junho 15, 2017

[LANÇAMENTO] FRONTEIRA DA PAZ, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 4, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Lady Leanah sempre fora a boa moça. Fazia tudo o que se esperava de uma dama. Manteve-se pura à espera de seu príncipe, o cavalheiro que ela sempre amara, lorde Robert Percy, o irmão mais novo do conde de Northumberland, Edward Percy. Quando, finalmente, já com 23 anos, está prestes a realizar o seu sonho e casar-se por amor, Robert se casa às pressas com sua antiga prometida, Charlotte Mortimer, uma prima por parte de mãe, e a abandona. Decidida a se vingar, lady Leanah se aproxima de Elizabeth Douglas, uma cortesã regenerada, e implora para que a ensine a deixar todos os homens aos seus pés.

Quando o bom moço lorde Robert Percy, finalmente, recebera a aprovação do conde seu irmão, Edward Percy, para se casar com a linda lady Leanah, a irmã do conde de Douglas, da ancestral família inimiga dos Percy Northumberland, ele cai numa armadilha preparada por lorde Mortimer e tem, por honra, que se casar com sua prima Charlotte. Entretanto, jurou jamais tocar um só dedo nela. Afinal, como dissera o tio, ele já não a tinha deflorado? Cansado de ser o bom homem, o lorde se torna um dos maiores pervertidos da Europa e, para sair de Londres, a exemplo de seu pai, ele parte para a Índia. Quando na guerra de Folly de Auckland, ao lado de lorde Palmerston, ele entra em combate, a única pessoa que não esperava encontrar naquele lugar e, ainda por cima num bordel, era Leanah. O que, por Deus, ela estaria fazendo ali?!

Obrigada a se casar com o primo lorde Robert Percy, Charlotte Mortimer foge logo após o casamento. Seu próprio pai, por causa de dinheiro, conspirara para que aquela união acontecesse. Embarcada num navio com destino à América do Sul, com um nome falso, ela sofre um naufrágio fraudulento e é resgatada por um desconhecido. Sem se recordar quem é, apaixona-se pelo capitão do navio, um homem enigmático, com aparência celta, que a toma como mulher.

Um histórico romance sobre a vida das cortesãs inglesas e o império britânico e seus laços pelo mundo.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de Fronteira da Paz, quarto livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

 

Inglaterra, Londres, ano de 1837.

 

Montado ODoherty, um enorme alazão de pelo liso, lorde Robert Percy era a fusão perfeita com o animal, cujo nome gaélico Ó Dochartaigh significava ‘o destruidor’. Ele não lhe dera esse nome por acaso. O animal era mesmo feroz, o mais ágil entre todos os cavalos dos estábulos das muitas propriedades do clã Percy, uma nobre família ancestral do Norte da Inglaterra.

Naquele dia, o estado de espírito do lorde era tão avassalador quanto ODoherty. Tinha saído de Northumberland House, a mansão da família em Londres, havia duas horas e não tinha reduzido a marcha um só instante. O cavalo já espumava, dava sinais de extremo cansaço, mas sua revolta não tinha arrefecido nenhum milímetro. Seus olhos verdes estavam escuros, quase como uma floresta fechada em um país tropical, uma fenda de ódio, e seu corpo jogado para frente, numa posição de ataque, demonstrava toda a fúria que carregava na alma.

Seu destino era o Sul, Hampshire, a vila de Otterbourne, mais especificamente Border Peace Park, um lugar de profundo simbolismo para ele e para toda sua família, pois o nome fora dado por um parente medieval, Sir Henry Percy Hotspur, o segundo conde de Northumberland.

A propriedade, uma “fronteira da paz” como dizia seu nome, depois de ter passado para as mãos de terceiros, tinha sido recomprada por lorde Robert séculos após a medieval Batalha de Otterbourne, travada por aquele seu ancestral. Tal conflito, extremamente sangrento, ocorrera em agosto de 1388, no Norte da Inglaterra, entre o exército de Sir Henry Percy e as tropas escocesas do conde de Douglas, lorde James, que o atacara após interpretar uma caçada liderada pelo nobre inglês na fronteira como uma invasão às suas terras na Escócia. A verdade, entretanto, era outra. Haviam guerreado em disputa do amor de uma mulher, com quem ambos queriam se casar. Vencedor, Sir Henry Percy construíra Border Peace Park, onde passara a viver com sua amada.  Mas essa era uma história do passado.

No presente, Border Peace Park era a moradia de lorde Robert e o lugar especial para onde ele sempre planejara viver com a dama que escolheria como esposa. Mas tudo dera errado. Muito errado. O que o deixava tão furioso quanto era comum ao seu folclórico e temido ancestral.

Lorde Robert era o único irmão de Edward Percy, o nono conde de Northumberland, que, assim como o segundo conde, era conhecido por todos como “conde Hotspur”. Todavia, essa característica imperiosa parecia permear todos os homens do clã. Naquele momento, também lorde Robert estava totalmente tomado pelo ímpeto da destruição.

Os clãs Percy Northumberland, Neville e Mortimer havia gerações casavam entre si, uma tradição medieval para fortalecer as famílias que chegara ao século dezenove. Seu irmão Edward também fora ‘prometido’ pelo pai a uma Neville, lady Harriet, mas conseguira fugir dessa obrigação, isso porque a prima apaixonou-se e logrou se casar com outro. Robert, contudo, não tivera a mesma sorte.

O pai, antes de morrer, havia negociado o seu casamento com Charlotte Mortimer, lady cuja mãe fora sua tia, uma Neville. Pessoalmente, nunca pretendera cumprir tal promessa. Seu pai, afinal, fora um nobre cuja palavra não merecia ser cumprida.

– Preciso parar, senão vou matar O‘Doherty – disse para si mesmo, pensativamente. – Não é meu animal que desejo matar.

Com 28 anos, lorde Robert sonhava se casar com lady Leanah Douglas, a irmã do conde de Douglas, o clã inimigo histórico dos Percy Northumberland. Sir Edward Percy e lorde Davy Douglas, eternos desafetos, finalmente haviam concordado com a união, na esteira de um processo de extinção da rixa secular entre as duas famílias em curso.

Lorde Robert não se perdoava pelo que lhe tinha acontecido. Por que eu não imaginei coisa semelhante? A notícia de que eu e Leanah íamos ficar noivos estava de boca em boca em Londres. Era previsível que eles fizessem algo.

Tudo acontecera de repente. Ele havia recebido uma carta do tio, na qual lorde Mortimer o convidava para um encontro na sua casa para tratar de negócios envolvendo a Rapallini Maritime Trade, empresa da qual ele detinha ações, juntamente com o irmão Edward e os duques de Prudhoe e de Belvoir, cuja frota de navios fazia diversas rotas em toda a Europa e até a Índia.

Entretanto, ao chegar à casa, no horário combinado, não encontrara o tio. Já estava indo embora quando uma ama começara a gritar dizendo que Charlotte, a maldita prometida, estava tendo um ataque qualquer. Não entendeu bem do que se tratava, pois a mulher gritava de forma histérica. Ele nem pensou duas vezes. Subiu as escadas de três em três degraus e entrou no quarto da prima. Encontrou-a completamente nua deitada na cama. Nesse exato instante, lorde Mortimer, o maldito tio, surgiu às suas costas. Não lhe restara saída senão aceitar se casar imediatamente com uma dama que desprezava.

***

LADY Leanah Douglas nascera em Dalkeith Castle, na Escócia, e era a única filha de Thomas Douglas. Sua mãe morrera quando ela nascera e seu pai também falecera anos mais tarde. Assim, sempre morara com o irmão Davy, o conde de Douglas. Mas logo descobrira que ele não era quem ela sempre imaginara. Havia pouco tempo ele tinha-se envolvido em jogatina e perdido toda a fortuna da família. Vivia da herança que usurpara de uma prima, Eliza, neta do único irmão de seu pai, Sir Hugh Douglas, que fora expulso da família por se ter casado com uma dama pobre. Quando o duque de Pudhoe descobriu toda a trapaça, lorde Davy fugiu deixando-a sem nada. Ficou cheia de credores e socialmente desmoralizada.

Lady Leanah sempre fora a boa moça. Fazia tudo o que se esperava de uma dama. Desde muito jovem, ainda com 15 anos, era apaixonada por lorde Robert Percy, o irmão mais moço do conde de Northumberland, Edward Percy, maior inimigo de seu irmão Davy. Mas, por muitos anos, lorde Robert a tratara como se ela fosse invisível. Embora ela já fosse considerada bela, ele não lhe demonstrava qualquer interesse. Quando completara 18 anos, porém, passara a enxergá-la e se tornara extremamente gentil com ela. Mas Leanah achava que ele não a via como mulher, pois suas ações indicavam apenas cordialidade. Nos bailes, nos jantares dançantes, às vezes ele a tirava para dançar. Mas enquanto ela ardia de paixão por dentro, lorde Robert demonstrava que, por ser ela uma Douglas, jamais poderiam ter qualquer envolvimento amoroso.

Certa ocasião, na casa do duque de Pudhoe, época em que ela já tinha 23 anos e já havia dito ‘não’ a muitos pretendentes, mantendo-se à espera do seu grande amor, lorde Edward Percy dissera para quem quisesse ouvir que um Percy Northumberland jamais de casaria com uma Douglas. Perto deles, ouvira tudo. Uma situação extremamente constrangedora, pois todos os presentes olharam em sua direção, inclusive lorde Robert. Mas, pela primeira vez, Leanah sentira os olhos dele presos aos dela. O que ele vira além de todo o seu constrangimento? Amor. Daquele dia em diante tudo mudaria entre eles.

Preparava-se, então, após ser considerada por todos como uma solteirona, para realizar seu grande sonho. Repentinamente, porém, lorde Robert Percy se casava às pressas com sua antiga ‘prometida’, prima por parte de mãe.

Sentia-se totalmente perdida. Não tinha mais dinheiro e nem casa. Por causa das dívidas, em um mês ela teria que entregar Douglas House para seu novo dono. O que faria? Nunca trabalhara na vida, não sabia fazer nada. Na mente angustiada de Leanah o lorde tinha feito aquilo para fugir da promessa de se casar com uma dama cuja vergonha alcançara. Ele não podia ter feito isso comigo. Por que me beijou e me acariciou daquela forma, então? Disse que se casaria comigo e agora… E que culpa tenho eu das ações de Davy?

Lady Elizabeth Douglas, a filha do tio que fora exilado por sua família, era a sua única esperança. Se tivesse sorte, a cortesã regenerada lhe ensinaria a se vingar. E ela teria como sobreviver.

 

 

***

CHARLOTTE Mortimer acordara bem cedo com a sensação de que fora espancada. A última coisa da qual se lembrava era que sua ama havia-lhe dado um chá muito amargo, que, segundo dissera, afinaria sua cintura. Sua cintura continuava a mesma, mas sua cabeça parecia ter aumentado cinquenta vezes de tamanho.

Ao chegar à sala para o desjejum, o pai lhe comunicara que ela fora desonrada pelo seu primo, lorde Robert Percy, e que eles tinham que se casar.

– Desonrada? Como? Não vejo lorde Robert há meses. Não acha que se eu tivesse sido desonrada eu não me lembraria? – ela reagiu. Charlotte se lembrou da esplêndida aparência do alto primo de olhos tão verdes que mais pareciam uma floresta fechada. O jovem tinha puxado à mãe, era o que diziam. Tinha a pele morena, porém clara, fartos cabelos negros e conseguia ser tão ou mais belo que o irmão conde. Ela levou um susto quando seu pai bradou:

– Você é uma desavergonhada. Eu o peguei em seu quarto ontem à noite e você estava nua na cama.

– Eu?! Nua?! Impossível! – ela estranhou. Lembrou-se, então, do chá. – Onde está a Mary? – gritou enfurecida.

– Demitiu-se – gritou o pai em resposta. E emendou: – Não era para menos. Que ama vai querer trabalhar para uma devassa como você?

Pela primeira vez na vida, Charlotte, aos 22 anos, não sabia o que dizer. Sempre fora uma pessoa comunicativa, e que gostava de dar a última palavra. Mas ali, naquele momento, emudeceu. Compreendia tudo. O próprio pai criara uma armadilha para ela e o primo. Coitado do Robert!

Os desdobramentos da ‘violação’ de lorde Robert se precipitaram como uma grossa enxurrada de lama morro abaixo. Um clérigo foi trazido às pressas a Casa Mortimer. Robert chegou e sequer olhou para Charlotte. Balbuciaram os votos, ambos de cabeça baixa, ela cheia de hematomas, olhos inchados de tanto chorar, pois o pai havia-lhe dado uma surra quando se rebelara dizendo que não se casaria à força.

Enfim, era uma legalmente dama casada. Mas sabia que continuaria virgem. E, além disso, sozinha.

Logo após a breve cerimônia, quando lorde Robert fez menção de ir embora, o tio sogro indagou se ele não subiria ao quarto da esposa. A resposta que Charlotte ouvira dele, naquele momento, continuava latente em sua memória:

– Juro pela minha vida jamais tocar um só dedo nela. Afinal, já não a deflorei?

E assim, sem mais nada dizer, ele se fora.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

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junho 13, 2017

[LANÇAMENTO] UM COCHEIRO EM PARIS, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 3, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Quando o duque de Belvoir teve que sair às pressas da casa de Juliette Drouet, a amante de Victor Hugo, para não ser pego em flagrante pelo próprio escritor, sua única alternativa foi dirigir a própria carruagem pelas vielas de Paris. O que ele não esperava, contudo, era que tivesse que socorrer uma dama que acabara de chegar à cidade. A carruagem do Hôtel de Ville, que fora buscá-la no porto, havia quebrado um eixo e ele passava no exato momento do acidente. Não teve alternativa senão esconder a sua identidade, pois a jovem estava acompanhada justamente da ordinária baronesa viúva de Patchetts, uma antiga vizinha do duque seu pai, no Norte da Inglaterra. Tudo o que ele — o duque inglês bastardo — não podia, naquele momento, era ser reconhecido. Assim, apresentou-se como o cocheiro do conde Filippo Raspail e prestou socorro às damas.

Fruto da relação de um poderoso duque inglês, que não tivera filhos no casamento, com uma cortesã francesa, Belvoir — assumido pelo pai — vivia uma vida desregrada em Paris. Embora na juventude tivesse tido certa proteção moral por parte dos amigos, o duque de Prudhoe e o conde de Northumberland, sofrera muita rejeição da aristocracia britânica, sendo chamado de ‘lorde bastardo’. Por isso, tinha convicção absoluta de que nunca se casaria com a filha de nenhum deles. Belvoir só não contava que Harriet Neville, a lady que socorrera, se apaixonaria de verdade por ele, mesmo achando que fosse um humilde cocheiro.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de Um Cocheiro em Paris, terceiro livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

 

Paris, 1830.

 

Oliver Ashlie Stanhope, o duque de Belvoir, saltou pela janela da mansão de Juliette Drouet e caiu na escuridão da noite. Até mesmo para a cidade mais moderna da Europa aquela não era uma situação comum. A não ser que se tratasse de um incêndio. Não era o caso.

No meio da noite — e ainda por cima nu — Belvoir fazia bela figura. De cima de seus quase dois metros de altura, sua pele clara e seus cabelos loiro-escuros reluziam sob a luz da lua. Seus olhos de um azul-acinzentado estavam turvos de raiva de si mesmo.

Praguejava baixinho sua loucura em dormir com a mulher alheia. Mas Juliette o provocara durante toda a noite. E no que havia dado? Depois de terem se ‘conhecido’ sob os lençóis parisienses, cerca de uma hora antes, tivera de juntar suas roupas atabalhoadamente e arremessar-se no vão escuro da janela, pois os passos do próprio escritor na escada já eram audíveis no quarto da dama.

Andando às pressas vestiu-se parcialmente e alcançou sua carruagem. Mas o cocheiro tinha desaparecido. Não tinha alternativa a não ser conduzi-la ele mesmo. Se fosse pego seria um escândalo e ele estava cheio dos rumores. Não que aquele seu pecado recente fosse uma injúria. Daquilo ele era culpado. Mas que culpa tinha de ser filho de uma cortesã francesa e de um duque inglês?

Na margem direita do rio Sena, no Quartiers du Châtelet, esquina com as ruas Rosiers e La Place Forte, ele se deparou com uma carruagem que acabara de se envolver num grave acidente.

– Maldição! Mais essa, agora! – murmurou, enquanto jogava sua carruagem na direção da rue La Place Forte, pois a carruagem quebrada interceptava justamente a que ele tinha que passar. Os cavalos estavam agitados e pareceu-lhe que havia feridos.

Correu até lá. Seus cabelos desalinhados pelo sexo selvagem de pouco antes, sua calça meio aberta e a camisa solta davam-lhe um ar de desleixo. Ajudou o ferido cocheiro a desamarrar e soltar os cavalos, pois estes estavam arrastando o veículo tombado, e depois a se sentar à margem da rua. Abaixou-se, então, para socorrer as vítimas. Ouviu duas mulheres, uma proferindo gritos histéricos e outra tentando acalmá-la.

– Já vão nos tirar daqui, tia. Acalme-se! Assim a senhora está assustando ainda mais os cavalos — disse a voz calma e consoladora.

– Para o inferno esses malditos animais. Têm que ser sacrificados. Como se atreveram a jogar a baronesa de Patchetts de cabeça para baixo? Aquele maldito cocheiro vai me pagar! — retrucou a histérica, aos gritos.

– Tenho absoluta certeza, tia, que o coitado não teve culpa alguma. Tente se acalmar, por favor.

– Acalmar? Eu sou a baronesa de Patchetts, exijo respeito…

Belvoir deu um passo para trás. Céus! O que essa maldita baronesa está fazendo na França?

– Por favor. Pode nos tirar daqui? – uma voz doce se sobressaiu à gritaria e aos insultos da baronesa. Ele não podia deixar de socorrer.

– Onde está o maldito cocheiro? – gritou a baronesa.

– Ele se feriu, madame. Quebrou a perna. Se ficar calma eu a tirarei logo daí – respondeu Belvoir, abaixando-se ao lado da portinhola.

– E quem é você? Outro cocheiro, certamente! Tire-me daqui, seu bastardo – ela protestou. A mulher não poderia ter escolhido uma palavra mais adequada se quisesse atingir Belvoir em cheio. Ele teve vontade de dizer quem era e colocar aquela ‘maldita’ dama no devido lugar.

– Sim, madame, sou um simples e maldito cocheiro. Se permanecer calma sairá em segurança. Tenho que buscar ajuda. Se eu virar a carruagem sozinho é possível que se machuquem. Estão em quantas pessoas aí?

– Duas pessoas, monsieur. Muito obrigada – respondeu lady Harriet Neville, a dona da voz que tanto impressionara Belvoir. Mas a baronesa prosseguiu gritando, dizendo que estava sufocando, que jamais voltaria a andar e muito menos colocar seus pés em Paris.

Enquanto procurava ajuda nos arredores da La Place Forte, Belvoir lamentava-se. Com milhões de pessoas no mundo eu tinha logo que me deparar com a ordinária baronesa viúva de Patchetts? E qualquer mal que pudesse lhe ocorrer, por que tinha de ser logo aquele, no pior momento possível? Encontrar a antiga vizinha do duque, seu pai, do Norte da Inglaterra! Logo a maior mexeriqueira do reino, que havia espalhado para toda a sociedade o segredo de sua paternidade? Sim, ele pecara, saíra com a amante de outro homem, mas não era um pecado tão grande assim, pois o próprio escritor era um adúltero, tentava se justificar diante da Providência divina.

Filho bastardo de duque inglês com Justine Oldoini Rapallini Bienfait, ou simplesmente “condessa di Bienfait”, ele fora o escândalo da Inglaterra havia alguns anos. Tinha fugido para Paris para ter um pouco de paz. E agora ele teria que salvar exatamente a causadora de sua desgraça… Belvoir conjecturava. E se a deixasse de cabeça para baixo? Quanto tempo ela levaria para morrer sufocada por suas próprias papadas? Não podia fazer aquilo. A despeito de dormir com as amantes de outros homens, ele era honrado. E tinha a outra moça, a dona da voz suave. Ele avistou um coche e acenou. Logo, mais pessoas se juntaram a ele para virar a carruagem avariada. Para sua surpresa, a carruagem a serviço da baronesa era a do Hôtel de Ville, o mesmo hotel onde ele sempre ficava hospedado em Paris. Em meio aos brados da baronesa, ele se dirigiu à dama mais jovem:

– Está machucada, mademoiselle? Segure em mim, vou carregá-la até a outra carruagem – disse.

Lady Neville colocou sua mão de leve no braço dele. Ele levantou-a e a carregou até sua carruagem. Ela estava com alguns arranhões no braço esquerdo e sua testa sangrava. Mas mesmo ferida, Harriet não deixou de notar que o seu salvador era muito atraente e corou.

– Está ferida? – Belvoir assustou-se quando viu o sangue. Imediatamente retirou sua camisa e levou-a suavemente ao rosto da jovem.

– Desculpe-me, mademoiselle – disse ele assim que percebeu que ela olhava assustada para seu peitoral nu. Porém, quando ele acompanhou o olhar da moça viu que suas calças estavam abertas e que ela tinha visto algo que a fez enrubescer até a raiz dos loiros cabelos.

Pardon, mademoiselle, não foi intencional – ele desculpou-se.

– Tudo bem… – lady Neville conseguiu pronunciar. – Obrigada por ajudar-nos.

– Sabe como ocorreu o acidente? – ele perguntou.

– Não sei, monsieur. Senti só o solavanco e fomos jogadas no chão.

– Deve ter quebrado o eixo da roda – disse ele.

Nesse momento, a baronesa chegou auxiliada por outras pessoas, entrou na carruagem de Belvoir, e gritou:

– Vamos logo com isso, rapaz. Para quem você trabalha? Como ousa ficar nu na frente de duas damas?

– Acalme-se, tia. Ele me deu a camisa para estancar meu ferimento, fez-me um favor…

– Sou o cocheiro do conde Filippo Raspail, madame, ao seu dispor – disse Belvoir.

– Espere aí, eu o conheço… – disse a baronesa. Belvoir sobressaltou-se. Havia anos não encontrava aquela víbora. Será que ela ainda o reconheceria?

– Não, não pode ser. É apenas parecido com ele… Também, aquele lá! Não duvido que tenha feito centenas de bastardos pelo mundo – resmungou a baronesa.

– O que disse, madame? – perguntou Belvoir.

– Nada, nada, nada de seu mundinho. Vamos logo, rapaz! Suba aí e nos leve para o Hôtel de Ville.

– E o cocheiro do hotel? – perguntou Belvoir olhando em volta à procura do homem ferido.

– Deixe-o morrer por aí! – ordenou a baronesa, com irritação.

– De forma alguma, madame. É meu colega de profissão e prestarei o devido socorro — Belvoir retrucou na hora. Foi até o homem sentado na margem da rua, pegou-o no colo e o colocou em outra carruagem que parara ali perto para também ajudar. Deu um dinheiro ao condutor, pediu-lhe que prestasse socorro e que depois o procurasse no Hôtel de Ville se houvesse outras despesas. Voltou, subiu no seu assento e rumou com as duas para o hotel.

 

 

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junho 08, 2017

[LANÇAMENTO] A AMA INGLESA, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 2, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Desde pequena, a menina Leonora se perguntava por que sua mãe sabia ler e escrever em dois idiomas e o pai sequer sabia ler em um deles. Instruída pela mãe francesa, a filha de um simples cuidador de cavalos muito cedo se vê sozinha no mundo, à mercê de uma tia autoritária e de um padrasto violador. Um encontro na infância provoca uma reviravolta em sua vida e ela vai trabalhar como ama da duquesa viúva de Pudhoe, uma dama autoritária, mas que a respeitava. Entretanto, quando lady Muriel Browne chega de Londres para passar uma temporada em Pudhoe Castle, no Norte da Inglaterra, tudo à sua volta muda. Leonora começa a ser destratada pela duquesa e até pelos outros servos, até então seu amigos.

Numa noite gelada em Newcastle, sem ter para onde ir, ela acaba se abrigando no celeiro, aconchegada à vaca da duquesa, para não morrer de frio. Ali ela é acordada brutalmente pelo capataz da propriedade e amparada por aquele cuja imagem permeara seus pensamentos durante cinco longos anos, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido em toda a Europa por Lorde Perverso. Mas Leonora não o via assim. Pelo contrário. Achara-o caridoso. Afinal, se não fosse por ele, certamente não teria sobrevivido àquela noite.”

 

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Leia um trechinho de A Ama Inglesa, segundo livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

Newcastle, Inglaterra, 1828.

 

Leonora não sabia dizer o que era pior: ter um padrasto desprezível que a queria violentar ou uma mãe fraca que fingia não ver. Desde que fugira de casa há três dias, ela tentava, sem sucesso, perdoar a mãe – na verdade a tia que a criara e ela chamava de mãe –, mas não conseguia: onde já se viu ficar do lado do homem que tentara violentar a própria filha?

Deitada sobre o feno de uma fazenda, numa noite fria, ela tenta esquecer os últimos dias ou seriam os últimos 10 anos? Desde que seu pai morrera a vida não tinha sido gentil com ela. Agora com pouco mais de 18 anos tinha acabado, literalmente, na sarjeta, dormindo nos lugares mais inusitados, como esta noite na companhia de uma vaca. Sorte dela que não era um animal qualquer, mas a vaca que a duquesa de Prudhue tinha ganhado do marquês de Valnoré e a quem ela dava mais valor que a própria criadagem. Caso contrário, ela iria congelar, pois era uma noite fria até para os padrões de Newcastle.

Pensando no que fazer quando o dia clareasse, encostada à vaca que emitia um calor reconfortante, Leonora não percebera que voltara a cochilar. Acordou com vozes e com alguma coisa gelada cutucando suas ancas. Olhou assustada e deu de cara com dois pares de botas, um do capataz de Prudhoe Castle e o outro do dono dos olhos mais desconcertantes em que ela já tinha posto seus jovens olhos. O capataz gritou:

—Mais que desgraça é essa? Uma mulher dormindo com a vaca da duquesa! O que faz aqui? Ah, é você, sua bruxa? Levanta já daí — gritou o homem com as faces tão vermelhas quanto o pudim que a mãe verdadeira, quando viva, fazia de framboesa. Sob forte admoestação que o cavalheiro fazia — pois Leonora sabia que se tratava de um —, sobre o tratamento dado a ela pelo empregado, ela sem emitir sequer um pedido de desculpas, levantou-se, recolheu sua trouxa e saiu tão depressa quanto seus membros rígidos de frio permitiram. Não ousou olhar para o cavalheiro, embora achasse que já o tivesse visto e, talvez, exatamente por essa razão.

Levou um choque quando percebeu que, além do frio do outono no Norte, ainda chovia. Assustada, envergonhada como nunca estivera antes, e desconcertada por ter sido pega dormindo na propriedade alheia e ainda por cima com uma vaca, ela fingiu não ouvir quando o cavalheiro a chamou. Continuou andando — quase correndo — em direção ao portão, o mesmo que ela havia pulado na noite anterior para se abrigar no celeiro.

— Faça alguma coisa, Jordan. A moça vai morrer congelada — bradou o cavalheiro para o capataz.

— Moça, moça! Raios, olha o que você fez com essa sua grosseria, Jordan! Onde já se viu tratar uma moça com esses modos! Volte aqui, miss! Você vai ficar doente.

Leonora havia feito a curva em direção à saída da propriedade. Não sabia para onde iria, mas preferia morrer a abrir mão do resquício de dignidade que possuía. Onde já se viu ser acordada com chutes! Ele que vivesse o resto de seus dias com a culpa de sua morte na consciência, ela morreria de qualquer forma mesmo, pois, como sobreviveria àquele maldito inverno? Sem abrigo certamente congelaria.

— Raios! Maldição! Não me faça ir aí te buscar — ela o ouviu dizer quando jogava sua trouxa sobre a porteira e subia para pulá-la. Mas quando a pessoa nasce com falta de sorte, e aquele era o seu caso, nada dava certo, portanto, ela escorregou e caiu do outro lado exatamente numa poça de lama. Lá se foi meu resquício de dignidade.

Quando, na tentativa de sair daquela posição humilhante, ela apoiou um braço para se levantar, percebeu que não conseguia agarrar sua trouxa. Foi aí que Leonora concluiu que algo de muito grave tinha acontecido com seu ombro: tinha caído sobre ele e seu ombro direito agora também estava caído. A dor era excruciante e, numa segunda tentativa, embora tivesse conseguido ficar de pé, ela não conseguiu pegar seus pertences. Não que fosse uma trouxa grande, pois ela só tinha dois vestidos, mas seu ombro estava, de fato, fora do lugar. Abandonou a trouxa onde estava e deu alguns passos trôpegos esperando cair e morrer a qualquer momento de hipotermia, pois já não sentia suas extremidades, aliás, sentia apenas uma dor que entorpecia sua mente. Caiu. Ele chegou ao seu lado. Ela não escutou o tropel das patas do seu cavalo, mas sentiu quando ele a tomou nos braços. Estava todo molhado, mas seu corpo era forte e quente.

— Diacho de mulher! Quer se matar e me levar junto? — disse ele enquanto gritava ordens para o capataz.

— Corra na frente e abra o raio da porta, faça alguma coisa, homem! Mande esquentar água, chame a governanta, peça algo quente para ela beber.

Minutos depois, Leonora estava em um quarto quente, cuja lareira crepitava, viu-se ficando nua e sendo enrolada em alguma coisa bem quente. Seus dentes batiam tanto que ela não conseguia balbuciar nenhum protesto, tampouco, nenhum agradecimento. Uma banheira fumegante era preparada por duas criadas que ela conhecia, algo era levado aos seus lábios, e uma voz de homem ordenava que ela tomasse algo quente e doce. Foi só muito depois que ela se deu conta de que fora ele quem a despira, que a alimentara, que a colocara numa banheira quente, e que ela esteve nua na frente do cavalheiro mais formidável do mundo.

Entretanto ele não sorria, muito pelo contrário, parecia estar com muita raiva. Olhava para ela, mas não com aqueles olhos malévolos que seu padrasto a olhava, o cavalheiro a olhava, mas ela não sabia explicar o que via naqueles olhos.            Quando ela já estava deitada, seca, limpa, aconchegada em meio a muitas mantas macias e quentes, uma criada chegou e deu-lhe algo para beber. Ele pegou a xícara, levou aos lábios, foi só então que Leonora se deu conta de que ele também devia estar com muito frio, pois toda a roupa dele estava molhada e cheia de uma lama negra.

— Sua Graça — disse a governanta, Leonora sabia que se tratava da governanta, pois também a conhecia muito bem — tire essa roupa molhada, senão ficará doente.

Foi aí que ela soube que tinha sido socorrida pelo próprio duque, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido por lorde Perverso, a quem ela havia conhecido há muitos anos, tempo demais para ele mudar tanto a ponto de ela não mais o reconhecer, nem ele a ela. Embora sua antiga imagem estivesse sempre em sua memória. Nos anos em que ficara sem vê-lo, contudo, soube de sua fama. O nome do lorde corria por todos os lados, a notícia de que ele tinha abandonado uma dama no altar, ou quase no altar, um casamento arranjado pelo falecido duque, que o lorde não aceitou desposar, correra a quatro ventos. De forma que todos o acusaram de perverso, pois havia desobedecido ao pai e humilhado a filha de um conde, deixando-a nas vésperas do casamento, e fugido para o Continente.

Todavia Leonora não o achara perverso, muito pelo contrário, ele tinha sido caridoso para com ela, afinal, se não fosse por ele, ela estaria morta de frio.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

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