março 28, 2016

[LETRAS] SOBRE EDUCAÇÃO, ESCOLA E CRIATIVIDADE

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Hoje estou inaugurando a categoria Letras (Port./Literaturas) em que pretendo divulgar alguns conteúdos do meu curso de Letras. As postagens serão sobre educação, português, linguística e literatura, tendo como público alvo qualquer pessoa que se interesse por esses assuntos ou pelo curso como um todo. Para começar, segue abaixo uma atividade da disciplina Fundamentos da Educação I, realizada no semestre passado (2015-2), que visou proporcionar uma reflexão sobre o papel da educação na escola.

 

Prezado aluno/estudante.

Através das nossas primeiras aulas, você foi levado a refletir sobre o sentido e o valor da Educação (da Antiguidade até a incorporação de novas tecnologias da informação) e sobre a sua própria formação e prática profissional, enquanto futuro docente. Para esta avaliação, você deverá continuar refletindo sobre sua formação.

Assista ao vídeo da palestra “A escola mata a criatividade”, do educador inglês Sir Ken Robinson, reflita sobre as afirmações e os argumentos apresentados, e responda as perguntas abaixo tendo em mente o conteúdo das Aulas 1 a 3.

 

 

1) Você concorda com a afirmação empregada como título da palestra? Por quê? Desenvolva sua resposta apresentando uma análise e comentários de pelo menos um argumento de Ken Robinson contra os modelos de educação mais comuns atualmente.

Resposta: Sim. Como disse Sir Ken Robinson, o modelo ou hierarquia das disciplinas são iguais em praticamente todos os sistemas educacionais do mundo. É um modelo criado antes do século XIX, na época da industrialização, que priorizava o que seria necessário para exercer alguma profissão ou determinada atividade. Desde então a arte não é valorizada, pois o sistema educacional entende que se o aluno não vai trabalhar com aquilo, então ele não precisa aprender. Podemos, dessa forma, afirmar que sim, “a escola mata a criatividade”. Se os sistemas educacionais ao redor do mundo continuam priorizando ou ensinando apenas o que é necessário para determinados empregos, toda a capacidade criativa dos jovens fica adormecida. Depois de tanto tempo inseridos nesse sistema de ensino, eles só reproduzem o que supostamente aprendem. A escola atual, adotando um modelo ultrapassado, pode matar a criatividade dos seus alunos.   

 

2) Por que a criatividade dos estudantes é tão importante?

Resposta: Por meio da criatividade é que se constroem e se descobrem novas coisas. Sem criatividade temos estudantes repetidores de conteúdo, que aprendem apenas o básico para seguir carreiras já consagradas.

 

3) Há alguma diferença entre Educação e instrução profissional? Justifique a sua resposta.

Resposta: Sim. Segundo Sócrates, o processo educativo não tem um término previsto, ele se prolonga por toda a vida do indivíduo. Já a instrução profissional pressupõe determinado nível de preparação para que um indivíduo exerça determinada atividade. A instrução, desta forma, é um processo que tem início, meio e fim.

 

4) O exercício da docência socrática seria uma alternativa viável para revalorização da criatividade do estudante nas escolas? Por quê? Como realiza-la através das novas tecnologias de ensino?

Resposta: Sim, porque o modelo socrático é participativo. Sócrates utilizava o método dialógico; ele não se colocava como detentor do conhecimento, mas um facilitador. O ensino nesses moldes, através das novas tecnologias de ensino, é possível utilizando-se ferramentas de interatividade viabilizadas principalmente pela internet. É necessário seguir um modelo que se adapte ao aluno onde quer que ele esteja, para que o ensino não fique confinado às salas de aula. Há uma oferta infindável de recursos, muitos deles gratuitos, que podem ser utilizados pelos docentes, tais como sites, blogs, canais do Youtube, fanpages do Facebook etc. Assim, cria-se um ambiente favorável para a revalorização da criatividade dos alunos, pois eles deixam de serem apenas ouvintes e passam a ter função ativa no processo de aquisição da aprendizagem.

 

5) De que maneira você poderia contribuir para o reconhecimento, estímulo e cultivo da criatividade de seus estudantes?

Resposta: Para o reconhecimento, o primeiro passo deve ser a observação. O professor deve conhecer os seus alunos. Conhecendo suas particularidades é possível estimulá-los e cultivar sua criatividade, propondo atividades em que eles pudessem se expressar. No caso dos professores de Português e Literatura, por exemplo, ao invés de insistir no ensino sistemático da gramática, sem apresentar uma aplicação deste conteúdo no dia a dia, o docente pode incentivar a construção de textos, fazer uma leitura compartilhada de notícias, mostrar a função histórica e política da Literatura etc. Não ser mero repetidor de conteúdo incentivando os alunos a decorá-los apenas para passar em provas de vestibular e concursos já é um primeiro passo para guiar os discentes e cultivar sua criatividade.

 

 

A disciplina Fundamentos da Educação I faz parte do curso de Licenciatura em Letras (Português/Literaturas de língua portuguesa) da Universidade Federal Fluminense, modalidade a distância (UFF/Cederj). Saiba mais sobre esse curso aqui!

 

As respostas acima são de minha autoria e refletem o meu posicionamento sobre o conteúdo da disciplina.

 

Sir Ken Robinson fez um segundo vídeo,  Façamos a revolução na aprendizagem. Vale a pena assistir:

março 22, 2016

[RESENHA] AGNES GREY

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Agnes Grey é um romance escrito por Anne Brontë, publicado em 1850, mas que foge das características típicas da época vitoriana. Nesta história, ao ver a precária situação financeira de sua família, nossa protagonista, que dá nome ao livro, procura meios de se sustentar com seu próprio esforço e trabalho.

 

Agnes consegue uma colocação como governanta e percebe o quanto é difícil sair do conforto do seu lar e viver no meio de desconhecidos. Faz isso, entretanto, de forma firme e decidida. Uma mulher com poucos recursos naquela época não podia se dar ao luxo de não trabalhar (como ainda hoje), e uma das poucas ocupações para quem tinha um nível intelectual mais elevado, mas não tinha dinheiro, era a de governanta ou professora.

 

Mulheres como Agnes tinham nesses trabalhos a oportunidade de se manterem financeiramente caso não conseguissem (ou não quisessem) se casar.

“Como seria delicioso ser uma preceptora! Sair para o mundo; entrar numa nova vida; agir independentemente; exercitar faculdades sem uso; testar forças desconhecidas; ganhar meu próprio sustento e alguma coisa para confortar e ajudar o meu pai, minha mãe e irmã, além de desobrigá-los da minha provisão de comida e roupa; mostrar ao meu pai do que a sua pequena Agnes era capaz…” (p. 34) 

 

“O nome preceptora, logo descobri, era uma zombaria quando aplicado a mim: meus pupilos não tinham uma noção maior de obediência que a de um potro selvagem, indomado. Em geral, só a presença do pai, e o medo do temperamento rabugento dele e dos castigos que ele lhes infligia quando estava irritado, os mantinha sobre controle. As meninas também tinham o mesmo medo da raiva da mãe e de vez em quando ela subornava o menino para fazer o que se pedia com promessa de alguma gratificação. Mas eu não tinha gratificação a oferecer; e me foi dado a entender que os pais reservavam para si o privilégio das punições; ainda assim, eles esperavam que eu mantivesse meus pupilos sob controle.” (p. 53 e 54) 

 

“Sabia que nem todos os pais eram iguais ao senhor e à senhora Bloomfield, e tinha certeza de que nem todas as crianças eram iguais aos seus filhos. A próxima família teria de ser diferente, e toda mudança só podia ser para melhor. A adversidade me havia feito amadurecer e a experiência me orientara, e ansiava por resgatar a minha honra perdida aos olhos daqueles cuja opinião para mim valia mais que a de todo mundo.” (p. 85) 

É um livro surpreendente ainda nos dias de hoje, podendo ser considerado um romance feminista fora de época. Agnes Grey é uma jovem mulher que não quis esperar sentada, tricotando ou tomando um chá, por seu futuro. Ela foi à luta, pois sabia que era perfeitamente capaz. Não se sentia, de forma alguma, inferior aos aristocratas que a cercavam. O amor e a felicidade conjugal não eram descartados, mas o seu desejo de independência e de ajudar a sua família eram mais urgentes. 

 

Falei pouco da história em si, pois a leitura de Agnes Grey será muito mais agradável que a dessa resenha! É uma história que fala, dentre outras coisas, de pessoas com sentimentos nobres e desinteressados que conseguem, apesar das adversidades, alcançar a verdadeira felicidade. 
 
A edição da Editora Martin Claret é realmente especial: uma das capas mais bonitas da minha estante! Um ótimo acabamento e páginas com cor e fonte agradáveis para leitura. Sobretudo, o que mais tem me encantado nessas edições especiais da Martin Claret são os prefácios e posfácios, feitos por professores especialistas, que ela tem incluído nas obras. É uma rica fonte de conhecimento sobre os autores, seus livros e a época em que viveram ou sobre as quais escreveram. Realmente faz toda a diferença! Agnes Grey tem o prefácio de Cíntia Schwantes e posfácio de Lilian Cristina Corrêa.  

 

Título: Agnes Grey
Autora: Anne Brontë
Tradução: Paulo Cézar Castanheira
Editora: Martin Claret
Páginas: 288

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Compre o livro pela Amazon: Agnes Grey.

março 18, 2016

[RESENHA] UM CORAÇÃO PARA MILTON

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Um Coração para Milton, escrito por Trudy Brasure e publicado recentemente pela Pedrazul Editora, se propõe a ser uma continuação do clássico de Elizabeth Gaskell, Norte e Sul (1855). Muitas pessoas têm resistência em ler esse tipo de livro, mas existem muitos títulos dignos de nota e Um Coração para Milton é um deles.

 

Voltar a este enredo é, para grande parte dos admiradores de Norte e Sul, relembrar o romance entre John Thornton e Margareth Hale. Mr. Thornton é um dos meus personagens favoritos da literatura clássica inglesa! Desde a primeira leitura do romance de Elizabeth Gaskell, o vejo como um homem a frente de seu tempo: reconhece os próprios sentimentos, é sincero e honesto, não faz joguinhos e não se considera superior às outras pessoas. É de formação humilde, trabalhou muito desde a infância e isso moldou positivamente o seu caráter. Particularmente, me ganhou desde a seguinte fala, em Margareth Hale (Norte e Sul):

“Hei de me colocar aos pés dela, preciso fazê-lo. Se houvesse uma chance em mil, ou em um milhão… eu o faria.” 

(GASKELL, Elizabeth. Margareth Hale (Norte e Sul). Pedrazul Editora, 2015. p. 190) 

 

Margareth passa por muitas situações difíceis em sua vida e termina o livro com a promessa de felicidade junto ao seu amado Mr. Tornton. Sob o pano de fundo da revolução industrial, o romance de Elizabeth Gaskell, muito talvez pela época de sua publicação, nos deixa essa lacuna sobre como seria a vida conjugal desses personagens tão apaixonantes. Agora, mais que só na imaginação, podemos ler essa história de amor em Um Coração para Milton.

 

Com leves alterações no enredo de Gaskell, Trudy Brasure nos conta os detalhes da vida amorosa do casal John Tornton e Margareth Hale, e também de outros personagens importantes de Norte e Sul, como Nicholas Higgins, Mrs. Tornton e Dixon, por exemplo.

 

Em 1929, na Mansão Helstone, Arabella Sheppard, neta mais nova de Sophie Thornton Langford, encontra algumas cartas em uma caixa cuidadosamente guardada por sua avó. Eram as cartas que o bisavô, John Thornton, houvera escrito para a sua amada, Margareth, há muito tempo. Dentre as missivas, um bilhete foi a mensagem fundamental para a felicidade dos dois. A partir daí, a senhora conta para a sua neta uma história de amor eterno…

 

Mr. Hale havia falecido e Margareth estava prestes a se mudar para Londres, onde viveria com sua tia Shaw. Em Marlborough Mills, ao se despedir da família Thornton, John percebe que pode ter havido alguma mudança nos sentimentos de Margareth, que outrora o rejeitara. Ela parecia triste por deixar Milton, disse até que havia aprendido a amar a cidade. Margareth lhe dá um volume da obra de Platão, que era de seu pai, e John, aproveitando a oportunidade, lhe dá A Economia do Algodão, com uma nota sua para a jovem:

“Se houve alguma mudança em seus sentimentos, me dê apenas um sinal. Meu coração permanece eternamente seu.

John Thornton.” (prólogo)

 

Felizmente, Margareth consegue ler o bilhete antes de deixar a cidade e com a ajuda de seu amigo, Mr. Higgins, envia um recado para Thornton: seu coração pertencia a Milton. Mr. Thornton consegue alcançar Margareth e sua tia na estação e um noivado é habilmente firmado entre os dois. Só precisariam esperar algumas semanas até o casamento.

 

A princípio, como era de se esperar, nem Mrs. Shaw nem Mrs. Thornton viram com bons olhos a união dos dois. Mrs. Shaw acreditava que a sobrinha não estava com a cabeça no lugar depois de ter passado por tantas tristezas. Mrs. Thornton não tinha certeza se Margareth seria uma boa companheira para seu filho e no fundo ainda estava ressentida com a negativa da moça quando o Master de Marlborough Mills a pediu em casamento pela primeira vez. O próprio casal tinha dúvidas se o sentimento entre ambos era correspondido da mesma forma. O noivado de três semanas, em que Margareth morou em Londres, pôde tirar parte dessas dúvidas e nos fazer suspirar com tamanho romantismo entre os dois.

“Eu acordo todas as manhãs pensando em você e encontro minha mente peregrinando constantemente atraída para sua imagem. Você acreditará em mim agora se eu disser que te amo? Eu nunca senti tais sentimentos antes – você, somente, tem o poder de afetar-me desta maneira.

Desejo voltar para Milton, para onde eu pertenço, para que nós não precisemos mais ficarmos separados. Até lá, eu espero, ansiosamente, que você me visite em Londres, para que possa cumprir seu desejo, e que eu possa sentir seus fortes braços em torno de mim.

Com todo meu amor e afeição,

Verdadeiramente sua,

Margareth.” (p. 91)

 

Foi lindo ver todo o envolvimento de John e Margareth, um amor verdadeiro e sincero, que construiu uma bela família. O casal conquistou muitas coisas, mas sem nunca deixar de lado as suas convicções. Aqui, o romantismo é o foco, em sua versão mais bela e delicada.

“ – Eu te amo – John conseguiu dizer, sua voz vacilando de emoção. Quão exíguas as palavras pareciam em sua tentativa de expressar tudo que ele sentia por ela. Precisaria de toda uma vida, pensou, para fazê-la entender.” (p. 184)

 

“ – Venha, dance comigo – ele convidou em um tom tranquilizador, situando a mão na parte estreita de suas costas e mantendo a mão erguida para que ela o aceitasse.

O semblante melancólico da jovem se animou um pouco, quando ela ergueu o olhar para encontrar o do marido. Margareth hesitou por um momento, olhando na direção da porta para assegurar que estavam sozinhos.

– Só por um momento – ele gentilmente atraiu e sorriu quando ela, lentamente, colocou uma mão em seu ombro e a outra na mão que a esperava.

Eles se moveram em perfeita harmonia pelo aposento assombreado, o ritmo da música fluindo por entre eles, para criar em seus membros e pés o registro de uma força que ia além de si mesmos – expressando algo espantosamente belo com uma facilidade que lhes era inerente. Cativados pelo jubiloso regozijo de seus movimentos sincronizados, o mundo se tornara um borrão. Eles contemplaram por um momento a sublime razão para estarem vivos – um amor que punha tudo em movimento e transformava sua existência terrestre em uma sinfonia de contentamento.” (p. 243)

 

Apesar de Um Coração para Milton ser mais centrado no casal John e Margareth, foi muito bom também ver a evolução dos outros personagens próximos ao casal, especialmente Mrs. Thornton, que se torna amiga de Margareth, e Mr. Higgins, que firmou em definitivo uma grande amizade com a família Thornton e cresceu profissionalmente.

 

Trudy Brasure fez um ótimo trabalho com essa história! A cada página, lembro-me de pensar realmente, acho que aconteceria isso mesmo entre os dois. Desde o casamento simples em Helstone até as cenas mais sensuais, que não são nada vulgares, é bom ressaltar, em nenhum momento você deixa de acreditar na história. Um romance pós final feliz que consegue surpreender e tem as suas reviravoltas. Já está entre as minhas melhores leituras do ano e penso em reler em breve!

Um Coração para Milton é o tipo de livro que te deixa suspirando por um bom tempo. Se você está precisando de uma leitura que aqueça o seu coração, essa é uma ótima pedida!

 

 

Título: Um Coração para Milton
Autora: Trudy Brasure
Tradução: Tully Ehlers
Editora: Pedrazul
Páginas: 400

 

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