janeiro 29, 2018

[RESENHA] KURT SEYIT & SHURA, DE NERMIN BEZMEN

Sinopse: “O livro que inspirou uma fascinante série de TV, agora exibida pela Netflix, e que continua a encantar milhões de telespectadores no mundo todo.

Um best-seller instantâneo desde o seu lançamento em 1992, o romance Kurt Seyit & Shura, de Nermin Bezmen, é um clássico da literatura turca contemporânea, um drama romântico que tem como cenário a decadência do Império Russo e a Primeira Guerra Mundial. Bezmen nos conta a história de um casal que vive um amor proibido à medida que foge da onda de devastação causada pela Revolução Bolchevique. Neta de Kurt Seyit, O Lobo, que procurou refúgio no já enfraquecido Império Otomano, a autora relata a história real até então traduzida para doze idiomas.

Kurt Seyit é o filho de um nobre abastado da Crimeia e um elegante primeiro tenente da Guarda Imperial. Ferido no front dos Cárpatos e, mais tarde, procurado pelos bolcheviques, ele faz uma fuga ousada através do Mar Negro. Orgulhoso para aceitar o pagamento por um carregamento de armas que ele entrega aos nacionalistas, Seyit enfrenta anos de luta para começar uma nova vida na República Turca que surge das cinzas do Império Otomano decadente. Tudo o que ele tem é a sua dignidade e o seu amor.

Shura é a linda e inocente menina, encantada pela música de Tchaikovsky e pelas luzes brilhantes de Moscou, que se apaixona por Seyit quando tem apenas quinze anos. Uma vítima em potencial na mira dos bolcheviques devido à riqueza e à posição social de sua família, ela está determinada a seguir seu coração e acompanhar Seyit na sua perigosa fuga pelo Mar Negro.”

 

Antes mesmo da Pedrazul Editora demonstrar interesse em publicar o romance Kurt Seyit e Shura, da autora turca Nermin Bezmen, vez ou outra esse nome pipocava nas redes sociais as quais participo, especialmente em grupos que discutem literatura no facebook. Tratava-se, eu logo fiquei sabendo, de uma linda série turca, disponível na Netflix, adaptação do livro homônimo e também de partes de outros volumes de uma série de livros. Por razões diversas, eu não assisti a adaptação antes da publicação do livro aqui no Brasil. Na verdade, nem mesmo agora, depois de ter lido o romance, eu assisti a série até o final. O que me conquistou e me convenceu a ler o romance de Bezmen foi justamente não saber muita coisa além das informações ocasionais que eu lia sobre a história.

Não sei se foi uma escolha boa ou ruim, mas a verdade é que eu me apaixonei e me perdi pelos capítulos do romance tendo apenas algumas imagens da série da Netflix em mente, a qual eu assisti apenas até o quinto capítulo. A adaptação tem atores lindíssimos, uma fotografia ainda mais bela e uma trilha sonora que tem embalado muitos momentos nas minhas últimas semanas (playlist abaixo), mas o texto da série foi modificado em relação ao original do livro, para atender, acredito, aos anseios dramáticos e às necessidades de um novo veículo de transmissão, no caso o vídeo. Vendo isso logo nos primeiros capítulos decidi ficar primeiro com a escrita de Nermin Bezmen. Se você ainda não viu a série, sugiro que faça o mesmo.

 

 

Kurt Seyit e Shura conta a história dos personagens que dão nome ao livro, a paixão inesquecível entre Seyit, o lobo, e a jovem Shura, e os desdobramentos dos vários conflitos que causaram a queda do Império Russo e a Primeira Guerra Mundial que influenciaram diretamente a vida de todos, sem exceção. O romance trata a parte histórica com muita propriedade, em muitos casos até com certo didatismo, no entanto de forma agradável e enriquecedora para compreendermos, também, a história particular dos personagens.

Aqui, preciso dizer que não vou me ater ao resumo da história, e sim às impressões que tive sobre os personagens.

“O bebê Seyit chorava tanto que eles decidiram acrescentar Kurt ao nome, cujo significado é lobo. De acordo com a crença secular dos crimeus, os bebês choravam de medo ao ouvir lobos uivando, e era apenas quando eles eram forçados a encarar seus medos que podiam superá-los, daí a necessidade da repetição do nome do animal. Por causa disso, mais algumas preces acompanharam a tradição. Se havia alguma verdade nessa crença ou não, o importante é que o bebê Seyit parou de chorar e, a partir desse dia, ficou conhecido como Kurt Seyit.”

 

Seyit Eminof, ou Kurt Seyit, como nos acostumamos a chamá-lo, é um personagem irresistível. Seu amor por Shura foi uma constante durante todo o livro, apesar de suas falhas e faltas com a amada. Foi treinado desde muito cedo para servir ao Czar Nicolau II e viu sua vida e a vida de todos aqueles que o cercava mudar radicalmente ao passo que a Rússia também se transformava. Em algumas páginas Seyit pode decepcionar por contrariar as nossas expectativas de leitores ávidos por um final feliz. No entanto, acredito que ele foi fiel à sua criação, sobretudo aos ensinamentos do seu pai, ainda que tenham se separado na época da revolução bolchevique. Seyit amou Shura, mas talvez não o suficiente para dar o principal passo na vida de um casal. Amou Murka, mas isso não o impediu de magoá-la logo no início do casamento. Lembrei muito do Capitão Rodrigo Cambará, da saga O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, enquanto lia o romance de Nermin Bezmen: mesmo com suas falhas, não consegui sentir outra coisa se não carinho por Seyit, assim como aconteceu quando li a história do Capitão Rodrigo. Esses dois têm uma magia que enfeitiça não só os seus pares nos respectivos romances, mas também seus leitores. No caso de Seyit Eminof, saber que ele é mais que um personagem literário, que ele existiu realmente e viveu grande parte daquilo que está no livro é ainda mais mágico.

 

Kurt Seyit e Shura, representados na adaptação por Kıvanç Tatlıtuğ e Farah Zeynep Abdullah.

 

Shura, preciso confessar, foi uma agradável surpresa para mim. A menina trêmula e que ficava facilmente ruborizada no início da história, transformou-se ao longo do tempo em uma mulher decidida, corajosa e despudoradamente apaixonada. Criada no seio da aristocracia russa, Shura largou tudo para fugir com Seyit. Achei linda a amizade entre ela e Tatiana, uma bailarina do Bolshoi. Um exemplo de amizade feminina que é difícil ver até em livros passados no nosso presente. Torço para que a Pedrazul publique (sim, está nos planos da editora) o livro da Shura, para que os leitores brasileiros possam se deleitar com essa mulher tão extraordinária, que suportou muita coisa para estar com seu amado, mesmo sabendo que um dia tudo poderia acabar. Refletindo sobre essa loucura de largar tudo para viver um amor (além de salvar a própria vida, pois o momento político exigia que ela também fosse embora para sempre da Rússia) só consegui pensar em uma famosa frase de um filme que eu amo, Lisbela e o Prisioneiro (2003):O amor é um precipício, a gente se joga nele e torce para o chão nunca chegar.” Shura se jogou. Talvez tenha sido sua melhor opção, no fim das contas. Melhor que viver a vida inteira sem saber como teria sido, não é verdade?

 

Kurt Seyit e Shura da vida real. O livro traz essas e outras fotos do álbum de família da autora.

 

Por fim, mas não menos importante, a jovem e inocente Murka: não tenho ideia de como essa personagem foi retratada na série da Netflix, mas no livro, no mínimo, ela desperta compaixão. É difícil explicar sem dar muitos spoilers, mas amei Murka de um jeito diferente do qual amei Shura. Na verdade, Kurt Seyit e Shura foi um dos poucos livros que eu já li até hoje no qual um triangulo amoroso se forma e isso não me traz incômodo algum. Também gostaria de ler mais sobre Murka, as mudanças em sua vida, sua família e sua relação com Seyit.

 

O que eu achei mais positivo na história de Kurt Seyit, Shura, Murka e todos os personagens, da vida real ou não, é que a autora soube contar a história de seu avô de uma forma bela, convincente e muito bem estruturada. Reviver e, em alguns casos, conhecer a história de seus antepassados não deve ter sido fácil, mas ela conseguiu tecer uma trama envolvente que justifica o sucesso que tem feito mundo afora. Vejo opiniões diversas sobre Kurt Seyit & Shura, especialmente sobre o seu final, mas acredito que nenhum leitor possa afirmar veementemente que se sentiu traído com os rumos da história. Nada na relação dos personagens foi abrupto, tudo caminhou conforme a vida e as circunstâncias. Ademais, adorei ler sobre os costumes e a cultura de um povo tão distante e que, até hoje, eu conhecia praticamente apenas pelos livros didáticos de História.

 

A Pedrazul tem acertado na escolha dos livros contemporâneos que, aos poucos, vão recheando seu catálogo. Até agora, foram histórias ora delicadas, ora intensas, como Kurt Seyit & Shura.

 

Abaixo, deixo as minhas citações favoritas do livro:

“O brilho que viu nos olhos de Seyit não era diferente do que havia nos seus próprios. Talvez nunca voltassem a se encontrar, mas ela havia se tornado sua prisioneira, uma prisioneira para toda a vida e tudo por causa de um simples olhar. Shura estremeceu. Alguma coisa lhe dizia que estava perdidamente apaixonada e que essa paixão lhe traria muito sofrimento.”

 

“Eles caminharam de mãos dadas por um tempo, o mais devagar que puderam. Ao passarem pela fonte, Seyit apontou os cupidos e disse: — Sabe, eu gostaria de poder trocar de lugar com eles. Gostaria de ser congelado com você nos meus braços enquanto eu a beijo. Então, você ficaria nos meus braços, me beijando pela eternidade.”

 

“Shura sentia algo novo. Uma impressão de que sua vida seria para sempre marcada pela tristeza, uma impressão forte o suficiente para trazer lágrimas silenciosas aos seus olhos mesmo enquanto faziam amor.”

 

“A guerra significa que, não importa qual a sua causa, os dois lados acreditam que estão certos. Somente a história mostrará quem tem razão.”

 

“Nós sempre pertencemos um ao outro, Shura, e sempre pertenceremos, não importa o que aconteça. Nós estamos no sangue do outro, nas lembranças do outro. Isso nunca vai mudar, não importam as condições.”

 

“Você ainda o ama, não é?  — Amo? Eu não sei… Há muito tempo não me lembro quais os limites do amor. Ele representa tudo e todos que um dia eu amei. Quando olho para Seyit, eu vejo Kislovodsk e pinheiros nevados, ouço os cascos dos cavalos das trikas e os sinos da igreja. Isso é muito mais que amor. É como se eu precisasse dele para respirar, Alain; eu não espero que você compreenda. Ele é a imagem viva da minha terra natal, para onde nunca mais poderei retornar. Mesmo se nunca mais encontrá-lo, só de saber que ele vive e respira na mesma cidade que eu, nos mesmos lugares, já é suficiente para mim, acredite. Ele é a minha Rússia em Istambul.”

 

 

Título: Kurt Seyit & Shura
Autora: Nermin Bezmen
Tradução: Feyza Howel e Maria Aparecida Mello Fontes
Páginas: 360
Editora: Pedrazul

 

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3 Respostas para "[RESENHA] KURT SEYIT & SHURA, DE NERMIN BEZMEN"

Enza - 29 janeiro 2018 às 15:04

Amei a resenha! Só assisti a 3 capítulos da série. Vou ler o livro primeiro como você recomendou =)

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Sarah - 07 agosto 2018 às 16:55

Estou vendo a série … ainda não terminei, porém , estou arrasada por já saber o final, no entanto, tenho que parabenizar pela beleza e competência da produção, como principalmente dos lindos artistas … Série turca fantástica !!! Seyit e Şura … torci muitoooo … entrei de cabeça na história …

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TamiresTamiresagosto 8th, 2018 às 11:49 - respondeu:

Essa é uma história que marca muito a gente, não sei se porque sabemos que foi real ou se pela beleza da produção da série ou, ainda, pela riqueza do romance. Recomendo muito também a leitura porque algumas coisas são diferentes na série. Obrigada pela visita, Sarah!

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