junho 28, 2018

[RESENHA] A ODISSÉIA DE PENÉLOPE, DE MARGARET ATWOOD

Sinopse: “Um pequeno episódio narrado por Homero serve como base para A odisséia de Penélope , segundo volume da Coleção Mitos. Trata-se da passagem em que Odisseu e seu filho Telêmaco enforcam as doze escravas que se deitavam com os pretendentes ao trono de Ítaca. Esses pretendentes, nobres e príncipes, tinham se aproveitado da longa ausência de Odisseu para se instalar no palácio real e promover banquetes e festas diárias em que as escravas prestavam diversos serviços. Pela suposta traição ao reino, as escravas são enforcadas.

O que levou ao enforcamento? Qual era realmente a postura de Penélope? “A versão da Odisséia não se sustenta […]; o enforcamento das escravas sempre me incomodou, e em A odisséia de Penélope esse incômodo atormenta Penélope”, explica Margaret Atwood, que deu às escravas o papel do Coro, chamando a atenção para os questionamentos que surgem de uma leitura atenta da Odisséia .

Em A odisséia de Penélope , Margaret Atwood subverte a narrativa original, centrada em Odisseu e suas peripécias, ao longo dos vinte anos em que esteve ausente de Ítaca. A esposa Penélope, personagem emblemática da fidelidade e da obediência feminina, passa a ocupar o centro da história, e a reconta de seu ponto de vista.

Dona de uma astúcia comparável à de Odisseu, ela se vale de inúmeros expedientes para sobreviver com dignidade enquanto o marido não retorna. Mas seus pensamentos, desejos e paixões nem sempre são os mais apropriados a uma casta rainha. Para recontar o episódio, Margaret Atwood usou várias fontes – já que a Odisséia de Homero não é a única versão da história -, e criou uma obra ao mesmo tempo muito bem-humorada e reflexiva.”

 

Quando Margaret Atwood voltou às rodas literárias com o seu fenômeno O Conto da Aia, que entrou para a lista dos livros mais vendidos quando Donald Trump assumiu a Casa Branca, e também pela adaptação homônima do seu livro em série do streaming Hulu, eu fiquei pensando: acho que já li alguma coisa dessa autora, só não lembro o que é.

Vasculhando aqui e ali (Skoob, obrigada por existir), lembrei que havia lido A odisséia de Penélope: o mito de Penélope e Odisseu, de Margaret Atwood, publicado no Brasil pela Companhia das Letras (2005). Lembrava um pouco do enredo, mas resolvi reler para confirmar (ou não) as três estrelas atribuídas ao livro no meu perfil no Skoob. Do título original, Penelopiad, a expectativa era de que a história fosse uma verdadeira Penelopeia. Mas com a leitura fica claro que não é bem assim.

Obviamente, as aventuras foram legadas a Odisseu, enquanto à Penélope restara apenas esperar e tecer a mortalha do sogro — truque inteligente usado para ludibriar seus pretendentes, uma vez que a mortalha era tecida durante o dia e desfeita a noite, e os pretendentes esperavam que ela terminasse o trabalho para escolher, finalmente, um noivo. Era o destino das mulheres, ficar em casa enquanto a ação era destinada aos homens. No entanto, apesar de não termos um destino tão glamouroso nesta epopeia em particular, isso não quer dizer que as mulheres eram seres de segunda categoria, menos importantes para a narrativa. Afinal, alguém lembra do porquê Odisseu foi obrigado a deixar a esposa e o filho pequeno em Ítaca para lutar a Guerra de Troia? Simplificando bastante, foi por uma mulher.

Essa mulher, Helena, é muito citada em A odisséia de Penélope. Infelizmente, o jeito com o qual a autora tratou o assunto me incomodou um pouco. Isso porque um livro escrito nos tempos atuais sobre uma personagem importante da literatura mundial — inclusive, Penélope conta sua história com esse olhar do presente, pois já está morta há séculos, — acabou reduzido-a a picuinhas e animosidades, uma repetitiva e cansativa inveja. Penélope, aqui, acabou sendo um pouco chata ao ressaltar — várias vezes — que a razão de seus infortúnios atendia pelo nome de Helena, a bela, formosa, a mulher com a qual todos queriam se casar, inclusive seu marido.

 

“Naquele momento minha prima Helena passou, esvoaçante, como o cisne de longo pescoço que pretendia ser. Exagerava o rebolado no andar. Embora o casamento em questão fosse o meu, ela queria ser o foco das atenções. Estava linda como sempre, talvez ainda mais: era intolerantemente bela. Vestia-se com perfeição: Menelau, seu marido, fazia questão disso, era podre de rico e podia se dar ao luxo. Ela voltou o rosto na minha direção e me fitou caprichosa, como se flertasse. Desconfio que ela flertava com o cachorro, com o espelho, com o pente, com o pé da cama. Precisava se exercitar.” (p. 39)

 

Não me entendam mal, não pretendo aqui elencar motivos para não ler esse livro, pelo contrário! Sou apaixonada pela história da Odisséia desde a infância, quando assisti ao filme pela primeira vez no colégio (em VHS!). Hoje percebo melhor que naquela época os acontecimentos até que Odisseu conseguisse retornar à Ítaca, matar os pretendentes sanguessugas de Penélope e também as escravas que, de certa forma, teriam conspirado com eles.

 

 

O motivo do meu incômodo com essa leitura foi, acredito, a quebra de expectativa. Esperei uma narrativa imponente, que fizesse coro a grande personagem que é a Penélope, mas recebi muita lamúria e o lugar comum da animosidade entre mulheres. A autora diz, na edição, que pesquisou e usou material diverso além do texto “original” atribuído a Homero, já que as histórias de tradição oral, como a Odisseia, variam de região para região e também de contador para contador. Talvez a história tivesse mesmo que ser assim, por vezes cansativa. Mas a leitura vale a pena, sem dúvida. O meu conselho é que você leia sem colocar Penélope — ou Atwood — em um patamar alto demais.

 

 

Título: A odisséia de Penélope: o mito de Penélope e Odisseu

Autora: Margaret Atwood

Tradução: Celso Nogueira

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

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