Abril 05, 2018

[CONTO] SÍTIO DESENGANO, CAPÍTULO 1

Sinopse: Após o caso do matador noturno, Almeida decide tirar férias em um belo e calmo sítio. Sua rotina não envolve nada além de fotografar pássaros e ler algum romance de Agatha Christie antes de dormir. No entanto, em uma manhã que parecia ser tão calma como todas as outras no Sítio Desengano, ele acorda sobressaltado com um barulho que parece ser de um disparo. Há um corpo no curral da propriedade, portanto Almeida e Rony precisam desvendar mais esse mistério: o assassinato no Sítio Desengano.

Capítulo 1

O lugar era realmente lindo, Almeida constatava a cada caminhada ao ar livre. Todos os dias pela manhã, ele saia à procura de novos exemplares para a sua coleção de fotografias de pássaros. Passara também a gravar o som deles, uma melodia que acalmava o seu coração. Há semanas não tinha qualquer contato com o mundo urbano, e isso o deixava muito feliz. Talvez uma aposentadoria não fosse, afinal, uma ideia muito ruim. Almeida havia encontrado uma nova rotina, a qual ele aprendeu a gostar. Sem roubos, sem mortes, sem delegacia de polícia.

Há tempos também não tinha notícias de Rony. Depois da repercussão do caso do Matador Noturno, a carreira do rapaz como investigador deu uma guinada. Financeiramente, é claro, nada mudou. Mas ele deixou de ser visto como um simples novato, um recruta, como os militares dizem. A última notícia que Almeida teve de Rony é que ele estava solteiro, a namorada mudou-se para o exterior e eles acharam por bem dar um fim na relação.

O detetive estava isolado no Sítio Desengano. Não que o lugar fosse tão remoto a ponto de deixá-lo a parte de tudo e todos, pelo contrário. No sítio, que na verdade era uma pequena pousada onde os proprietários, um casal de idosos, recebiam algumas pessoas que lhes reforçavam a renda e também ofereciam certa companhia, havia bom sinal de telefone e internet. Mas Almeida, com seu jeitão antiquado, queria aproveitar ao máximo a vida no campo. Só usava o telefone quando estritamente necessário.

— Bom dia, D. Maria! — Almeida era sempre o primeiro a cumprimentar a senhora que sempre estava acordada às cinco da manhã, perfumando a cozinha com seu delicioso café.

— Bom dia, Seu Detetive! — D. Maria respondia, todos os dias da mesma forma. — Vai investigar algum pássaro agora pela manhã?

— Sim, é claro. — dizia Almeida. — Além da temperatura agradável, não posso desperdiçar o bom ar da manhã. Faz muito bem aos pulmões!

— Aqui está, seu gole de café. — Servia D. Maria. Almeida dava um susto no estômago, como ele mesmo costumava dizer, fazia sua caminhada de investigação, para então, só mais tarde, fazer a refeição completa.

— Até daqui a pouco, D. Maria! — Almeida tomava o café como quem toma um gole de cachaça, e, tendo a câmera pendurada ao pescoço e um boné na cabeça, saía rumo às trilhas no meio do mato.

***

Os pássaros eram mais fáceis de serem vistos e fotografados logo ao amanhecer e depois ao crepúsculo. Esses eram os momentos em que Almeida passava sozinho, buscando novas trilhas e explorando lugares até então desconhecidos por ele, mesmo morando não muito longe dali. Eram apenas algumas dezenas de quilômetros! Ainda assim, o Sítio Desengano foi um achado geográfico.

Em suas caminhadas ora matutinas, ora vespertinas, o detetive Almeida havia fotografado exemplares de fim-fim, garça-vaqueira, pica-pau-de-banda-branca, cuitelão, seriema, jacuaçu e muitos outros. Tudo ficava catalogado em seu bloquinho de capa de couro, modelo outrora usado para anotar pistas de suas investigações. Os pássaros eram reconhecidos por vizinhos do sítio, amigos de D. Maria e Seu Luiz e, em último caso, pesquisados internet afora.

Os horários que não eram dedicados aos pássaros, Almeida dedicava às pessoas. D. Maria recebia muitas visitas e todos ali gostavam muito de conversar. Nos primeiros dias Almeida ficara surpreendido com a quantidade de pessoas que iam até o sítio para pedir algo, vender, negociar ou, simplesmente, jogar conversa fora na hora do café. Era um lugar cheio de vida, o sítio Desengano.

À noite, quando não havia visitas, os três comentavam alguma notícia do jornal e assistiam à novela das oito. O quarto de Almeida tinha uma televisão, mas ele preferia ficar na grande sala, com D. Maria e Seu Luis. No momento, o detetive era o único hóspede do casal. Mais tarde, um livro era a companhia de Almeida até que ele adormecesse. Estava lendo alguns livros de Agatha Christie e anotando o progresso de suas leituras em outro bloquinho de capa de couro. A obra da escritora inglesa era extensa, assim como a quantidade de pássaros no céu. Ele teria muita coisa para anotar em seus bloquinhos enquanto durassem suas férias.

***

Na manhã seguinte, Almeida acordou assustado. Pensou ter ouvido um tiro, mas só podia estar sonhando. Talvez fosse um efeito da leitura da noite anterior, embora o som fosse tão facilmente reconhecido pelo detetive como um tiro, que ele logo pulou da cama para ver se tudo estava em ordem.

Chegando à cozinha, achou D. Maria e Seu Luiz alarmados. Os dois também ouviram o barulho estranho. O trio resolveu investigar, saíram da casa juntos e foram verificar o terreiro e os arredores.

Tudo parecia estar bem. O cachorro dormia logo na saída da cozinha. O terreiro estava vazio, apenas com algumas folhas caídas, certamente da rápida chuva da noite anterior. Nenhum sinal de visitas indesejadas.

Chegando ao curral, Almeida, D. Maria e Seu Luiz alarmaram-se quase ao mesmo instante, ao verificarem um corpo caído, na lama pisoteada pelas vacas.

Continue acompanhando essa história aqui.

Fevereiro 15, 2018

[CONTO] BICHECTOMIA

Sinopse: “Quando viu o nome bichectomia escrito no panfleto de uma clínica do bairro, Carolina logo decidiu que queria uma.”

 

Este conto foi publicado na coletânea Miríade, da Andross Editora. Saiba mais aqui.

 

***

 

Era para ser uma tarde como outra qualquer, mas Carolina decidiu fazer uma Bichectomia. Assim, do nada. Bem, não do nada, mas a partir do momento em que leu bichectomia no panfleto de uma clínica do bairro. Decidiu que queria um negócio desses. Nome legal, bi-chec-to-mi-a.

– Moça, por favor! – disse, batendo no balcão. – Quero uma bichectomia.

A secretária olhou para Carolina parecendo não entender o pedido.

– A senhora quer uma bichectomia? A senhora está ciente do que se trata esse procedimento?

Carolina vacilou, mas logo se recompôs.

– Vi no panfleto. Quero uma bichectomia.

A secretária sorriu amarelo e foi ver com o doutor se a mulher poderia ter sua bichectomia sem demora.

O doutor chamou por Carolina e explicou-lhe rapidamente sobre o procedimento. Algumas agulhas, raspagens e ela ficaria, em poucas horas, tal qual uma personagem de Hollywood!

Carolina desejou ter lido com mais atenção o panfleto da clínica.

Adormeceu. Quando acordou, estava sozinha. Tinha dificuldade para falar. Seu rosto estava estranho, seco… duro. Carolina… não tinha mais bochechas! Olhou para um caco de espelho e viu-se refletida. Tinha um rosto bizarro! Mas que jeito de passar a tarde!

– Doutor, doutor! – ela chamou.

O doutor apareceu na porta do quarto com um engravatado e uma pilha de papéis.

– Dona Carolina, eu posso explicar. A senhora foi a minha primeira paciente de bichectomia… quis tentar algo novo… nós vamos reparar o dano, fique tranquila!

– Doutor, doutor! – interrompeu Carolina, estranhando sua própria voz, agora esganiçada. – Eu ia lhe perguntar se já posso sair.

Os doutores, pasmos, abriram passagem para a mulher sem bochechas, sem dizer palavra.

– Eu, hein! Pensaram que eu não sabia o que era bichectomia? Que boa essa técnica de aumentar os lábios afinando o rosto. Só queria não ter ficado com aparência tão gótica…

Carolina não daria o braço a torcer mesmo que achasse estar feia, o que não achava. No mais, gostava mesmo de chamar atenção. Recomendaria o procedimento a algumas de suas amigas. Certeza!

 

Fevereiro 08, 2018

[RESENHA] UM CONDE PARA MINHA AMIGA, DE TÂNIA PICON

Sinopse: “Violet Melbory, que não acredita ter atrativos suficientes para arranjar um pretendente para si mesma, inicia a temporada, bem como sua apresentação social, mais preocupada em arranjar um bom partido para uma de suas melhores amigas. Pois Sophie Valdere sofreu uma decepção amorosa e Violet deseja ver um sorriso de volta ao rosto da amiga. Ela só precisa agora encontrar um pretendente adequado… Um que seja rico e de boa família, para que os pais de Sophie aprovem, e bonito. O que, talvez, não seja assim tão fácil…
Quando de repente Violet se depara com um cavalheiro que se enquadra em todos os quesitos, descobre também que ele tem um apetite insaciável, então resolve se aproximar dele usando um trunfo que tem. Violet faz, em segredo, biscoitos.
O problema é que nem sempre as coisas ocorrem da maneira como a gente espera e, entre biscoitos, talvez Violet descubra que não é tão sem atrativos assim. E que ser bela como suas irmãs e amigas não é assim tão fundamental para se encontrar um final feliz.

O conto é o primeiro da Trilogia Casamenteiras, que conta a história de três gerações de mulheres e a relação de cada uma delas com o amor. As histórias podem ser lidas separadamente. Livro seguinte: Cativo de uma condessa, de Katherine Salles”

 

Um conde para minha amiga é uma história daquelas que inevitavelmente a gente termina com um sorriso no rosto. Fala de um amor que, desde o começo, o leitor tem certeza que vai acontecer. E ainda assim é uma delícia acompanhar o envolvimento entre os personagens.

Violet é uma mocinha apaixonante. Filha mais nova, negligenciada em atenção pela mãe e, talvez, um pouco dos padrões de beleza, ela encontrou na culinária uma atividade que lhe dar muito prazer. Sua especialidade são biscoitos e ela se orgulha muito das receitas que cria.

Thomas também era um filho mais novo, de menor importância, tendo em consideração que o herdeiro dos títulos e propriedades era sempre o primogênito. No entanto, uma fatalidade o torna o único filho, portanto um conde. Desta forma, ele precisa se casar o quanto antes, para produzir um herdeiro. Era assim que funcionava a sociedade no mundo do dinheiro e dos títulos nobiliárquicos da velha Inglaterra, palco de 99,9% dos romances de época (o que eu adoro). Nesse contexto, valia a máxima da Sra. Bennet, de Orgulho e Preconceito: “um homem solteiro de posse de boa fortuna certamente está buscando uma esposa.”

O envolvimento dos dois, diferente do que geralmente é visto em histórias românticas, se dá na tentativa de Violet unir Thomas, que, aliás, era um antigo conhecido seu, com sua amiga Sophie, que acabara de sofrer uma desilusão amorosa. Thomas, por sua vez, até demonstra certo interesse em Sophie, já que ele estava mesmo precisando de uma esposa. Mas o que o deixa perdidamente apaixonado mesmo são os deliciosos biscoitos com os quais Violet o presenteia.

Esse foi o primeiro livro que li da Tania Picon e gostei muito. Um conde para minha amiga é uma história leve, bem escrita, cheia de referências a Jane Austen e muito cativante. Perfeito para quem deseja uma boa leitura, mas está com pouco tempo para embarcar em livros maiores. A boa notícia é que os leitores já podem ter essa linda história em suas estantes, pois o livro foi publicado em formato físico pela Editora Portal, selo Reino! Tânia Picon tem vários títulos disponíveis em e-book na Amazon, vale a pena dar uma olhada, basta clicar aqui.

 

“ — E ele é bonito como o Sr. Darcy, o do livro. — Emma completou.

— Como você pode saber que o Sr. Darcy é bonito? — Violet sempre mais cética, indagou — Se ele é um personagem, e você nunca o viu!

— Porque eu sei que ele é! Não seria o Sr. Darcy se não fosse bonito!”

 

 

Título: Um conde para minha amiga
Autora: Tânia Picon
Editora: Portal, selo Reino
Páginas: 89

 

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