dezembro 02, 2016

[RESENHA] LOBO DE RUA, DE JANA P. BIANCHI

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Sinopse: “Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos os outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.

Basta pagar o preço.

 

Lobo de Rua, da autora Jana P. Bianchi, é o mais novo lançamento da Editora Dame Blanche, disponível para compra em e-book na Amazon e em outras plataformas online. Aqui, conhecemos o jovem Raul, um menino de rua que transforma-se em lobisomem e não sabe lidar com mais esse problema em sua vida. Surge, então, Tito, um imigrante italiano, lobisomem experiente, que se dispõe a ajudar o garoto em sua nova realidade.

Jana P. Bianchi ambienta sua história de lobisomem em São Paulo, e isso é maravilhoso! A autora mostra que sim, é possível escrever fantasia de qualidade sem usar como cenário a Europa ou algum lugar fictício que claramente situa-se no velho mundo. Lobo de Rua é uma história envolvente, portanto, de leitura rápida, que consegue nos deixar próximos não só do sofrimento de Raul, mas também de sua realidade, como um menino desabrigado e a margem da sociedade brasileira.

 

 

“ – Vixe – lamentou Raul, seu instinto alarmado e preocupado pelo simples conceito de antagonistas à sua nova raça. – Espero mesmo não ter atraído um caçador. Não sabia de nada disso.

 – Ah , não, garoto, acho que cheguei a tempo desta vez. Quando senti você no mês passado, tratei de monitorar a Folha, o Estadão, a Globo.com. Não saiu nada muito óbvio, fica tranquilo, você foi até que bem discreto. E, de todo o modo, não temos mais nenhum grande caçador residente em terras brasileiras. O último, Onofre Fagundes, morreu no início da década de oitenta, em uma expedição de caça na Floresta Amazônica, mordido por uma das mais malditas criaturas dos infernos.

– Por um lobisomem? – Perguntou Raul.

 – Não…

 – Vampiro, então?

 – Não, pô. Por um mosquito – disse Tito, dando uma risada amarga e rouca. – Malária, vê se pode. Uma ironia dos caralhos, não?”

 

A edição da Dame Blanche traz, ainda, uma breve entrevista com a autora, da qual, aliás, já virei fã. Posso dizer, pela primeira vez, que adorei uma história de lobisomem. Já quero mais.

 

 

Título: Lobo de Rua
Autora: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Páginas: 89

 

Compre na Amazon: Lobo de Rua

 

Veja também: A Casa de Vidro, primeiro lançamento da Editora Dame Blanche.

novembro 28, 2016

[RESENHA] FLORBELA ESPANCA, ANTOLOGIA POÉTICA

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É difícil conceber uma resenha literária de um livro de poesias quando não há a intenção de fazer uma análise aprofundada, destrinchando cada verso, cada rima. Entretanto, ainda assim, chamarei esse texto de resenha e tentarei fazer algumas considerações sobre o livro em questão, desde já recomendando, obviamente, que ele seja lido.

Florbela Espanca (1894/1930) é uma figura que despertou a minha atenção e admiração desde o primeiro momento em que tive conhecimento de sua existência. Ela deve ser reconhecida e venerada pelo talento que tinha em colocar no papel da forma mais intensa os seus sentimentos.

A Editora Martin Claret lançou em edição especial, capa dura, esta antologia da autora, contendo toda a sua obra poética antes publicada separadamente nos volumes Livro de Mágoas; Livro Sóror Saudade; Charneca em Flor, Reliquiae; Trocando Olhares e O Livro D’ele. A edição conta, ainda, com uma introdução de Renata Soares Junqueira, que fala rapidamente sobre a vida e a obra de Florbela Espanca, a autora que é poesia até no nome.

 

 

“Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

 

Os meus gestos são ondas de sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

 

Dou-te o que tenho; o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te comigo, o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: ‘Era uma vez…’”

 

(Conto de Fadas, do livro Charneca em Flor, p. 97)

 

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Florbela Espanca

 

Uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o cantor Fagner transformou vários sonetos da poetisa portuguesa em música! Deixo abaixo um vídeo em que ele canta com Zeca Baleiro o soneto Fanatismo, presente no Livro Sóror Saudade, página 56 da Antologia publicada pela Martin Claret. A edição é lindíssima e deixo aqui o convite para que vocês conheçam a obra de Florbela Espanca.

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa…’
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…’”

(Fanatismo, do Livro Sóror Saudade, p. 56)

 

 

 

 

Título: Florbela Espanca, Antologia Poética
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 298

 

Compre na Amazon: Florbela Espanca, Antologia Poética.

 

 

novembro 23, 2016

[RESENHA] MOBILIDADE SOCIAL EM ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN, E SENHORA, DE JOSÉ DE ALENCAR

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Mobilidade Social em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Senhora, de José de Alencar, foi escrito por Márcio Azevedo e publicado pela editora Livrus neste ano. O texto é fruto da pesquisa de mestrado do autor, defendida em 2015 na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

 

Desde que eu soube do lançamento deste livro, me peguei pensando nas possíveis semelhanças entre os romances e seus autores, tão distintos: Jane Austen, da Inglaterra, tendo seu livro publicado originalmente em 1813 e, José de Alencar, brasileiro, tendo publicado Senhora em 1875. Márcio Azevedo nos mostra que há sim, muitas semelhanças além do romance conturbado entre os protagonistas dos dois livros.

 

Quem não está inserido neste meio acadêmico pode desconfiar de uma indicação minha, sendo eu uma estudante (apaixonada) de Letras, para a leitura de um livro de Literatura Comparada. É natural que exista o medo de que seja uma leitura densa, maçante. Felizmente, inclusive para mim, o livro de Márcio Azevedo é uma ótima leitura, leve e precisa, com todo o embasamento teórico apresentado de forma simples e pertinente. É uma leitura rápida por seu conteúdo interessante e, certamente, será bem avaliada por todos os seus leitores, sobretudo os fãs de Austen e Alencar.

 

O livro foi dividido em três capítulos: Contexto histórico e apresentação dos autores; Análise comparativa: contrastes e semelhanças em Orgulho e Preconceito e Senhora e, Literatura e Cinema. Neste último, o autor destrincha a adaptação de Orgulho e Preconceito, produzida em 2005, com direção de Joe Wright e também a adaptação de Senhora, do diretor e roteirista Geraldo Vietri, do ano de 1976. Aqui, além de comparações sobre livro e filme, Azevedo fala sobre limitações e liberdades criativas em relação às histórias contadas através do cinema. Nós leitores muitas vezes criticamos os roteiristas e diretores por não transcreverem o livro integralmente para as telas, quando na realidade as adaptações são releituras e podem seguir caminhos diferentes para contar a história.

 

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Foi muito interessante descobrir, em cada página, detalhes que uma leitura mais superficial dos livros em questão não nos permite perceber. Já li Orgulho e Preconceito algumas vezes; Senhora, preciso reler, e agora terei o cuidado de observar um ponto importante sobre o personagem Seixas, muito bem fundamentado pelo autor que eu, a contragosto, percebo ter sua verdade: Fernando Seixas seria, na visão de Azevedo, o verdadeiro protagonista do livro de Alencar.

“Fernando Seixas é o homem por quem Aurélia se apaixona. Apesar de o romance se chamar Senhora e ter grande parte dos estudos acadêmicos voltados para a imagem feminina, supostamente tendo Aurélia como sua protagonista, Fernando é o desencadeador de diversas ações, quando precisa se redimir moralmente e descobrir o verdadeiro amor. Não é Aurélia que sofre todo esse processo de mudança durante o romance todo. Em Orgulho e Preconceito, o foco narrativo estabelece Elizabeth Bennet como epicentro das ações, portanto não há dúvidas de que ela é a protagonista, tendo em vista que é a responsável por promover várias mudanças no Sr. Darcy.” (p. 103)

 

Para adquirir um exemplar do livro, basta entrar em contato com o autor, via mensagem direta, em sua página no facebook. Garanto, é leitura mais que recomendada!

 

 

Sobre o autor: Márcio Azevedo da Silva nasceu em 21 de novembro de 1980, em Parintins, Amazonas. Graduado em Letras, Língua e Literatura de Língua Portuguesa (UEA-2005), Letras – Língua e Literatura de Língua Inglesa (UFAM-2012), Especialização em Metodologias de Língua Inglesa (UEA-2007), Mestrado em Letras, com ênfase em estudos literários (UFAM-2015).

Compositor de oito toadas publicadas na história centenária do Boi-bumbá Garantido. Publicou os contos Desromantizando (2013), Predestinação (2013) e Prisão sem Muro (2015).

É professor de Língua Inglesa do quadro efetivo da Secretaria de Estado de Educação do Amazonas (Seduc). (orelha do livro)

 

 

Título: Mobilidade Social em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e Senhora, de José de Alencar
Autor: Márcio Azevedo
Editora: Livrus
Páginas: 168

 

 

Leia também: Leituras de Jane Austen no Século XXI.

 

Conheça o filme Senhora, de 1976:

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