abril 07, 2016

[RESENHA] PROFISSÕES PARA MULHERES E OUTROS ARTIGOS FEMINISTAS

theme2-virginiawoolf

Fonte: englishbookgeorgia.com

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas foi o primeiro livro de Virginia Woolf que li; definitivamente amor à primeira página! São sete ensaios de leitura super-rápida que podem mudar a visão que muitas pessoas têm do feminismo. Em tempos de opiniões calorosas (mas com pouca ou nenhuma fundamentação teórica) em redes sociais, nada como ler algo escrito por alguém que foi e ainda é referência para o movimento.

 

Profissões para mulheres é o primeiro ensaio, seguido de A nota feminina na literatura; Mulheres romancistas; A posição intelectual das mulheres; Duas mulheres; Memórias de uma União das Trabalhadoras e Ellen Terry. Todos têm o seu valor, contudo, abaixo, elenco os meus dois favoritos e os quais retorno ocasionalmente quando preciso me lembrar do porquê ler bons artigos e livros com temática feminista ainda é tão importante e relevante na sociedade atual.

 

O ensaio que abre este livro foi lido pela Sra. Woolf para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres em 21 de janeiro de 1931. Supostamente seria uma realidade distante da nossa, pois trata-se de um texto de oitenta e quatro anos! Ledo engano. Este ensaio poderia ser lido em um auditório lotado de mulheres hoje mesmo e facilmente muitas delas se reconheceriam nele. A autora fala de um fantasma que muitas vezes precisamos enfrentar, o “Anjo do Lar”. Tal “Anjo” é uma alusão a um poema de Coventry Patmore que celebrava o amor conjugal e idealizava o papel doméstico das mulheres. Percebe que ele ainda está entre nós?

 

“Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez? (…) Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto – nada impede que uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública –, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver as dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente.” (trecho de Profissões para mulheres, ps. 17 e 18)

 

 

Em outro ensaio de destaque nesta coletânea, A posição intelectual das mulheres, Virginia Woolf contrapõe as opiniões negativas que o romancista Arnold Bennett publicou em uma coletânea de ensaios, sob o título Nossas mulheres: capítulos sobre a discordância entre os sexos. Bennet acreditava que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens; proposição que levou a autora a pensar mais sobre o assunto, resultando no livro Um Teto Todo Seu. Em outubro de 1920, Desmond MacCarthy publicou uma resenha favorável do livro de Bennett, sob o pseudônimo de Falcão Afável. Virginia Woolf fez um comentário sobre a resenha e ele foi publicado; seguido de uma réplica e uma tréplica de Falcão Afável. É um “diálogo” maravilhoso, em que temos vontade de bater palmas para a Sra. Woolf no final.

 

“O fato, como penso que havemos de concordar, é que as mulheres, desde os primeiros tempos até o presente, têm dado à luz toda a população do universo. Essa atividade toma muito tempo e energia. Tal fato também levou a se sujeitarem aos homens e, diga-se de passagem – se fosse essa a questão –, desenvolveu nelas algumas das qualidades mais admiráveis e apreciáveis da espécie. Discordo de Falcão Afável não porque ele negue a atual igualdade intelectual entre homens e mulheres. E sim porque afirma, com Mr. Bennett, que o espírito da mulher não é sensivelmente afetado pela educação e pela liberdade; que é incapaz das mais altas realizações, e que deve permanecer para sempre na condição em que se encontra agora. Devo repetir que o fato de terem as mulheres se aprimorado (que Falcão Afável agora parece admitir) mostra que elas podem se aprimorar ainda mais; pois não consigo entender por que haveria de se impor um limite a seu aprimoramento no século XIX, e não, por exemplo, no século CXIX. Mas o que é necessário não é apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (pois não concordo com Falcão Afável que homens e mulheres sejam iguais); que todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência. Essas condições, a meu ver muito importantes, são dificultadas por declarações como as de Falcão Afável e Mr. Bennett, pois para um homem ainda é muito mais fácil do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade. Pois a degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor.” (trecho de A posição intelectual das mulheres, ps. 50 e 51) 

 

Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas é aquele livro que nos abre os olhos; uma leitura para ser feita ocasionalmente, como toda a obra de Virgínia Woolf. Com esse livro me descobri uma amante da leitura de ensaios, tendo os da Sra. Woolf um espaço especial na minha cabeceira.

 

 

 

Título: Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Denise Bottmann
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 112

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

abril 02, 2016

[RESENHA] O GRANDE GATSBY

IMG_20160402_154236

 

“Em meus anos mais vulneráveis de juventude, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que tiver vontade de criticar alguém – ele disse -, lembre-se de que ninguém teve as oportunidades que você teve.” (p. 65)

 

O Grande Gatsby, romance escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado originalmente em 1925, é um livro incrível! Uma leitura que você começa sem dar tanta atenção mas que poucas páginas depois já não consegue parar de ler.

 

Nosso narrador é Nick Carraway, observador atento de uma sociedade materialista e fútil do pós Primeira Guerra, em que a proibição das bebidas alcoólicas enriqueciam os contrabandistas e muitos viviam o “sonho americano”. Seu vizinho, Jay Gatsby, é um milionário excêntrico que promove, constantemente, grandes festas em sua mansão. Ninguém sabe sobre as origens da fortuna de Gatsby ou sobre ele próprio, mas todos adoram suas festas. Ficamos sabendo, um tempo depois, que a prima de Nick, Daisy Buchanan, teve um envolvimento amoroso com o milionário quando este não podia ostentar tantos luxos, e que ele nunca a esqueceu.

 

Gatsby é um personagem apaixonante, meu velho! (quem já leu, vai entender a expressão). Você se envolve em seu mundo de ilusão, com as suas camisas nunca usadas e seus livros nunca lidos. Sua vida é um castelo de areia e seu objetivo é chamar a atenção de sua amada com coisas que ele imagina que ela considera importante. Mesmo desconfiando que o resultado pode não ser dos melhores, você torce por Gatsby, pois ele simplesmente merece a nossa torcida.

 

Em uma sociedade deslumbrada com o luxo e sem um pingo de moral, uma pessoa como Gatsby está fadada a solidão. Felizmente, ele encontra em Nick Carraway não só um cúmplice para se encontrar com a sua amada Daisy, mas um amigo verdadeiro, pois embora estivesse inserido de certa maneira naquela sociedade, Nick a desprezava.

 

A história é bem curtinha e de leitura rápida, mas deixa reflexões valiosas para nós, leitoresexpectativas muito altas podem ter consequências trágicas, portanto, é sempre bom ter limites ao colocá-las em outra pessoa.

 

O Grande Gatsby não foi muito popular na época de sua publicação, em 1925. Hoje, é considerado um clássico indispensável da literatura norte-americana.

 

 

Sobre a edição da Penguin Companhia

Particularmente, gosto muito das edições da Penguin Companhia, embora os livros não tenham orelha… Em O Grande Gatsby, temos uma longa introdução feita por Tony Tanner, um crítico literário inglês falecido em 1998, cujo trabalho inspirou a Universidade de Cambridge a incluir em sua matriz curricular os primeiros cursos sobre literatura americana. O texto, apesar de muito bom, é recheado de spoilers, inclusive de outros livros. Portanto, o ideal é partir para a história de Fitzgerald, a partir da página 60, e ler a introdução posteriormente.

 

 

Título: O Grande Gatsby
Autora: F. Scott Fitzgerald
Tradução: Vanessa Barbara
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 256

 

 

Para assistir: O Grande Gatsby, filme (2013)

C_116_fotogallery_1113_lstFoto_foto_15_upiFoto

 

O filme O Grande Gatsby (2013) é uma ótima pedida! Bastante fiel ao livro, tem no elenco Leonardo DiCaprio, no papel de Jay Gatsby; Tobey Maguire, como Nick Carraway; Carey Mulligan, como Daisy Buchanan, dentre outros. Existem várias adaptações do romance de Fitzgerald, mas esta é a mais recente. Apesar de retratar a sociedade dos anos 1920, a adaptação tem um toque moderno que nos prova o quanto o romance é atemporal. A trilha sonora foi feita por Jay-Z e The Bullitts e elogiada, inclusive, pela neta de Fitzgerald. A produção levou os Oscars de Melhor Direção de Arte e Melhor figurino em 2014.

 

Saiba mais sobre o filme aqui!

março 28, 2016

[LETRAS] SOBRE EDUCAÇÃO, ESCOLA E CRIATIVIDADE

school-knowledge-concept_23-2147503320

 

Hoje estou inaugurando a categoria Letras (Port./Literaturas) em que pretendo divulgar alguns conteúdos do meu curso de Letras. As postagens serão sobre educação, português, linguística e literatura, tendo como público alvo qualquer pessoa que se interesse por esses assuntos ou pelo curso como um todo. Para começar, segue abaixo uma atividade da disciplina Fundamentos da Educação I, realizada no semestre passado (2015-2), que visou proporcionar uma reflexão sobre o papel da educação na escola.

 

Prezado aluno/estudante.

Através das nossas primeiras aulas, você foi levado a refletir sobre o sentido e o valor da Educação (da Antiguidade até a incorporação de novas tecnologias da informação) e sobre a sua própria formação e prática profissional, enquanto futuro docente. Para esta avaliação, você deverá continuar refletindo sobre sua formação.

Assista ao vídeo da palestra “A escola mata a criatividade”, do educador inglês Sir Ken Robinson, reflita sobre as afirmações e os argumentos apresentados, e responda as perguntas abaixo tendo em mente o conteúdo das Aulas 1 a 3.

 

 

1) Você concorda com a afirmação empregada como título da palestra? Por quê? Desenvolva sua resposta apresentando uma análise e comentários de pelo menos um argumento de Ken Robinson contra os modelos de educação mais comuns atualmente.

Resposta: Sim. Como disse Sir Ken Robinson, o modelo ou hierarquia das disciplinas são iguais em praticamente todos os sistemas educacionais do mundo. É um modelo criado antes do século XIX, na época da industrialização, que priorizava o que seria necessário para exercer alguma profissão ou determinada atividade. Desde então a arte não é valorizada, pois o sistema educacional entende que se o aluno não vai trabalhar com aquilo, então ele não precisa aprender. Podemos, dessa forma, afirmar que sim, “a escola mata a criatividade”. Se os sistemas educacionais ao redor do mundo continuam priorizando ou ensinando apenas o que é necessário para determinados empregos, toda a capacidade criativa dos jovens fica adormecida. Depois de tanto tempo inseridos nesse sistema de ensino, eles só reproduzem o que supostamente aprendem. A escola atual, adotando um modelo ultrapassado, pode matar a criatividade dos seus alunos.   

 

2) Por que a criatividade dos estudantes é tão importante?

Resposta: Por meio da criatividade é que se constroem e se descobrem novas coisas. Sem criatividade temos estudantes repetidores de conteúdo, que aprendem apenas o básico para seguir carreiras já consagradas.

 

3) Há alguma diferença entre Educação e instrução profissional? Justifique a sua resposta.

Resposta: Sim. Segundo Sócrates, o processo educativo não tem um término previsto, ele se prolonga por toda a vida do indivíduo. Já a instrução profissional pressupõe determinado nível de preparação para que um indivíduo exerça determinada atividade. A instrução, desta forma, é um processo que tem início, meio e fim.

 

4) O exercício da docência socrática seria uma alternativa viável para revalorização da criatividade do estudante nas escolas? Por quê? Como realiza-la através das novas tecnologias de ensino?

Resposta: Sim, porque o modelo socrático é participativo. Sócrates utilizava o método dialógico; ele não se colocava como detentor do conhecimento, mas um facilitador. O ensino nesses moldes, através das novas tecnologias de ensino, é possível utilizando-se ferramentas de interatividade viabilizadas principalmente pela internet. É necessário seguir um modelo que se adapte ao aluno onde quer que ele esteja, para que o ensino não fique confinado às salas de aula. Há uma oferta infindável de recursos, muitos deles gratuitos, que podem ser utilizados pelos docentes, tais como sites, blogs, canais do Youtube, fanpages do Facebook etc. Assim, cria-se um ambiente favorável para a revalorização da criatividade dos alunos, pois eles deixam de serem apenas ouvintes e passam a ter função ativa no processo de aquisição da aprendizagem.

 

5) De que maneira você poderia contribuir para o reconhecimento, estímulo e cultivo da criatividade de seus estudantes?

Resposta: Para o reconhecimento, o primeiro passo deve ser a observação. O professor deve conhecer os seus alunos. Conhecendo suas particularidades é possível estimulá-los e cultivar sua criatividade, propondo atividades em que eles pudessem se expressar. No caso dos professores de Português e Literatura, por exemplo, ao invés de insistir no ensino sistemático da gramática, sem apresentar uma aplicação deste conteúdo no dia a dia, o docente pode incentivar a construção de textos, fazer uma leitura compartilhada de notícias, mostrar a função histórica e política da Literatura etc. Não ser mero repetidor de conteúdo incentivando os alunos a decorá-los apenas para passar em provas de vestibular e concursos já é um primeiro passo para guiar os discentes e cultivar sua criatividade.

 

 

A disciplina Fundamentos da Educação I faz parte do curso de Licenciatura em Letras (Português/Literaturas de língua portuguesa) da Universidade Federal Fluminense, modalidade a distância (UFF/Cederj). Saiba mais sobre esse curso aqui!

 

As respostas acima são de minha autoria e refletem o meu posicionamento sobre o conteúdo da disciplina.

 

Sir Ken Robinson fez um segundo vídeo,  Façamos a revolução na aprendizagem. Vale a pena assistir:

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2018 • powered by WordPressDesenvolvido por