maio 16, 2018

[ETC.] BORA PASSAR UMA NOITE INTEIRA ESCREVENDO? VEM AÍ O 4º CORUJANDROSS

 

Nos dias 19 e 20 de maio de 2018, acontecerá a quarta edição do Corujandross — Produção noturna intensiva de escrita da Andross Editora. O intuito é mobilizar escritores a escrever intensamente contos, crônicas e poemas em 8 horas seguidas de produção, com algumas pausas.

Cada autor estará em sua casa, em seu confortável ambiente de escrita, sabendo que outro autor estará em outro local, produzindo também. É essa a experiência que a Andross Editora quer proporcionar aos participantes.

Todos os que participarem poderão interagir nos intervalos pelo grupo do Whatsapp do programa, seja trocando experiências, tirando dúvidas ou mesmo só descontraindo.

Para estimular a adesão, autores que participarem do projeto, remeterem seu texto pronto para avaliação no prazo estipulado e publicarem pela Andross ganharão inteiramente grátis um exemplar de uma das coletâneas já lançadas pela editora. Logicamente esse livro é apenas um incentivo. O maior prêmio é mesmo a experiência de produzir um texto intensamente ao mesmo tempo que outro colega também produz.

 

Então, resumindo:

Para participar da maratona(Gratuito):

• Não é preciso se comprometer com horário e/ou escrita do texto.

 

Para receber o certificado(Gratuito):

• participar do 4º Corujandross, cumprindo as 8 horas (das 22 às 6h)
• enviar o texto produzido ao fim do processo (6h15 da manhã do dia 20 de maio de 2018)

 

Só para ganhar o livro bônus:

• participar do 4º Corujandross, independentemente do cumprimento total das horas
• revisar e enviar o texto produzido até o dia 20 de maio de 2018
• publicar em uma das coletâneas literárias da Andross (consulte regulamento na hora do envio)

 

Para ganhar o livro bônus e o certificado:
• participar do 3º Corujandross, cumprindo as 8 horas (das 22 às 6h)
• enviar o texto produzido ao fim do processo  para confirmação de produção (6h15 da manhã do dia 20 de maio de 2018)
• revisar e enviar o texto até o dia 27 de maio de 2018
• publicar em uma das coletâneas literárias da Andross (consulte regulamento na hora do envio)

Fonte: Andross Editora

 

 

Veja mais informações e inscreva-se aqui.

fevereiro 15, 2018

[CONTO] BICHECTOMIA

Sinopse: “Quando viu o nome bichectomia escrito no panfleto de uma clínica do bairro, Carolina logo decidiu que queria uma.”

 

Este conto foi publicado na coletânea Miríade, da Andross Editora. Saiba mais aqui.

 

***

 

Era para ser uma tarde como outra qualquer, mas Carolina decidiu fazer uma Bichectomia. Assim, do nada. Bem, não do nada, mas a partir do momento em que leu bichectomia no panfleto de uma clínica do bairro. Decidiu que queria um negócio desses. Nome legal, bi-chec-to-mi-a.

– Moça, por favor! – disse, batendo no balcão. – Quero uma bichectomia.

A secretária olhou para Carolina parecendo não entender o pedido.

– A senhora quer uma bichectomia? A senhora está ciente do que se trata esse procedimento?

Carolina vacilou, mas logo se recompôs.

– Vi no panfleto. Quero uma bichectomia.

A secretária sorriu amarelo e foi ver com o doutor se a mulher poderia ter sua bichectomia sem demora.

O doutor chamou por Carolina e explicou-lhe rapidamente sobre o procedimento. Algumas agulhas, raspagens e ela ficaria, em poucas horas, tal qual uma personagem de Hollywood!

Carolina desejou ter lido com mais atenção o panfleto da clínica.

Adormeceu. Quando acordou, estava sozinha. Tinha dificuldade para falar. Seu rosto estava estranho, seco… duro. Carolina… não tinha mais bochechas! Olhou para um caco de espelho e viu-se refletida. Tinha um rosto bizarro! Mas que jeito de passar a tarde!

– Doutor, doutor! – ela chamou.

O doutor apareceu na porta do quarto com um engravatado e uma pilha de papéis.

– Dona Carolina, eu posso explicar. A senhora foi a minha primeira paciente de bichectomia… quis tentar algo novo… nós vamos reparar o dano, fique tranquila!

– Doutor, doutor! – interrompeu Carolina, estranhando sua própria voz, agora esganiçada. – Eu ia lhe perguntar se já posso sair.

Os doutores, pasmos, abriram passagem para a mulher sem bochechas, sem dizer palavra.

– Eu, hein! Pensaram que eu não sabia o que era bichectomia? Que boa essa técnica de aumentar os lábios afinando o rosto. Só queria não ter ficado com aparência tão gótica…

Carolina não daria o braço a torcer mesmo que achasse estar feia, o que não achava. No mais, gostava mesmo de chamar atenção. Recomendaria o procedimento a algumas de suas amigas. Certeza!

 

janeiro 09, 2018

[CONTO] QUERIDO PAULO

Sinopse: “Prestes a se mudar para Londres, Lília encontra uma foto nas páginas de um livro que fora o seu favorito, presente de uma pessoa especial. Por lembrar-se demais de Paulo lendo os versos de Florbela Espanca, o belo exemplar, presente do namorado de seus tempos de juventude ficara guardado, intocado em sua estante, por quase trinta anos! Uma única foto desperta-lhe lembranças de um amor até então sufocado em seu peito. Não podia fugir, precisava escrever algumas linhas para seu querido Paulo antes de ir embora de vez.”

 

Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2016.

 

Querido Paulo,

É estranho chamá-lo pelo nome, mas creio não ter mais o direito de chamá-lo de amor. Estou de mudança para Londres. Sim! Finalmente surgiu a oportunidade de realizar um dos meus maiores sonhos: estudar História da Arte no meu lugar favorito no mundo! Depois de tantos anos, consigo novamente sentir aquele frio na barriga, uma ansiedade gostosa sobre o que há de vir.

Você deve estar se perguntando o porquê desta carta. E tem todo o direito de fazê-lo. A questão é que tenho medo de tentar explicar e acabar trocando os pés pelas mãos, novamente. Já viu a foto que eu enviei junto, no envelope? Fiquei horas olhando para ela! Fazia tempo que não a via. Pensei nem ter mais algum registro de nós dois. Comparei o meu eu de trinta anos atrás com o de agora. Fisicamente, orgulho-me em dizer, foram poucas as mudanças. Algumas rugas, certamente. O cabelo mais curto, em um corte moderno (acho que você iria gostar!). Minha pele nunca mais foi tão bronzeada quanto naqueles dias que passamos juntos em Búzios. Estou sendo prolixa… O que realmente mais me chamou atenção, o que mais me chocou, na verdade, ao olhar para essa foto, foi o meu sorriso. E o seu olhar. Trinta anos se passaram desde esse registro e eu não consigo me lembrar de sorrir assim de nada, nem com ninguém. A felicidade genuína que transborda dessa foto partiu o meu coração, novamente. Fui transportada para esse dia em que, naquele cenário paradisíaco, trocamos juras de amor eterno. Ah, a juventude! Lembra-se? E o seu olhar. Não vou mentir: nunca mais tive em mim um par de olhos que me fitasse com tamanha paixão e desejo! Você pode pensar, talvez, que eu esteja exagerando, mas, se alguém depois de você me olhou de forma parecida, o sentimento não era tão visceral quanto aquele que você tinha por mim. Você me amou tanto quanto eu te amei, não é verdade? Preciso continuar acreditando que sim. Ver essa foto depois de tantos anos tirou-me do prumo!

A propósito, essa lembrança de nós dois foi o que me motivou (e deu coragem) para escrever-lhe essas palavras. Encontrei nossa foto em um livro que você me deu de presente, uma antologia poética de Florbela Espanca, edição luxuosa, de capa dura, importada de Portugal. Lembra-se? Foi o melhor presente que já ganhei! Florbela traduz-me como ninguém em seus versos. Bem, assim eu gostava de pensar. Gostava. Há muito tempo tenho evitado os versos de Espanca. Todos me remetem a você. Não por acaso, ouço nesse instante os versos da poetisa na voz inconfundível de um de seus cantores favoritos, Fagner. Ele ainda é uma presença constante no toca-fitas do seu carro? Melhor dizendo, em um pendrive ou rádio on-line qualquer?

Tenho uma filha. Sim, tenho uma filha. Chama-se Paulina. Uma graça de menina. Fez vinte e nove anos há poucos meses. Quando eu estiver com tudo pronto em Londres, ela irá morar comigo. Somos amigas e companheiras uma da outra. Ela saiu-se tal qual a mãe em relação às desilusões amorosas. Mas ainda tem tempo para ser feliz, creio que sim. Ela tem um ímpeto que eu nunca tive. Uma garra, uma sagacidade! Um olhar apaixonado… que me faz lembrar você, às vezes.

Desculpe se com essas palavras te deixo confuso, falar coisas assim depois de trinta anos… Mas essa foto, quando a vi, quando a reencontrei, percebi que precisava dizer tudo isso antes de ir embora. Querido Paulo, onde foi que nos perdemos? Só me lembro de nosso adeus! Quando foi que decidimos que os nossos caminhos não poderiam mais ser trilhados juntos? Por que a chama do seu olhar se apagou enquanto ainda incendiava o meu? Foi essa foto, essa maldita foto, a responsável por essa carta! Despertou em mim algo que eu pensara estar morto ou pelo menos bem enterrado. O pior de tudo: despertou em mim o desejo de ter algo mais que ainda fosse nosso. Guarde-a junto a essa carta. Ou destrua ambas, caso possam lhe causar algum transtorno. Não posso levar essa foto comigo, não consigo.

Quero lhe dizer o que ficou entalado em minha garganta naquela noite, mas não tive coragem de correr até você e dizer: Eu te amo. Eu te amei. Eu te amava demais naquele verão. Você entendeu tudo errado, ou eu não soube me explicar muito bem. Agora não importa mais. Mas eu queria que você soubesse.

Se quiser me encontrar, não será difícil, eu garanto. Se não quiser, fique tranquilo: não haverá mais cartas como essa. Talvez mais uma ou duas, se me permitir, para que eu possa lhe falar sobre a vida em Londres. Talvez voltemos a conversar sobre nossos escritores favoritos. Ou não. Bem, você é quem sabe.

Agradeça (novamente) ao Jorge por ter-lhe entregado essa carta. Durante anos ele teve a delicadeza de omitir o seu nome nas nossas conversas. Mas eu soube ler nas entrelinhas.

 

Sem mais, com amor,

Lília.

 

****

 

Jorge olhou para aquela carta mais uma vez e uma lágrima escorreu por seus olhos. Não sabia como Lília reagiria se a verdade viesse à tona, mas sabia que fizera o certo em criar aquelas falsas conversas, em ao menos manter a chama acesa no coração dela. Era o que Paulo queria. Com certeza era. Ele se agachou e deixou a carta sob o concreto gelado, ao lado de um vaso de flores que havia comprado. Sorriu. Havia cumprido seu papel. Havia entregue a carta conforme solicitado. Que as palavras chegassem ao amigo e ele também pudesse alimentar a chama desse amor eterno.

 

 

 

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