fevereiro 01, 2016

[RESENHA] AS RELAÇÕES PERIGOSAS

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“Com sua feroz sátira da aristocracia, ‘As relações perigosas’ conquistou um sucesso escandaloso em 1782, quando foi publicado. Vinte reedições esgotadas apenas naquele ano e uma condenação à destruição pela corte real de Paris atestam o burburinho em torno do romance, que se consagrou, já no século XIX, como uma das causas desencadeadoras da Revolução Francesa”. (Contracapa)

Como muitas pessoas Brasil afora, conheci o romance epistolar de Choderlos de Laclos através da minissérie da Rede Globo, depois da repercussão da cena em que Cecília é estuprada por Augusto (no livro, Cécile e visconde de Valmont). Fiquei curiosa a respeito do livro e o consegui de presente do maridão! Acabei não assistindo a série completa, embora tenha gostado do pouco que vi.

 

As relações perigosas, adaptada como Ligações perigosas, é uma trama que fala de sedução e poder. Uma parcela da aristocracia francesa que investe todo o seu tempo em manipular e destruir reputações de pessoas consideradas mais fracas. Dentre eles, destacam-se a marquesa de Merteuil e o visconde de Valmont, que não pouparão esforços para conseguir se divertir e provar o seu poder em relação a outros três personagens: a Presidenta de Tourvel e os jovens Danceny e Cécile.

 

O libertino visconde de Valmont ao mesmo tempo em que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, uma mulher casada e devota, seduz a jovem e inexperiente Cécile a pedido de sua amiga e antiga amante, a marquesa de Merteuil. Já a marquesa de Merteuil, que se faz de confidente de Cécile, orienta a jovem a não resistir ao sedutor Valmont, mas sua real intenção é que Cécile se perca antes de um casamento arranjado com um antigo desafeto seu. Neste meio tempo, o cavalheiro Danceny e Cécile, apaixonados, tentam viver um romance, apesar de todos os empecilhos e manipulações. Parece complicado, mas é apenas um retrato da nobreza da frança do ano de 1782.

 

A narrativa é feita em 175 cartas, divididas em quatro partes bem estruturadas. Embora muitos romances epistolares tenham um ritmo arrastado, em As relações perigosas a trama é bastante envolvente e Laclos muitas vezes expõe a mesma situação do ponto de vista de todos ou quase todos os personagens, de forma que apenas o leitor sabe o que realmente está acontecendo.  As maquinações da marquesa de Merteuil e os conteúdos de duplo sentido de Valmont, além das referências literárias de ambos são o que há de melhor na história.

“Preciso possuir essa mulher, para evitar o ridículo de apaixonar-me por ela: pois até onde não nos leva um desejo contrariado? Ó delicioso gozo! Imploro-lhe para a minha felicidade e, sobretudo, para o meu sossego. Que sorte a nossa as mulheres se defenderem tão mal! Ou não passaríamos, junto delas, de tímidos escravos”. (p.45 – Valmont sobre a presidenta de Tourvel)

 

Ainda que os personagens falem muito de amor, acredito que apenas a presidenta de Tourvel possa ter realmente se apaixonado. Embora Valmont tenha demonstrado que poderia estar apaixonado por ela, seus valores não permitiriam que ele mudasse tanto por amor a alguém. Valmont e Merteuil, sobretudo a marquesa, eram pessoas que desprezavam a fraqueza provinda do amor. Para eles, o amor era tal qual uma guerra, qualquer passo em falso poderia fazê-los cair. As Relações Perigosas é uma boa leitura, embora eu não tenha simpatizado com nenhum personagem em especial. Recomendo!

 

 

 

Título: As Relações Perigosas
Autor: Choderlos de Laclos
Tradução: Dorothée de Buchard
Introdução e Notas: Helen Constantine
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 480

 

Compre pela Amazon: As Relações Perigosas

 

 

Leia também:

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Ligações Perigosas ganhou diferentes adaptações para o cinema

 

 

janeiro 27, 2016

[RESENHA] AS SOMBRAS DE LONGBOURN

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As Sombras de Longbourn é um romance escrito por Jo Baker, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, baseado em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. A história usa o clássico como plano de fundo para contar o dia a dia dos criados de Longbourn, casa da família Bennet, assim como suas paixões e desejos.

 

Em Orgulho e Preconceito os criados quase não aparecem. Contudo, mesmo em uma casa com poucos recursos como a dos Bennets, haviam empregados que executavam das tarefas mais simples as mais complicadas para a família; como pentear os cabelos das mulheres e recolher os penicos sujos pela manhã, por exemplo. Era um trabalho árduo e mal remunerado, mas que representava abrigo, proteção e comida para quem era pobre e sem estudo.

 

As Sombras de Longbourn são os criados Sr. Hill, o mordomo; a Sra. Hill, governanta e cozinheira; Sarah e Polly, criadas; e James, o lacaio e ajudante para serviços diversos. Jo Baker soube entrelaçar muito bem as duas histórias. Elas coexistem, mas são quase totalmente independentes. O livro também começa com a chegada da família Bingley, mas depois toma seu próprio rumo. As criticas sociais, feitas tão ironicamente por Jane Austen, aqui se tornam mais pesadas e tangíveis, pois tratam-se de pessoas que só existem para servirem outras; suas necessidades e anseios devem vir depois das dos seus patrões.

 

A criada Sarah é a personagem central da história. Ela é uma jovem órfã, acolhida pela Sra. Hill, que tem uma vida dura de trabalho pesado. É sonhadora e almeja mais do que apenas servir; tem o desejo de ser livre para viver a própria história. Fica inquieta com a chegada de James, um forasteiro que oferece os seus serviços aos Bennets e que ela tem certeza que esconde muitos segredos.

“‘Não sei mesmo o que pensar de você’, disse ela.

‘Por favor, não se dê ao trabalho de tentar’.

Ela girou o corpo e voltou com passos pesados para a cozinha. Ele era uma mistura tão grande e frustrante de solicitude, cortesia e incivilidade que Sarah não conseguia formar uma ideia clara a seu respeito. De uma coisa, porém, tinha certeza: ele estava mentindo. Não era o que fingia ser. Podia ter enganado todo mundo em Longbourn, mas a ela não enganava. Nem por um minuto.” (p. 60)

 

Claro que, com o passar das páginas, vemos que a inquietação de Sarah é algo mais que curiosidade. Eles vivem um romance como poucos que eu já vi. É um amor duro, árduo, assim como a vida deles.

“Como era possível que ela pensasse nele, e só nele, durante horas e dias a fio, que a imagem dele fosse a primeira a passar por sua mente de manhã e a última recordada em minúcias da noite, se ele – isto estava claríssimo para ela – nem tinha a menor consciência da existência dela, nunca?” (p. 96)

 

Os acontecimentos mais importantes de Orgulho e Preconceito são citados em As Sombras de Longbourn, mas de uma forma que você se sente espiando da fresta da porta, assim como os criados. Quando o Sr. Collins esteve em Longbourn pela primeira vez, Sarah pensou em lhe dizer algo que eu também pensei na minha primeira leitura do romance de Austen. Já pensaram que a Mary seria uma esposa perfeita para o Sr. Collins? Talvez pela arrogância dele, ela não tenha lhe vindo à mente como opção, mas acho os dois bem adequados um para o outro.

“Sarah inclinou a cabeça. Gostaria de se mostrar mais encorajadora. Pense em Mary, Sr. Collins. Essa seria a resposta mais útil e gentil a lhe dar. Em questões de interesses e temperamento, bem como de beleza, Mary e o Sr. Collins seriam um casal mais viável, mas se ele não era capaz de ver isso por conta própria, não competia a ela dizê-lo.” (p. 155)

 

O livro é dividido em três partes e uma conclusão. Nas partes um e dois, as histórias são mais próximas. Os acontecimentos mais marcantes de Orgulho e Preconceito, como já dito, estão lá. Já na parte três, a história de Baker toma rumo próprio. Inclusive, um fato interessante sobre este livro, é que quando Elizabeth viaja para Kent, em sua visita a Charlote Collins, Sarah também viaja, como sua criada pessoal. Enquanto uma recusa a um pedido de casamento bastante indelicado, a outra sofre com saudades do seu amor.

“Eu lhe escreveria uma carta, James. Se eu tivesse papel. Se tivesse tinta. Se tivesse um porte franco com que enviá-la. (…) Eu escreveria sobre como você me faz ser inteiramente eu mesma e ser mais real do que jamais imaginei possível. Eu lhe perguntaria se você sente a minha falta como eu sinto a sua, a ponto de no mundo todo não existir outro lugar que signifique alguma coisa para mim a não ser aquele onde você está. Eu diria que os dias que faltam para eu ver você de novo só existem para que eu passe logo por eles, são como uma conserva fria ou a faina de todos os dias, nada de bom se pode esperar deles, mas que enfim eles vão passar e eu estarei a caminho de casa para encontrar você.” (p. 269)

 

As Sombras de Longbourn é um livro intenso. Você percebe que a relação entre patrões e empregados era ao mesmo tempo íntima e distante. Os criados trabalhavam pesado para atender às mordomias de seus patrões, mas ainda assim, conseguiam ter suas vidas, seus amores, seus sonhos. Foi um livro que me surpreendeu bastante. A história é tão verossímil que tive raiva da Elizabeth e do Sr. Darcy em alguns momentos. Mas então respirei e vi que aquela era só mais uma forma de ver a história. A forma de Jo Baker; a visão dos empregados. Então entendi e aceitei a proposta do livro. Recomendo muito, especialmente para os fãs de Downton Abbey.

 

 

Informações sobre a autora: Jo Baker nasceu em Lancaster, Inglaterra. Estudou literatura em Oxford e é ph.D. em Literatura irlandesa pela Universidade Queen’s. Foi redatora na BBC Radio 4 e tem contos publicados em diversas coletâneas na Inglaterra e nos Estados Unidos. As Sombras de Longbourn, seu quinto romance, já foi publicado em diversos países e será adaptado para o cinema. (orelha do livro)

 

 

Título: As Sombras de Longbourn
Autora: Jo Baker
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 450

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas

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janeiro 25, 2016

[ETC.] O DISCURSO FAÇA BOA ARTE

 

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“Vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui. Façam boa arte”.

Em maio de 2012, Neil Gaiman discursou para os formandos da University of the Arts, na Filadélfia, Estados Unidos. Sua fala, de tão inspiradora, ganhou o mundo através da internet.

O Discurso Faça Boa Arte é encontrado facilmente de forma gratuita, entretanto, o livro publicado em 2014 pela Editora Intrínseca pode ser uma boa pedida para que as palavras inspiradoras de Gaiman estejam sempre à mão! São 80 páginas contendo o discurso na íntegra, com arte gráfica idealizada pelo renomado designer Chip Kidd.

 

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Veja o discurso abaixo:

 

Título: Faça Boa Arte
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 80
Avaliação: 5/5 estrelas

 

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