janeiro 13, 2017

[RESENHA] DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM

Milton Hatoum é um escritor brasileiro, nascido em Manaus-AM em 1952, descendente de libaneses e considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Seus livros foram bastante premiados, com destaque para o romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti no ano de 2001 e traduzido para oito idiomas. Este romance foi adaptado em série pela TV Globo, sendo transmitida atualmente.

Dois Irmãos, conta a história dos gêmeos idênticos Yaqub e Omar, este último o Caçula. Os dois possuem personalidades bem diferentes e viverão em conflito por toda a vida, muito em razão da preferência que a mãe, Zana, tem pelo Caçula, nascido quase morto devido a complicações no parto.

A narrativa é feita por Nael, filho da empregada Domingas e de um dos gêmeos, e não é nada linear. O livro foi concebido como uma espécie de relato de memórias do personagem narrador, desta forma, à medida que ele lembra ou narra certos eventos, muitas vezes nos conta o que aconteceu no passado para explicar sua narrativa. Particularmente gostei muito desse estilo de escrita, pois o autor está sempre nos surpreendendo com alguma revelação sobre os personagens. A história começa com a morte de Zana, questionando se os filhos já fizeram as pazes, e o silêncio que antecede sua morte nos mostra que não.

O primeiro capítulo mostra a volta de Yaqub para o Brasil, depois de uma temporada no Líbano. Seu retorno, conclui-se, acontece no ano de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, pela movimentação no porto do Rio de Janeiro, “apinhado de parentes de pracinhas e oficiais que regressavam da Itália”. Posteriormente vemos o episódio que é o estopim para a viagem do gêmeo mais velho, numa tentativa de evitar um conflito maior entre os irmãos: ambos estavam apaixonados pela mesma moça, Livia, e Omar, por ciúme, dá uma garrafada no irmão, cortando-lhe a face e deixando uma cicatriz no local. Em um primeiro momento, Halim, pai dos Gêmeos, tem a ideia de enviar os dois para o Líbano, mas Zana convence-o a enviar apenas Yaqub, pois não conseguiria separar-se de Omar.

 

“Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queria mandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e conseguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Durante anos Omar foi tratado como filho único, único menino.”

 

O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, ‘porque nunca se sabe como vão reagir depois…’ Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação.”

 

Zana tinha três filhos. Além de Yaqub e Omar, havia também Rânia. Mas Omar era o rei absoluto em seu coração. O amor dela por este filho rompia barreiras, beirava o incesto. Mimava-o e sempre o protegia como se ainda fosse aquele bebê acometido por uma pneumonia logo ao nascer. Mesmo ficando separada de Yaqub, não chegou nem perto de tratá-lo com o mesmo carinho que dispensava a Omar.

“O rosto de Zana se iluminou ao ouvir um assobio prolongado – uma senha, o sinal da chegada do outro filho. Era quase meia-noite quando o Caçula entrou na sala. Vestia calça branca de linho e camisa azul, manchada de suor no peito e nas axilas. Omar se dirigiu à mãe, abriu os braços para ela, como se fosse ele o filho ausente, e ela o recebeu com uma efusão que parecia contrariar a homenagem a Yaqub. Ficaram juntos, os braços dela enroscados no pescoço do Caçula, ambos entregues a uma cumplicidade que provocou ciúme em Yaqub e inquietação em Halim.”

 

Ela sempre achava uma maneira de justificar algum ato de Omar, colocando-o como um pobre indefeso, desprovido de capacidade para cuidar de si próprio. Yaqub apenas teve o apoio do pai e da empregada Domingas durante o tempo que viveu em Manaus.

“Não queria morrer vendo os gêmeos se odiarem como dois inimigos. Não era mãe de Caim e Abel. (…) Então que Yaqub refletisse, ele que era instruído, cheio de sabedoria. Ele que tinha realizado grandes feitos na vida. Que a perdoasse por tê-lo deixado viajar sozinho para o Líbano. Ela não deixou Omar ir embora, pensava que longe dela ele morreria.”

 

O centro da história, obviamente, são os conflitos entre os irmãos, mas há muito mais em Dois Irmãos, que também comprovam a qualidade desta história e do autor. Como exemplo, o cenário manauara que foi lindamente bem descrito; também a história de Domingas, a índia que foi adotada para servir como ajudante de Zana, mostrando a realidade de muitos indígenas que foram retirados de suas aldeias, tendo sua liberdade e cultura arrancados de si, escravizados e, no caso das mulheres, violentadas; vemos ainda o saudosismo dos imigrantes libaneses que vieram fazer a vida em uma terra tão distante e diferente como o Brasil; uma rápida menção de como era a vida no norte do país nos tempos da ditadura militar; e a mistura, a sedução e a falta de limites com os quais estamos acostumados nas relações familiares. Tudo isso o leitor verá em Dois Irmãos. É um orgulho ter um autor como Milton Hatoum em terras brasileiras e ainda em atividade. Eu e, acredito, os leitores brasileiros em geral, precisamos conhecer e prestigiar nossos autores, especialmente aqueles que estão vivos e em atividade.

 

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”

 

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