novembro 18, 2016

[RESENHA] O QUINZE, DE RACHEL DE QUEIROZ

 

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Em O Quinze, Rachel de Queiroz narra o drama da seca no Ceará, especificamente a seca de 1915. Foi o primeiro romance da autora, publicado originalmente em 1930, quando ela ainda não havia completado 20 anos.

A história mostra diferentes pontos de vista sobre a seca, pois cada personagem tem o seu drama particular, embora haja certa conexão entre eles. Sendo um livro pequeno, minha edição tem 160 páginas, não vou me alongar sobre as características de todos os personagens, evitando, assim, que esta resenha seja um grande spoiler. Falarei daqueles que mais me marcaram e de determinados pontos de suas histórias.

 

Chico Bento e sua família

O núcleo mais marcante do romance, certamente, é o de Chico Bento e sua família. Eles representam o povo que passou fome nas secas do nordeste. Perderam tudo, pois não havia criação ou plantação que sobrevivesse a falta de chuva. Como muitos, Chico Bento só podia arribar; sair em busca de qualquer coisa em outro lugar. Inicialmente, pensou em ir para a Amazônia, por fim, acabou indo para São Paulo. Sua Jornada inclui fome, morte e desespero. Imagine sair em busca de não se sabe o quê em cima apenas dos próprios pés! Caminhou com rumo incerto, como tantos antes e depois dele fizeram. Viveu com a família em um Campo de Concentração, comendo a ração dada pelo governo, até finalmente conseguir ir em busca do seu destino. É um retrato perfeito do pobre sertanejo feito por Rachel de Queiroz; praticamente uma transcrição da realidade para as páginas do livro.

 

Ilustração de Shiko para a obra de Rachel de Queiroz (Divulgação)

Ilustração de Shiko para a obra de Rachel de Queiroz (Divulgação)

 

 

“Caindo quase de joelhos, com os olhos vermelhos cheios de lágrimas que lhe corriam pela face áspera, suplicou de mãos juntas:

 – Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de carne, um taquinho ao menos, que dê um caldo para a mulher mais os meninos! Foi para eles que eu matei! Já caíram com a fome!…

(…)

E o homem disse afinal, num gesto brusco, arrancando as tripas da criação e atirando-as para o vaqueiro:

– Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como você fez, dar-se tripas é até demais!…

A faca brilhava no chão, ainda ensanguentada, e atraiu os olhos de Chico Bento.

Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa; mas foi ímpeto confuso e rápido. Ao gesto de estender a mão, faltou-lhe o ânimo.

O homem, sem se importar com o sangue, pusera no ombro o animal sumariamente envolvido no couro e marchava para casa, cujo telhado vermelhava, lá além.” (p. 72 e 73)

 

A professora Conceição

Conceição foi outra personagem que me marcou. Embora não tenha passado pelas situações extremas que Chico Bento e sua família passaram, ela era uma mulher a frente de seu tempo e não deixou de ter seus sofrimentos, ainda que vivendo uma vida mais confortável. Professora, solteira, amante dos livros e apaixonada pelo primo Vicente, nunca conseguiu dar o próximo passo em direção ao altar, como o esperado por todos. Seu medo de não ser capaz de lidar com as diferenças que existiam entre ela e o primo, para mim, foi uma atitude corajosa. Inserida em uma sociedade patriarcal em que o papel da mulher era ser esposa, Conceição escolheu ser ela mesma, temendo não poder exercer os dois papéis.

 

 

“Dona Inácia tomou o volume das mãos da neta e olhou o título:

– E esses livros prestam para moça ler, Conceição? No meu tempo, moça só lia romance que o padre mandava…

Conceição riu de novo:

 – Isso não é romance, Mãe Nácia. Você não está vendo? É um livro sério, de estudo…

 – De que trata? Você sabe que eu não entendo francês…

Conceição, ante aquela ouvinte inesperada, tentou fazer uma síntese do tema da obra, procurando ingenuamente encaminhar a avó para suas tais ideias:

 – Trata da questão feminina, da situação da mulher na sociedade, dos direitos materiais, do problema…

 – E minha filha, para que uma moça precisa saber disso? Você quererá ser doutora, dar para escrever livros?

Novamente o riso da moça soou:

 – Qual quê, Mãe Nácia! Leio para aprender, para me documentar…

 – E só para isso, você vive queimando os olhos emagrecendo, lendo essas tolices…

 – Mãe Nácia, quando a gente renuncia a certas obrigações, casa, filhos, família, tem que arranjar outras coisas com que se preocupe… Senão a vida fica vazia demais…

 – E para que você torceu sua natureza? Por que não casa?

Conceição olhou a avó de revés, maliciosa:

 – Nunca achei quem valesse a pena…” (p.130 e 131)

 

Eu já havia lido sobre as inúmeras secas no nordeste, mas a leitura desse livro contribuiu para que eu me aproximasse um pouco mais do sofrimento daquele povo. Vi que os campos de concentração realmente existiram; eram conhecidos como currais do governo e neles morriam cerca de 150 pessoas diariamente. Rachel de Queiroz inspirou-se no campo da cidade de Alagadiço, no Ceará, onde cerca de oito mil pessoas recebiam um auxílio do governo e eram vigiadas por soldados. A família de Chico Bento, como disse anteriormente, representou os milhares de brasileiros que iam perdendo os seus filhos para a miséria. As verbas do governo destinadas às regiões assoladas pela seca eram sistematicamente desviadas para suprir necessidades dos mais abastados, o que ficou conhecido como indústria da seca.

Ler O Quinze é importante para conhecermos a nossa história, a história do nosso país. Rachel de Queiroz conseguiu, em poucas páginas, eternizar a história de um povo que passou muito tempo esquecido pelo poder público e pelos próprios brasileiros. Leitura indispensável!

 

 

Título: O Quinze
Autora: Rachel de Queiroz
Editora: José Olympio
Páginas: 160

 

Compre na Amazon: O Quinze

 

Referências e leituras complementares:

Brasil Escola: secas no nordeste.

G1: cem anos da seca de 1915.

novembro 11, 2016

[RESENHA] O DIÁRIO DE MR. DARCY

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O Diário de Mr. Darcy foi escrito por Amanda Grange e publicado no Brasil pela Pedrazul Editora. Neste romance, somos transportados de volta ao mundo de Orgulho e Preconceito, e conhecemos um pouco mais de um dos heróis mais amados da literatura mundial, Mr. Darcy.

Quando eu soube que O Diário ia ser publicado no Brasil, minha primeira reação foi a de não querer ler de forma alguma. Muito desta antipatia inicial foi motivada por uma antiga e inacabada leitura do livro Cinquenta tons do Sr. Darcy. Não estou comparando, nem poderia, mas disse a mim mesma que nunca mais leria nenhuma história paralela, inspirada, ou que tivesse qualquer relação com o meu querido Orgulho e Preconceito. Com a proximidade da pré-venda, li muitos comentários elogiando o livro e me interessei. Li  As Sombras de Longbourn e adorei. Conheci outras boas adaptações do clássico e fiquei encantada… Meu preconceito, então, foi superado e comprei o livro. Não me arrependi e a leitura superou todas as minhas expectativas! O Diário de Mr. Darcy é ótimo e quem ama Orgulho e Preconceito pode e deve ler, sem medo de ser feliz!

Uma ressalva que faço é que quem não leu o livro de Jane Austen, leia-o antes do Diário. Aqui, temos a visão do Mr. Darcy sobre a história, assim como seus sentimentos e desejos. Justamente por ter sido escrito em forma de diário, o livro retoma muitas situações e diálogos de Orgulho e Preconceito, mas também exclui bastante coisa. Afinal, só escrevemos em nosso diário aquilo que mais nos interessa, o que é mais marcante em nossas vidas, não é verdade?

O primeiro relato de Mr. Darcy em seu diário é sobre o que aconteceu entre Wickham e Georgiana. Foi bem interessante ler algumas partes que não foram contempladas no livro de Austen, como detalhes do casamento entre Wickham e Lydia, por exemplo. Não tem como não rir das observações de Mr. Darcy quando este conhece a sociedade de Hertfordshire. Do ponto de vista dele, realmente, muitas pessoas, creio eu, agiriam da forma como ele agiu. De repente, com um pouco menos de antipatia, mas isso depende da personalidade de cada um.

Quando conhece Elizabeth, nosso herói passa a escrever mais e com mais vontade em seu diário. A personalidade dela o encanta, mas, como sabemos, muita coisa acontecerá até que o orgulho e o preconceito sejam superados. Mesmo sabendo da história, fiquei na expectativa dos acontecimentos; o que me fez ler o livro em tempo recorde! Mesmo equivocado em algumas situações, é impossível não se apaixonar por Mr. Darcy novamente com a leitura deste livro.

 

A única coisa que não sai da minha cabeça enquanto escrevo é o olhar que vi nos olhos de Miss Elizabeth Bennet quando eu disse que ela não era bonita o suficiente para me despertar o desejo de dançar. Se não fosse experiente, eu o teria achado irônico. Sinto-me um pouco desconfortável por ela ter me ouvido, não tive a intenção de que as minhas palavras chegassem aos seus ouvidos. Mas seria tolo em me preocupar com os sentimentos dela, seu temperamento não é delicado, e se puxar à sua mãe, não se sentirá magoada.” (p. 28)

 

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Muitas mulheres daquela época, especialmente no círculo social ao qual Mr. Darcy pertencia, eram caçadoras de fortuna e prestígio. Eram muito prendadas em bordado, pintura, mas não tinham personalidade. Eram ensinadas a viver de acordo com o que fosse adequado para um marido, qualquer que fosse. Mr. Darcy fica, de certa forma, surpreso com o jeito de Elizabeth. Ela era uma mulher inteligente, de espírito livre e, mesmo negando-se a admitir, ele sente-se atraído por sua mente, além dos seus belos olhos, é claro.

 

Conversar com Elizabeth é diferente de conversar com qualquer outra pessoa. Não é uma atividade comum. Pelo contrário, é um exercício estimulante para a mente.” (p. 42)

“Ela é diferente de qualquer mulher que eu tenha conhecido. Ela não é bonita, mas ainda assim acho que preferiria olhar para o rosto dela a olhar para qualquer outro. Ela não é graciosa, mas ainda assim seus modos me agradam mais do que qualquer outro que eu tenha conhecido. Ela não é culta, mas ainda assim ela tem uma inteligência  que faz dela uma oradora vigorosa, e que deixa suas conversas estimulantes. Havia muito tempo que eu não esgrimia com as palavras, na verdade, não estou certo se havia feito isso alguma vez antes… E ainda assim com ela estou frequentemente engajado em um duelo de sagacidade.”

“Seria ela uma esfinge enviada para me torturar? Deve ser, pois os meus pensamentos não costumam ser tão poéticos.” (p. 46)

 

Prepare-se para odiar (ainda mais) Caroline Bingley e também para uma cena inusitada em Pemberley (imagine Mrs. Bennet e Lady Catherine de Bourgh juntas)! Sobretudo, prepare-se para um Mr. Darcy como você nunca viu.

 

Chegamos ao topo da colina.

‘Bom, e o que você acha da vista?’, Elizabeth perguntou para mim.

Eu me virei para olhar para ela.

‘Gosto bastante’, eu disse.

Ela estava tão bonita que eu me rendi ao desejo de beijá-la. Ela ficou surpresa a princípio, mas então correspondeu carinhosamente, e eu soube que o nosso casamento seria feliz em todos os aspectos.” (p. 187)

 

Agora a vontade de ler todos os outros Diários que a Amanda Grange publicou é enorme! Quem sabe o sucesso desta primeira publicação em português motive a Pedrazul Editora a trazer também os outros livros da autora inspirados nos heróis dos romances de Jane Austen? Vamos ficar na torcida!

 

 

 

Título: O Diário de Mr. Darcy
Autora: Amanda Grange
Tradução: Andrea Carvalho
Editora: Pedrazul
Páginas: 220

 

 

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novembro 11, 2016

[RESENHA] A LOUCA DA CASA, DE ROSA MONTERO

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A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Montero, foi o livro que a TAG – Experiências Literárias enviou aos seus associados em outubro, por indicação da também escritora, Carola Saavedra. É o tipo de livro que, superficialmente, não nos diz nada sobre o seu assunto. O leitor olha para a capa, título, informações da orelha e contracapa e, ainda assim, fica meio perdido. Com a curiosidade aguçada, priorizei a leitura e o resultado foi surpreendentemente encantador.

 

(Aqui faço um parêntese para informar que não sou o tipo de associada que, a partir das dicas que a TAG dá na revista e nas redes sociais, fica vasculhando a internet para descobrir o livro do mês seguinte. Gosto da surpresa.)

 

 

Rosa Montero é uma das maiores escritoras espanholas da atualidade. Nascida em Madri, trabalhou por anos como jornalista, recebendo os prêmios Manuel Del Arco de Entrevistas, o Prêmio Nacional de Periodismo e o Prêmio de La Asociación de La Prensa de Madri durante sua vida profissional. Hoje, é colunista exclusiva do El País.

Como escritora, publicou 14 livros, entre eles 12 romances, que foram traduzidos para mais de vinte línguas, como os premiados Te tratarei como uma rainha, Lágrimas na chuva, Instruções para salvar o mundo, Histórias de mulheres, A história do rei transparente e Paixões.” (orelha do livro)

 

A Louca da Casa é uma mistura de ensaio e autobiografia romanceada. Nele, Montero fala sobre a arte e o ofício da escrita, apresentando fatos de sua vida e também de escritores famosos, como Goethe, Tolstoi, Calvino, George Eliot, dentre outros. Sobre os outros escritores, a autora garante que foi fiel aos registros escritos de suas biografias, mas em relação a ela a coisa muda de figura: algumas histórias apresentam mais de uma versão, todas igualmente interessantes e plausíveis. Alguns fatos podem ser verdade, ou não.

 

 

Tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda autobiografia é ficcional, e toda ficção, autobiográfica, como dizia Barthes.” (post scriptum)

 

O livro, cujo título a autora escolheu devido a uma referência que Santa Teresa de Jesus costumava fazer com a imaginação, é uma leitura para aqueles que gostam de livros, de saber sobre os autores, mas, acima de tudo, é uma livro para quem ama escrever.

 

 

(…) nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas.” (p. 8)

“Falar de literatura, então, é falar da vida; da própria vida e da vida dos outros, da felicidade e da dor. É também falar do amor, porque a paixão é o maior invento das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, a pessoa adormecida que sonha que está sonhando.” (p. 11)

“A realidade não passa de uma tradução redutora da enormidade do mundo, e o louco é aquele que não se adapta a essa linguagem.” (p. 122)

 

Dois, dos dezenove capítulos deste livro foram os meus favoritos. O treze, que fala sobre as mulheres, e o dezesseis, que fala sobre as mulheres dos escritores. Nunca tinha parado para pensar que existe a figura da esposa do escritor, a protetora, revisora, guardiã do criador de histórias, mas, por outro lado, quase nada é comentado e divulgado sobre os maridos das escritoras. Não no mesmo sentido. A autora fala sobre Sonia Tolstoi, que eu já sabia ser quem transcrevia e revisava os romances do marido, mas, no entanto, não imaginava os dissabores de sua vida junto a Liev. As observações de Rosa Montero nos dois capítulos lembraram-me bastante do livro Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf, que eu recomendo muitíssimo a leitura.

 

 

“Considero-me feminista, ou, para dizer melhor, anti-sexista, porque a palavra feminista tem um conteúdo semântico equívoco: parece contrapor-se ao machismo e sugerir, portanto, uma supremacia da mulher sobre o homem, quando o grosso das correntes feministas não somente não aspiram a isso, mas reivindicam exatamente o contrário: que ninguém se subordine a ninguém por causa de seu sexo, que o fato de termos nascido homens ou mulheres não nos encerre num estereótipo. Mas minha preferência pelo termo anti-sexista não significa que eu renegue a palavra feminista, que pode ser pouco precisa, mas é cheia de história e resume séculos e séculos de esforços de milhares de homens e mulheres que lutaram para mudar uma situação social aberrante. Hoje somos todos herdeiros dessa palavra: ela fez o mundo se mexer e eu continuo a empregá-la com orgulho.” (p. 109)

 

A Louca da Casa é uma leitura rápida, fácil e bastante agradável. Este seria mais um título que eu não compraria se visse em uma livraria, mas que agora também recomendo a leitura.

 

 

Título: A Louca da Casa
Autora: Rosa Montero
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: Harper Collins
Páginas: 176

 

 

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