agosto 30, 2017

[ETC.] #12MESESDEPOE: LEITURAS DO ÚLTIMO TRIMESTRE

Antes tarde que ainda mais tarde: estou atrasada, eu sei, com as postagens sobre as leituras do desafio #12mesesdepoe. Mas ao invés de apresentar aqui uma pequena lista de justificativas por não ter falado sobre as leituras nos prazos habituais, vou falar logo do que interessa: as leituras que fiz de Edgar Allan Poe no último trimestre.

 

Junho

 O conto do mês de junho foi o Três domingos numa semana. Aqui, acompanhamos Bobby, que busca a definição da data de seu casamento, decisão que precisava ser tomada por seu tio ranzinza. O tio decide que o casamento será realizado, com direito a um apoio financeiro, quando houver três domingos em uma mesma semana. Leitura rápida, tendendo para o humor.

 

A poesia do mês de junho foi A Cidade do Mar, que pode ser lida abaixo:

A cidade do mar

 

Olhai! a Morte edificou seu trono

numa estranha cidade solitária

por entre as sombras do longínquo oeste.

Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,

foram todos buscar repouso eterno.

Seus monumentos, catedrais e torres

(torres que o tempo rói e não vacilam!)

em nada se parecem com os humanos.

E em volta, pelos ventos olvidadas,

olhando o firmamento, silenciosas

e calmas, dormem águas melancólicas.

 

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado

sobre a cidade, em sua imensa noite.

Mas um clarão que vem do oceano lívido

invade dos torreões, silentemente,

e sobe, iluminando capitéis,

pórticos régios, cúpulas e cimos,

templos e babilônicas muralhas;

sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,

onde os frios se enroscam e entretecem

de vinhedos, violetas, sempre-vivas.

 

Olhando o firmamento, silenciosas,

calmas, dormem as águias melancólicas.

Torreões e sombras tanto se confundem

que é tudo como solto nos espaços.

E a Morte, do alto de soberba torre,

contempla, gigantesca, o panorama.

Lá, os sepulcros e os templos se escancaram

mesmo ao nível das águas luminosas;

mas não pode a riqueza portenhosa

dos ídolos com olhos de diamante,

nem das jóias que riem sobre os mortos,

tirar as vagas de seu leito imóvel;

pois, ai! nem leve movimento ondula

esse imenso deserto cristalino!

Nem ondas falam de possíveis ventos

sobre mares distantes, mais felizes;

ondas não contam que existiram ventos

em mar de menos espantosa calma.

 

Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.

Uma onda… Fez-se ali um movimento!

e dir-se-ia que as torres vacilaram

e afundaram de leve na água turva,

abrindo com seus cumes, debilmente,

um vazio nos céus enevoados.

As ondas têm, agora, luz mais rubra,

as horas fluem, lânguidas e fracas.

E quando, entre gemidos sobre-humanos,

a cidade submersa for fixar-se no fundo,

o Inferno, erguido de mil tronos,

curvar-se-á, reverente.

 

 

Julho

Em julho, o conto foi o bastante conhecido Os Assassinatos na Rua Morgue, de 1841. Esse conto eu li pelo livro Medo Clássico Edgar Allan Poe, página 117. Meu interesse, além de cumprir o desafio, foi ler com bastante atenção a narrativa que inaugurou as narrativas policiais como conhecemos hoje. É um conto longo, mas o suspense é irresistível. Aqui, o detetive Dupin, com toda a sua inteligência, procura solucionar o mistério que envolve o assassinato brutal de duas mulheres.

 

[Meu interesse em narrativas policiais, para quem não sabe, é por motivos de O Matador Noturno].

 

A poesia do mês de julho foi Um sonho dentro de um sonho:

Um sonho dentro de um sonho

 

Este beijo em tua fronte deponho!

Vou partir. E bem pode, quem parte,

francamente aqui vir confessar-te

que bastante razão tinhas, quando

comparaste meus dias a um sonho.

Se a esperança se vai, esvoaçando,

que me importa se é noite ou se é dia…

ente real ou visão fugidia?

De maneira qualquer fugiria.

O que vejo, o que sou e suponho

não é mais do que um sonho num sonho.

 

Fico em meio ao clamor, que se alteia

de uma praia, que a vaga tortura.

Minha mão grãos de areia segura

com bem força, que é de ouro essa areia.

São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos

dedos, para a profunda água escura.

Os meus olhos se inundam de pranto.

Oh! meu Deus! E não posso retê-los,

se os aperto na mão, tanto e tanto?

Ah! meu Deus! E não posso salvar

um ao menos da fúria do mar?

O que vejo, o que sou e suponho

será apenas um sonho num sonho?

 

 

Agosto

Neste mês, o conto lido foi O poço e o pêndulo, publicado originalmente em 1842. A história é ambientada na Espanha dos tempos da Inquisição, então já dá para ter uma ideia do que terror que virá. Um homem, condenado pelo tribunal, é atirado em um calabouço e vive uma angustiante tortura física e psicológica. Essa é uma narrativa do tipo marca registrada de Edgar Allan Poe: terminei a leitura agoniada (o conto é ótimo especialmente por essa razão)! No livro Medo Clássico, ele pode ser lido a partir da página 35.

 

O poema do mês de agosto é Os sinos. Não tenho como comparar com competência a tradução em relação ao original, mas fiquei fascinada com o ritmo dessa leitura. Confira abaixo:

Os sinos

 I

Ouça os trenós com o dobrar –

de sinos de prata a dobrar!

Que mundo de júbilo o som redobra!

Como tangem, tangem, tangem,

No frio ar da noite!

Enquanto o céu estrelado se desdobra

Todo o céu se assombra

Com alegrias cristalinas;

Marcando tempo, tempo, tempo,

Tal um ritmo de antigo tempo,

E soam ressoam em música ressoam

Dos sinos que dobram, dobram, dobram,

Dobram, dobram, dobram –

Ressoam e tangem os sinos dobram.

 

II

Ouça os sinos em núpcias dobram,

Dourados sinos dobram!

Que mundos de alegria em harmonia redobram!

No perfumado ar da noite

Eles ressoam com alegria!

Em notas de derretido ouro

E em tal melodia

Em simples sons flutua,

Às pombas que ouvem, então gorjeiam

No luar!

Oh, de espaços ressoando,

Que jorro de euforia se avolumando!

Como dobram

Como redobram

Ao futuro! Como soam

Em encantos que ressoam

Ao soante e ressonante dobrar

Dos sinos que dobram, dobram, dobram,

Dobram, dobram, dobram –

No ritmo e rima os sinos dobram!

 

III

Ouça: em alto som os sinos dobram

De bronze os sinos dobram!

Que conto de terror em clamor redobram!

Os alarmados ouvidos da noite

Como eles gritam de susto!

Muito horrizados para falar,

Ficam a gritar, a gritar,

Sem sintonia,

Em clamoroso apelo à piedade ao fogo,

Em louco protestar contra o surdo fogo,

Saltando acima, acima, acima

Que o desespero anima,

Em resoluto esforçar,

De agora ou nunca

Junto a face pálida da lua!

Oh, os sinos dobram, dobram, dobram,

Num relato do terror redobram

De desespero!

Como eles soam, tangem e bradam

Que horror eles vertem

No seio do ar palpitante!

Ainda de ouvir pode se saber,

Em dobrares

E em redobrares,

Como o perigo vai e vem:

Ainda ao ouvido dobram,

Assim tangem

E assim bradam,

Enquanto o perigo sobe e desce,

E ao subir e ao descer na fúria dos sinos que dobram,

Os sinos dobram,

Dobram, dobram, dobram, dobram,

Eles dobram, dobram, dobram –

No clamor e no ardor os sinos dobram!

 

IV

Ouçam: os sinos dobram

De ferro os sinos dobram!

Que mundo de solenidade a monofonia redobra!

No silêncio da noite

Trememos de pavor

Da melancólica ameaça deste tom!

Para cada som que flutua

Das goelas em ferrugem atua

Um gemido!

E as pessoas – ah, as pessoas –

Que habitam nas cúpulas,

Tão sozinhas,

E que tocam, tocam, tocam,

Em abafada monotonia,

Glorificados quando rolam

As pedras sobre nossos corações!

Eles não são homens nem mulheres,

Não são bestas nem são humanos,

São espectros:

E o rei deles é quem soa,

É ele quem ressoa, ressoa, ressoa,

E redobra

Os louvores que os sinos dobram!

E os seus peitos se atordoam

Com os louvores que os sinos soam;

E ele dança e ele urra;

Marcando tempo, tempo, tempo,

Num tipo de rima de antigo tempo;

Aos louvores que os sinos dobram,

Marcando tempo, tempo, tempo,

Ao golpear dos sinos que dobram –

Dos sinos que dobram, dobram, dobram –

Ao soluçar dos sinos que dobram;

Deixando tempo, tempo, tempo,

Quando ele ressoa, ressoa, ressoa,

Numa feliz rima de antigo tempo,

Ao rolar dos sinos que dobram,

Dos sinos que dobram, dobram, dobram,

Do badalar dos sinos que dobram,

Dos sinos que dobram, dobram, dobram,

Que eles dobram dobram, dobram –

Assim lamentosos e gementes eles dobram!

 

 

Nestes últimos meses eu terminei a leitura do Medo Clássico Edgar Allan Poe, coletânea lindíssima publicada pela Editora Darkside. Foi uma leitura ótima, não só pela edição primorosa, mas pelo texto muito bem trabalhado pela tradutora Marcia Heloisa e também pelas ilustrações maravilhosas de Ramon Rodrigues. No final do volume, temos a reprodução de algumas fotos da casa do autor e também uma página com dados de sua biografia.

 

Até dezembro, voltarei a falar sobre um ou outro detalhe do livro, pois alguns dos contos do desafio estão presentes nele e eu não posso perder a oportunidade de revisitar essa edição tão incrível.

 

 

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Meus diários de leitura #12mesesdepoe e Medo Clássico já postados, você pode ler clicando aqui.

 

 

P.s.: a vida real (e alguns projetos mais ou menos paralelos ao blog) tem me exigido uma dedicação um pouco maior e nas últimas semanas não tenho conseguido manter o ritmo de postagens dos meses anteriores. Vou fazer o possível para, pelo menos uma vez por semana, vir com alguma dica de leitura ou algum texto bacana. Mas pode (e vai) acontecer de eu não postar nada em alguma semana… Entretanto o blog continuará aqui, e eu nas redes sociais e também no Medium, Wattpad e Luvbook (aliás, quem quiser ler, comentar e compartilhar os meus contos e maquinações dessas plataformas, ficarei muito, muito, muito grata!).

 

maio 31, 2017

[ETC.] DESAFIO #12MESESDEPOE MAIO E DIÁRIO MEDO CLÁSSICO

“Todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas.” (Edgar Allan Poe em “O Gato Preto”)

 

Diferente da leitura do mês passado, o conto escolhido para maio esteve mais de acordo com o que espero lendo Edgar Allan Poe: morbidez e suspense até a última palavra!

O Gato Preto foi publicado originalmente em 1843 e ressalta o misticismo em torno dos felinos de cor preta, que seriam reencarnação de bruxas, na visão de um dos personagens deste conto. O narrador, que antes era uma pessoa pacífica, amante dos animais, foi mudando gradativamente de personalidade após adotar o gato preto. Por culpa do alcoolismo, ele também se torna uma pessoa violenta, agredindo fisicamente a esposa e os outros animais de estimação. O gato, Plutão, foi poupado das agressões até o dia em que arranhou o dono. A culpa é a peça chave deste conto, o desencadeador de todos os (mórbidos) acontecimentos. No livro Medo Clássico, publicado pela editora DarkSide, ele pode ser lido a partir da página 85.

 

 

“Mas amanhã estarei morto, e hoje preciso remover este fardo de minha alma.” (p. 85)

 

“Há algo de altruísta e abnegado no amor de um animal que toca o coração daquele que pôde testar amiúde a amizade precária e a fidelidade leviana dos Homens.” (p. 86)

 

Saiba mais sobre o livro Medo Clássico: Edgar Allan Poe clicando aqui e aqui.

 

Veja abaixo o curta de animação baseado em O Gato Preto, criado por Vít Přibyla and Noemi Valentíny:

 

Além de O Gato Preto, em maio o desafio #12mesesdepoe também propôs a leitura do poema O Corvo, uma das obras mais conhecidas de Edgar Allan Poe! No livro Medo Clássico temos, além da versão original, em inglês, as traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa. Enriquecendo ainda mais a leitura, o texto A Filosofia da Composição, em que Poe disserta sobre sua obra mais ilustre.

 

Neste mês, diferente dos outros, ao invés de transcrever o poema, deixarei os vídeos com as narrações incríveis de Guto Russel. Prepare-se!

 

O Corvo, tradução de Machado de Assis (1883):

 

O Corvo, tradução de Fernando Pessoa (1924):

 

 

Quer ler essas traduções maravilhosas de O Corvo? Baixe gratuitamente o e-book da Editora DarkSide! É só clicar aqui.

“Desaparecido precocemente aos 40 anos, Edgar Allan Poe já ultrapassou dois séculos de seu nascimento em posição privilegiada, responsável não somente por influenciar alguns dos escritores decisivos das décadas seguintes, bem como por estabelecer com propriedade caminhos novos e férteis para a literatura ocidental do então século XIX. Esta edição gratuita em e-book reúne o seu poema mais famoso, “O corvo”, em sua versão original, junto com as clássicas traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa, e uma análise de Poe feita por Charles Baudelaire, seu tradutor e um dos principais divulgadores de sua obra na Europa, acompanhadas das ilustrações de Édouard Manet.”

 

 

 

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abril 30, 2017

[ETC.] DESAFIO #12MESESDEPOE: ABRIL

O desafio #12mesesdePoe neste mês de abril trouxe uma narrativa bastante diferente a qual estamos acostumados tratando-se de Edgar Allan Poe: A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall, publicada originalmente em 1835, lembra (e muito) as histórias de Julio Verne, um retrofuturismo que, recentemente, aprendi que também é conhecido como steampunk.

 

Cheio o coração de delirantes fantasias

Que eu capitaneio,

Com uma lança de fogo e um cavalo de ar

Viajo através da imensidade.

— Canção de Tom O’Fedlan”

 

Certo dia, em Roterdão, um balão feito de jornais velhos sobrevoa a cidade, causando um tremendo alvoroço.

Porque, vejamos: já viu alguém, ou ouviu falar alguma vez de um balão formado por completo de jornais velhos? Na Holanda, pelo menos, não. E, no entanto, ali mesmo, em frente do nariz de todo o povo, ou melhor, um pouco mais alto que o seu nariz, aparecia o artefato em questão construído com aquele material inverossímil. Isto era um enorme insulto ao senso comum dos burgueses de Roterdão.”

 

“O balão, porque realmente se tratava de um balão, tinha descido a cem pés do solo e mostrava à multidão o seu único tripulante. Era um indivíduo bem extraordinário. Não teria mais de dois pés de altura, mas por muito pequeno que fosse perderia o equilíbrio e passaria pela borda da minúscula navezita, se não fosse um rebordo circular que lhe subia até o peito e estava ligado às cordas do globo.”

 

O pequeno tripulante trazia consigo uma carta de Hans Pfaall, um relato sobre uma aventura extraordinariamente ousada e revolucionária.

 

“Toda a atenção se concentrou então sobre a carta cuja entrega tinha sido fatal à pessoa e à dignidade de Sua Excelência Von Underduck. Não se esquecera este funcionário de por em segurança objeto tão importante do qual era o primeiro destinatário, e de que era o segundo o professor Rudabub, como presidente e vice-presidente respectivos do Colégio Astronômico de Roterdão.”

 

Eu gosto desse estilo de narrativa, mas foi uma surpresa ler algo assim do autor d’O Corvo. A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall é uma boa história. Não é a minha favorita de Poe até aqui, mas merece a leitura.

 

O poema deste mês, que é lindíssimovocês podem conferir abaixo:

Desde a infância eu tenho sido

Diferente d’outros – tenho visto

D’outro modo – minhas paixões

Tinham uma outra fonte e

Minhas mágoas outra origem

No mesmo tom não despertava

O meu coração para a alegria

O que amei – eu amei só.

Então – na infância – a aurora

Da vida atormentada – estava

Em cada nicho de bem e mal

O mistério que me prendia

Da correnteza, da fonte

Da escarpas rubras do monte

Do sol que me rodeava

Em pleno outono dourado

Do relâmpago nos céus

Quando sobre mim passava

Do trovão, da tormenta

E a nuvem tem a forma

(Quando o resto do céu é azul)

D’um demônio aos meus olhos.

 

 

 

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