indicar. Vamos ouvi-lo!

Dr. Walter se enfurecia toda vez que percebia que Anne tinha razão. A serenidade com a qual ela lidava com a situação o fazia quase detestá-la. Certamente não se importava em deixar a fazenda, se virava bem no meio de gente pobre, e se achava independente, pois tinha um emprego. Mas Elisabeth, pobre Elisabeth, o que seria dela, e dele próprio, não podendo mais serem os senhores da Fazenda Élio? Infelizmente não tinham saída, teriam de arrendar a fazenda. Mas seria por pouco tempo, tinha certeza. Seriam férias do campo! Enquanto isso, viveriam em uma casa não muito longe dali, uma residência mais modesta, comparada à sede da fazenda. Muito bem localizada, essa casa ficava de frente para o Paço Municipal e suas belas árvores e mesinhas de jogar xadrez.

 

***

 

— Dr. Walter, tenho os arrendatários perfeito para o senhor! – Disse o animado advogado da família, Dr. Gonçalo. – Um militar aposentado e sua esposa. Não têm filhos e desejam a calmaria do interior. Não tendo achado uma propriedade para comprar, estão dispostos a arrendar a Fazenda Élio; a área da casa grande, os estábulos e uma parte do campo onde fica o pomar. A parte agrícola, como o Sr. sabe, será arrendada para a indústria.

— E esse militar por acaso tem dinheiro? – Perguntou Sr. Walter.

— Sim, e muito! Nem quis negociar. É de família abastada, se afastou da Aeronáutica por problemas de visão, pelo o que eu pude entender. – Disse o advogado.

Sr. Walter bufou e debochou, sob o olhar de reprovação de Anne:

— Então um velho cegueta vai ser o senhor da minha fazenda?

— De maneira alguma, Dr. Walter. Ele não é cego, nem velho. Bem, deve ter a idade do senhor, talvez um pouco menos. – Dr. Gonçalo riu e logo se envergonhou com o olhar crítico de Sr. Walter. – Ele saiu da Aeronáutica porque lá não admitem pilotos com problemas de visão que podem se agravar com o tempo. E ele já tinha muitos anos de serviço, pelo que pude apurar. Ademais, o cunhado dele conhece bem a região. É um renomado veterinário, cuidará dos cavalos enquanto estiver aqui. Andrade é o sobrenome dele, mas não me recordo o nome.

Sr. Walter franziu o cenho ao perceber Anne pálida como um fantasma.

— Não conheço ninguém com esse sobrenome. – Disse Sr. Walter.

— Frederick. O nome dele é Frederick. – Respondeu Anne de forma quase inaudível.

— Ah, então vocês o conhecem? Ótimo! Vou dar andamento à papelada e em breve lhe procuro, Dr. Walter, para finalizarmos a transação e assinarmos o contrato.

Sr. Walter acompanhou o advogado até a saída e foi tratar com Elisabeth os detalhes da decoração da casa da cidade, pois vários objetos teriam de ser substituídos ou acrescentados, agora que a família Elias estava de mudança. Anne ficara jogada em sua poltrona favorita, com o pensamento apenas em uma pessoa.

— Em pouco tempo ele estará aqui novamente. Fred estará aqui.

 

Clique na imagem e ouça a playlist de “Anne” no Spotify!

 

Anne foi publicado em seis capítulos de forma semanal no Wattpad entre julho e agosto deste ano. Agora, desde o dia 22 de setembro, está disponível em e-book na Amazon, em edição revista e com um capítulo extra. Quem gosta de romance sem muitas cenas quentes, só amorzinho mesmo, está convidado a suspirar comigo!

(Avaliações e comentários são muito bem-vindos!)

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