abril 27, 2017

[RESENHA] JANE EYRE, ADAPTAÇÃO DA BBC (2006)

Jane Eyre é uma adaptação do romance homônimo de Charotte Brontë, em série de quatro episódios, produzida pela BBC no ano de 2006. Foi considerada um sucesso na época de sua estreia, tendo sido indicada a vários prêmios, ganhando três Emmys e um BAFTA.

Aqui temos uma heroína de espírito livre, que desde a infância não se deixa abater pelas maldades de sua tia Reed e de seus primos. Passamos rapidamente pela infância de Jane Eyre, mas todos os pontos mais importantes foram mostrados: o quarto vermelho e sua tortura psicológica, o retrato de família o qual ela não pôde participar e a sua passagem pela escola Lowood.

 

A pequena Jane Eyre no internato Lowood.

 

Ao mesmo tempo que clamava por liberdade, Jane Eyre ansiava por amar e ser amada, reciprocidade que ela teve poucas vezes em sua vida. Ir para Thornfield Hall, trabalhar como preceptora de Adele, traz para a vida da jovem um pouco de tudo aquilo que ela sempre sonhou: paz, um lar seguro e ser tratada como igual pelas outras pessoas.

O casal Jane e Rochester desta adaptação, interpretados por Ruth Wilson e Toby Stephens, foram os melhores que já vi até agora! Ambos possuem elementos que os tornam fieis ao casal do livro, portanto são verossímeis e apaixonantes. A sintonia entre os atores é tão boa que percebemos a faísca entre os personagens desde a primeira vez que Rochester chama Jane de bruxa, por ela ter enfeitiçado seu cavalo e tê-lo feito cair dele. Particularmente, adoro o Rochester desgrenhado de Toby Stephens, pois é como sempre imaginei o personagem. Além disso, o jeito grosseirão deste Rochester deu toques de comicidade ao personagem, o que achei bastante positivo, em contraponto a doçura e a inteligência de Miss Eyre.

 

 

Jane Eyre e Mr. Rochester são um dos meus casais favoritos da ficção. Não só por serem como iguais, como eles mesmos dizem em alguns momentos, mas também pela amizade que existe entre eles. Rochester confia a Jane quase todos os seus segredos e anseios mais profundos, sem reservas, e Jane, em contrapartida, é uma ótima ouvinte, pois não faz julgamentos, embora sempre exponha sua sincera opinião.

 

 

A aparição de Blanche Ingram, nobre e bela pretendente ao coração de Rochester, embora cruel com a apaixonada Jane Eyre, foi muito bem trabalhada e positiva para o casal nesta adaptação. A realidade é que Rochester tinha tanta necessidade de amar e ser amado quanto Miss Eyre, portanto não poupou esforços para deixar a jovem enciumada e assim ter provas de seu amor. O melhor de tudo é que ela terá a sua oportunidade mais tarde, rapidamente, contanto histórias do tempo que passou com St. John e suas irmãs, após a cerimônia frustrada de casamento entre ela e Mr. Rochester. Com todos os segredos revelados, nossa heroína deixa Thornfield Hall, mas apenas para descobrir que a ligação entre ela e o seu amado é forte demais para ser desfeita.

 

A “bela” Blanche Ingram.

 

Algum tempo depois de deixar Rochester, Jane retorna e o casal reafirma os seus sentimentos em uma das cenas mais belas das adaptações literárias; uma nova declaração para reafirmar tão grande amor:

“– Na noite em que fui embora… Na noite em que fui embora você falou de uma Villa que tinha no Mediterrâneo, onde poderíamos nos refugiar e viver como irmão e irmã.

– Eu me lembro.

(…)

– Jane, você ainda está aí? – pergunta Rochester sem poder enxergá-la.

– Estou, Senhor.

– Jane, esta Villa de que eu falei, com quartos separados e isso de beijos na bochecha nos nossos aniversários…

– Sim.

– Esse plano não me atrai como antes.

– Não quer que sejamos amigos? – pergunta Jane, temerosa de que o afeto de Mr. Rochester por ela tenha mudado.

– Jane, poderia fazer a gentileza de vir sentar-se ao meu lado? Jane… eu quero uma esposa. Eu quero uma esposa. Não uma enfermeira que cuide de mim. Eu quero uma esposa para compartilhar minha cama toda noite. Ou todo o dia, enfim… Se eu não puder ter isso, prefiro morrer. Jane, nós não somos do tipo platônico…

– Você pode me ver? – pergunta Jane, bem próxima a Rochester, que confirma.

– Então escute isso, Edward: sua vida não é sua para escolher se render, ela é minha. Ela é toda minha e eu o proíbo.” (Jane Eyre, BBC 2006)

 

 

O mais especial nesta adaptação é que a história prossegue um pouco mais além do reencontro do casal. Mesmo sabendo que nos filmes o tempo é mais curto, muitos diretores parecem ter predileção por finais abertos (vide Orgulho e Preconceito, 2005), mas considero um prejuízo quando diálogos importantes como o visto acima são cortados. Aqui, em quatro capítulos, toda a essência do maravilhoso romance de Charlotte Brontë consegue ser transmitida. Mais uma grande adaptação da BBC!

 

 

Elenco: Ruth Wilson (Jane Eyre); Toby Stephens (Edward Fairfax Rochester); Lorraine Ashbourne (Mrs. Fairfax); Tara Fitzgerald (Mrs. Reed); Andrew Buchan (St. John Rivers); Daniel Pirrie (Richard Mason); Christina Cole (Blanche Ingram); Claudia Coulter (Bertha); Georgie Henley (Jane Eyre, quando criança), dentre outros.

 

 

REFERÊNCIA:

https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Eyre_(2006_miniseries)

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Veja também:

Jane Eyre, filme de Robert Stevenson (1943).

 

 

abril 05, 2017

[RESENHA] JANE EYRE, FILME DE ROBERT STEVENSON (1943)

 

Jane Eyre é uma adaptação para o cinema do romance homônimo de Charlotte Brontë, produzida em 1943, estrelada por Orson Welles (Cidadão Kane, 1941) e Joan Fontaine (Oscar de melhor atriz por Suspeita, 1941).

Adaptar um romance de tão grande tamanho e importância como Jane Eyre não deve ser tarefa fácil! Mesmo tendo um escritor renomado como Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo, livro de 1932) entre os roteiristas, muita coisa fica de fora ou é substituída por algo mais adequado, fato que acontece nesta adaptação dirigida por Robert Stevenson. Para os mais apegados ao livro, essa adaptação não é das melhores no quesito fidelidade. Mesmo sendo um filme rodado em preto e branco (o que é de um charme irresistível) e tendo uma trilha sonora que não deixa que desgrudemos da tela, algumas coisas incomodam.

Primeiramente, o longa se chama Jane Eyre, mas o destaque é todo de Orson Welles. A grande estrela do filme é ele, e isso é informado logo na abertura, mas todo esse brilhantismo acaba por ofuscar nossa querida Jane de Joan Fontaine. Consta que Mr. Welles frequentemente chegava atrasado ao set de filmagem e sua chegada triunfal era composta de um séquito de empregados, dentre eles uma secretária! Robert Stevenson assinou como diretor, mas na realidade era Welles quem dava as cartas nas gravações.

 

 

Joan Fontaine, creio eu, era bela demais para o papel. Sua Jane chegava a ser angelical em determinados momentos; diferente de seu retrato enquanto criança, vivido pela atriz Peggy Ann Garner. O espírito livre de Jane Eyre adulta ficou lá no livro de Charlotte Brontë… Imagino que isso se deve por ser uma adaptação feita em 1943. É sempre bom lembrar que um livro clássico ou, como neste caso, a adaptação cinematográfica de um clássico, foi feita na e para a época. Mesmo as histórias que conseguem romper as barreiras do tempo têm suas limitações. Um filme feito por homens em 1943 não poderia transmitir, mesmo se eles quisessem, toda a liberdade de pensamento e independência de Jane Eyre. Em uma das cenas mais sem noção desse longa, quando Jane deixa Lowood, ela espera por algum enviado de Thornfield em uma estalagem e um senhor lhe oferece uma taça de vinho, no pior estilo safadinho que existe. Jane, obviamente recusa e quando vai embora recebe uma piscadela indecente do referido senhor. A cena chega ser cômica de tão ridícula! Imagino se a intenção dos roteiristas não seria mostrar às senhoras da plateia o quanto poderia ser perigoso enfrentar uma viagem sozinha. Um ato de independência que foi retratado de forma risível. Uma pena. Destaco como a melhor cena de Fontaine a declaração de amor para Mr. Rochester. Um dos diálogos mais intensos já escritos, que foi adaptado de forma emocionante.

 

“O senhor pensa que por eu ser pobre, sombria, simples e pequena, não tenho alma ou coração? Se pensa, está enganado! Tenho tanta alma quanto o senhor. E um coração ainda maior! E se Deus me tivesse presenteado com alguma beleza, e mais riqueza, eu tornaria tão árduo para o senhor deixar-me o quanto me é árduo deixá-lo agora.” (retirado do livro Jane Eyre, edição do ano de 2014, Editora Martin Claret)

 

 

No mais, é uma adaptação que merece ser vista, principalmente pelos admiradores do romance de Charlotte Brontë! Aqui Jane também narra a sua história, como se estivesse lendo para nós o seu diário: “Meu nome é Jane Eyre… Nasci em 1820…”. Sua infância foi retratada rapidamente e logo somos transportados a Thornfield, com Mr. Rochester. Apesar de sentir que a história ficou um pouco desvirtuada, gostei do Rochester de Orson Welles. Ele imprimiu força e sombriedade necessárias ao personagem. Só não me convenceu muito nas cenas românticas com Fontaine. Não é a melhor adaptação para o cinema, como diz a contracapa do DVD, mas é uma bela adaptação, principalmente para os amantes do cinema em preto e branco.

 

 

Ficha Técnica

Título: Jane Eyre.

Ano: 1943.

Roteiro: John Houseman, Aldous Huxley e Robert Stevenson, baseado no romance homônimo de Charlotte Brönte.

Direção: Robert Stevenson.

Elenco: Orson Welles e Joan Fontaine; com Margareth O’Brien, Peggy Ann Garner e John Sutton.

 

 

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Eyre_(1943_film)

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

fevereiro 02, 2017

[RESENHA] “VASTO MAR DE SARGAÇOS” OU A HISTÓRIA DE (BERTHA) ANTOINETTE MASON

ATENÇÃO: A resenha contém spoiler para quem não leu ou não conhece o romance “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.

 

Sinopse: Publicado em 1966 e inédito até então no Brasil, Vasto mar de sargaços é a obra-prima de Jean Rhys. Nascida na Dominica, em 1890, e radicada na Inglaterra desde os 17 anos, Rhys foi uma das primeiras escritoras a falar da questão feminina e da colonização em sua obra, precursora das chamadas narrativas pós-coloniais. Inspirado na personagem Bertha Antoinette Mason, a ‘louca do sótão’ do clássico vitoriano Jane Eyre, de Charlotte Brontë, o romance dá voz à caribenha vivendo na Inglaterra que, assim como a própria autora, sofria com as dificuldades originadas do choque entre culturas. Fonte: Editora Rocco.

 

Jane Eyre é um dos meus romances favoritos! A protagonista, que dá nome ao livro e a várias adaptações cinematográficas e para televisão, é uma mulher de espírito livre, em uma época em que as mulheres não podiam ser muita coisa, sobretudo as mulheres pobres. A jovem encontra o amor nos braços de Edward Rochester, dono do castelo de Thornfield, em um amor que seria impossível do ponto de vista social e econômico, mas aconteceu graças à união das mentes tidas como iguais. Entretanto, como nem tudo são flores, principalmente na vida de Miss Eyre, no dia de seu casamento com Mr. Rochester, quase ao final da cerimônia, uma pessoa aparece e interrompe o sonho romântico da jovem. Mr. Mason informa aos presentes que Rochester é um homem casado e que sua esposa está viva. Portanto, a cerimônia ali realizada era ilegal. Parecendo pouco surpreso, Rochester volta para casa e mostra a todos, incluindo a sua noiva Jane, o estado deplorável da mulher a qual ele está preso pelo laço sagrado do matrimônio. Ninguém a não ser Mr. Rochester e a funcionária que cuidava de Bertha Mason, Grace Poole, sabia que havia alguém vivendo no sótão de Thornfield Hall. Os gritos ocasionais da mulher eram tidos como o de algum fantasma ou da própria Grace Poole. A partir daí, com o coração partido, Jane Eyre muito corajosamente abandona o seu posto em Thornfield Hall, embora o seu ex-patrão e ex-noivo tenha lhe proposto uma vida clandestina a seu lado. Jane Eyre não tinha família, mas tinha princípios, então fez o que era o mais correto naquele momento. Partiu sem olhar para trás.

O casamento sendo interrompido. Jane Eyre, BBC 2006.

No entanto, havia mais ali e nem sempre prestamos muita atenção. Havia uma mulher que, diziam, era louca, e vivia em cárcere. Nos idos de 1847, quando o livro de Charlotte Brontë foi lançado, as instituições que se propunham a cuidar dos deficientes mentais utilizavam métodos semelhantes a tortura, ocasionando a morte de seus internos. Rochester tenta se justificar dizendo que as condições para Bertha fora dali seriam as piores possíveis, mas será que ele realmente não teria condições de manter a esposa em uma habitação mais digna? Pensando nisso e em como a mulher caribenha foi retratada em Jane Eyre, Jean Rhys escreveu, por longos vinte anos, o livro Vasto mar de Sargaços, com o intuito de dar voz à mulher silenciada pelo choque cultural e também pelo marido.

 

“As irmãs Brontë tinham, é claro, o toque de genialidade (ou muito mais), especialmente Emily. Então, lendo ‘Jane Eyre’ não se pode evitar a leitura fluente, em maiores considerações. Mas, eu, lendo mais tarde, e muitas vezes, fiquei chocada com o retrato de lunática que ela traça, as cenas crioulas erradas, e sobretudo a crueldade real do Sr. Rochester. Afinal de contas, ele era um homem abastado e haveria maneiras mais gentis de dispor (ou esconder) uma mulher indesejada – ouvi a história de uma – e o marido se comportou de forma bem diferente. (Outra pista).

Mesmo quando eu sabia que tinha que escrever o livro – ainda assim não parecia tocar no ponto certo – e essa é uma razão (embora não a única) por que demorou tanto. Não tinha havido o clique. Não estava lá. Por mais que eu tentasse.

Foi só quando eu escrevi este poema – aí o clique aconteceu – e tudo estava lá e sempre tinha estado.” (Trecho de carta escrita em 14 de abril de 1964 por Jean Rhys para seu amigo Francis Wydham, a respeito de “Vasto mar de sargaços”.)

 

“O mar de Sargaços é uma vasta região do oceano Atlântico, próxima ao Caribe, que compreende mais de três milhões de quilômetros quadrados. Nesta área proliferam algas (conhecidas como ‘sargaços’, daí o nome que se dá ao mar), que cobrem sua superfície como um tapete, dificultando a navegação. (…) Trata-se de uma região polvilhada de belas ilhas, dentre as quais está a Jamaica, escolhida pela escritora antilhana Jean Rhys como cenário para o seu romance ‘Vasto mar de Sargaços’, publicado originalmente em 1966. (…)” (Prefácio de Carla Portilho, Profesora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal Fluminense.)

 

A Inglaterra da era vitoriana podia ser bastante cruel para uma mulher de sangue quente, que não estivesse acostumada a tantos códigos que cerceavam a conduta. Por mais que alguns homens, como Mr. Rochester aparentava ser, permitissem uma maior liberdade de pensamento em suas companheiras, haviam limites para a vida em sociedade, sobretudo inglesa. A partir daí, começamos a perceber que a loucura de Antoinette Cosway poderia não ser, exatamente, uma deficiência mental. Antes de prosseguirmos, é bom deixar claro que o nome Bertha foi inventado por Rochester, que decidiu rebatizar a esposa, pois o nome Bertha parecia-lhe mais agradável. Anteriormente ela já havia ganhado um novo sobrenome, o do padastro, tornando-se Antoinette Mason.

Vasto mar de Sargaços é dividido em três partes: na parte 1, conhecemos as origens de Antoinette, sua família e as marcas deixadas pela colonização em sua região. Na parte 2, ora Antoinette, ora Rochester narram a história; os dois já estão casados. A parte 3 contempla o finalzinho da trágica história da nossa protagonista.

Antoinette não teve uma vida fácil. Vivendo entre aqueles que carregavam as marcas da escravidão, ela era uma mistura que estava perdida em algum lugar dos opostos: não era considerada negra, mas também não tinha o refinamento necessário para ser considerada educada, como os antigos colonos. Filha e neta de senhores de escravos, viu de perto toda a podridão do sistema escravista. Sua mãe, Annete, tendo ficado viúva, casa-se com Mr. Mason, que a tira, de certa forma, da miséria a qual estava vivendo com sua filha. Mr. Mason também tinha um filho do primeiro casamento, Richard, que anos mais tarde chegaria a tempo de interromper a cerimônia de casamento de Mr. Rochester e Jane Eyre.

 

“Então eu desviei os olhos dela e olhei para o meu quadro favorito, ‘A Filha de Miller’, uma linda moça inglesa de cachos castanhos e olhos azuis e um vestido decotado. Depois olhei por cima da toalha branca e do vaso de flores amarelas para o Sr. Mason, tão seguro de si, tão indubitavelmente inglês. E para a minha mãe, tão indubitavelmente não inglesa, mas também não negra branca. Não a minha mãe. Nunca tinha sido. Nunca poderia ser. Sim, ela teria morrido, eu pensei, se não o tivesse conhecido. E pela primeira vez eu me senti grata e gostei dele. Há mais de uma maneira de ser feliz, talvez seja melhor ter paz, sentir-se satisfeita e protegida, como eu me sinto, viver muitos e muitos anos em paz, e depois talvez eu me salve, apesar do que Myra diz.” (p. 31)

 

Annete tinha plena consciência do ódio que os negros sentiam dela e de sua família e temia que algo de ruim acontecesse. Mr. Mason, por outro lado, não acreditava que os negros pudessem fazer algo em represália pelos anos de escravidão. Ele gostava de Coulibri e não queria ir embora do lugar tão cedo. Annete temia por seu filho mais novo, o bebê Pierre. De certa forma, ela não queria que ele crescesse ali, tendo as marcas da colonização refletidas em sua personalidade, como Antoinette.

Um tempo depois os temores de Annete se confirmam verdadeiros.  Um grupo de ex-escravos, incluindo empregados da casa, puseram fogo em sua propriedade, o que acabou resultando na morte do pequeno Pierre. Annete surtou com a tragédia, mas ao invés de ter o apoio da família, sobretudo do marido, foi posta em uma casa sob os cuidados de um casal de negros e era abusada sexualmente por eles. Torna-se louca, vítima das fatalidades que culminaram na morte de seu filho. Ataca Antoinette quando a menina a visita, pouco depois do incêndio, e também ao marido. Depois disso Antoinette é educada em um internato de freiras, até completar a idade matrimonial de 17 anos.

“- Eu convidei uns amigos ingleses para virem passar o próximo inverno aqui. Você não ficará entediada.

– O senhor acha que eles virão? – eu disse, meio em dúvida.

– Um deles virá. Eu tenho certeza.” (p. 55)

 

“Bertha” Antoinette Mason. Jane Eyre, BBC 2006.

 

Edward Rochester, o filho mais novo, portanto, sem direito a uma farta herança ou a grandes propriedades, é o referido inglês que Mr. Mason tem absoluta certeza que conhecerá a sua filha. Antoinette carrega o estigma de ser filha de uma mulher louca, mas também tem um grande dote. É a pretendente ideal para um cavalheiro empobrecido como Rochester. Com a leitura de Jane Eyre, sabemos que o pai de Mr. Rochester tinha apenas o primogênito como favorito e grande herdeiro de suas propriedades. Desta forma, ao filho mais novo restava fazer um casamento vantajoso. Não sendo tão chegado a Edward, planeja casá-lo com Antoinette sem que o jovem saiba absolutamente nada sobre as origens da moça. Tudo fora combinado anteriormente pelo pai do rapaz e o irmão da moça, sendo o casal mero fantoche em um casamento de conveniência.

Mr. Rochester, ao chegar a Spanish Town, é acometido de uma febre muito forte, que o faz perder os sentidos. Seu noivado fora acertado quando ele estava ainda em recuperação, por indicação de seu pai. Quando recuperou-se, já estava comprometido. Ele achava tudo muito primitivo, não amou verdadeiramente sua esposa nem por um momento. Houve, de fato, um pequeno esforço para que eles pudessem viver tranquilamente, mas tudo naquelas Índias Ocidentais espantava Rochester. Quando aos poucos ele foi descobrindo a verdade por trás de seu casamento e as origens de sua esposa, tudo começou a desmoronar.

 

“Ela usava um chapéu de três bicos que lhe caía muito bem. Pelo menos sombreava seus olhos, que são grandes demais e podem ser desconcertantes. Tenho a impressão de que ela nunca pisca. Olhos oblíquos, tristes, escuros e estrangeiros. Ela pode ser crioula de pura descendência inglesa, mas eles não são ingleses nem europeus. E quando foi que eu comecei a notar tudo isso a respeito da minha esposa Antoinette? Acho que foi depois que saímos de Spanish Town. Ou notei antes, mas me recusei a admitir o que estava vendo? Não que eu tenha tido muito tempo para notar alguma coisa. Casei-me um mês depois de ter chegado à Jamaica, e nesse período passei três semanas de cama, com febre.” (p. 63)

 

“Tudo é demais, eu senti enquanto cavalgava cansadamente atrás dela. Azul demais, roxo demais, verde demais. As flores vermelhas demais, as montanhas altas demais, as colinas próximas demais. E a mulher é uma estranha. Sua expressão suplicante me aborrece. Eu não a comprei, ela é que me comprou, ou pensa que comprou. Eu olhei para a crina grossa do cavalo. Querido pai. As 30 mil libras me foram pagas sem discussão ou restrição. Não foi feita nenhuma provisão para ela (isso tem de ser providenciado). Agora eu tenho uma renda modesta. Nunca envergonharei o senhor nem o meu querido irmão, o filho que o senhor ama. Nem cartas suplicantes nem pedidos sórdidos. Nenhuma das manobras furtivas de um filho mais moço. Eu vendi a minha alma, ou o senhor a vendeu, e, afinal de contas, será que foi um mal negócio? A moça é considerada linda, ela é linda. E no entanto…” (p. 66)

 

Mr. Rochester. Jane Eyre, BBC 2006.

 

Antoinette, embora com medo do que pudesse acontecer, uma premonição, talvez, aceita casar-se com Rochester. Aqui cabe informar que, com o casamento, ela torna-se uma mulher pobre, pois todo o seu dinheiro, o seu dote, é de propriedade de seu marido, de acordo com as leis inglesas. Ela dá mostras de que realmente ama o marido, ou tentará amar como for possível. Antoinette é uma mulher marcada por muitos acontecimentos ruins e desejava ter uma vida tranquila, com amor, e se possível no lugar que ela tanto amava. Ela viu em Rochester a oportunidade de ser feliz, mas alguma coisa sempre fazia com que ela tivesse medo. Medo de ser feliz. Ele a fez apaixonar-se, mas não se apaixonou de volta, e pior, acionou o gatilho que destruiu o breve instante de felicidade que ela teve no matrimônio, deixando-a transtornada, presumidamente louca. Daí para o sótão do castelo de Thornfield, que tornou-se propriedade de Rochester com a morte de seu pai e também de seu irmão, foi apenas uma viagem.

 

“- Eu nunca desejei viver antes de conhecê-lo. Sempre achei que seria melhor se eu morresse. Tanto tempo de espera antes que tudo se acabe.

– E você alguma vez contou isso a alguém?

– Não havia ninguém para contar, ninguém para ouvir.

(…)

– Por que você me fez desejar viver? Por que fez isso comigo?

– Por que eu quis. Não é o bastante?

– Sim, é o bastante. Mas se um dia você não quiser. O que eu faço então? Suponhamos que você leve embora essa felicidade quando eu não estiver olhando…” (p. 88)

 

Confesso que quando eu vi o tamanho do livro Vasto mar de Sargaços (191 páginas), fiquei um pouco decepcionada. Imaginei que seria um livro com muitas páginas e embarquei na leitura temendo que ela fosse ruim. Estava completamente enganada! Nos 20 anos que Jean Rhys levou para dar voz a Antoinette ela conseguiu fazer de sua história um rico panorama da colonização, da questão escravista, da questão da mulher neste contexto e tanta coisa, com tanta clareza e concisão, que não é à toa que esta obra seja referência nos estudos de literatura inglesa no mundo todo. Vasto mar de Sargaços é um super livro e, apesar de usar uma personagem quase apagada de um clássico da literatura inglesa, não é, nem por um momento, uma cópia ou mais um livro que pega carona nos clássicos. Antoinette é mais que a esposa louca de um nobre cavalheiro inglês. Ela é um pouquinho de cada mulher silenciada e usada como instrumento sexual ou barganha financeira daquela época. Ela teve o azar de ser as duas coisas e não receber nada em troca. Apenas mais combustível para justificar e alimentar a sua suposta loucura.

 

 

SOBRE A AUTORA: Jean Rhys nasceu em Dominica, nas Índias Ocidentais (Caribe). Mudou-se para Londres aos 16 anos e começou a escrever em Paris, na década de 1920, incentivada pelo escritor Ford Madox Ford. Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos The Left Bank (1927). A obra que deflagrou sua carreira foi Voyage in the Dark (1934), assumidamente autobiográfica, escrita no calor dos acontecimentos de sua juventude e burilada mais tarde. Entre seus maiores sucessos estão Quartet (1929), romance transposto por James Ivory para o cinema em 1981, com Isabelle Adjani, Alan Bates e Maggie Smith. Vasto mar de sargaços (1966), escrito ao longo de 20 anos, é hoje referência nos estudos de literatura de língua inglesa em todo o mundo.

Jean Rhys, autora de “Vasto mar de Sargaços”.

 

Título: Vasto mar de Sargaços
Autora: Jean Rhys
Tradução: Lea Viveiros de Castro
Páginas: 191
Editora: Rocco

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Existem alguns filmes que adaptaram Vasto Mar de Sargassos, para o cinema e para a TV. Abaixo, deixo o trailer da adaptação do ano de 1993 (em inglês).

Sinopse do filme: Uma jovem herdeira crioula nascida numa sociedade colonialista e opressiva na década de 1840 se casa com um recém-chegado inglês para evitar perder seus bens. Tudo parece estar perfeito, o amor surge, e a felicidade está a caminho, mas ela esconde um antigo segredo sobre sua infância e sua mãe. Aos poucos, esse segredo começa a erodir este relacionamento perfeito e, talvez, a história de sua mãe vai começar de novo … com ela. Fonte: Filmow.

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