janeiro 08, 2016

[RESENHA] FÁBULAS COMPLETAS, DE ESOPO

esopo

Aproveitando a liquidação do catálogo da Cosac Naify, que anunciou o encerramento de suas atividades no final de 2015, adquiri essa edição lindíssima das Fábulas de Esopo contendo 383 fábulas traduzidas diretamente do grego, sendo 26 delas inéditas em português! A tradução foi feita por Maria Celeste C. Dezotti e conta com ilustrações de Eduardo Berliner. A apresentação do volume foi escrita por Adriane Duarte.

 

O gênero fábula sempre me remeteu à infância. Uma forma de aprendizado moral feito através do lúdico da personificação dos animais. Mas as Fábulas Completas vão além e mudaram totalmente esse meu ponto de vista: seu conteúdo é, muitas vezes, preconceituoso e até mesmo pornográfico! Logicamente, a apresentação feita por Adriane Duarte já havia feito esse alerta, mas, ainda assim, confesso que o conteúdo me desanimou um pouco. O fato de pensar nas fábulas de Esopo sempre como histórias infantis me fez ignorar o que elas realmente são: textos formadores de moral de uma época já distante da qual vivemos. Foi, entretanto, uma boa descoberta e também uma boa leitura.

 

Existem muitas edições brasileiras das fábulas esópicas, a grande maioria voltada para o público infantil. Menos por causa do público-alvo e mais pela concepção que se tem do que lhe é adequado ou não, essas antologias costumam trazer textos adaptados e fazer uma seleção que exclui as histórias que tratam de temas polêmicos, como morte e sensualidade, ou considerados politicamente incorretos. Quase todas têm tradução indireta, limitando-se apenas a reproduzir texto e ilustrações de obras editadas em outros países. Umas poucas edições fogem desse padrão. Mirando um público adulto, propõe-se a realizar tradução integral do corpus esópico diretamente do grego. Essa escolha se faz acompanhar de um projeto gráfico sóbrio, onde há pouco lugar para ilustrações. (Esopo e a tradição da fábula, por Adriane Duarte)

Sendo uma edição da Cosac Naify, o leitor, acostumado aos projetos gráficos impecáveis da editora, pode ter uma ideia do tratamento dado a esta edição: a capa tem acabamento em veludo, assim como o marcador de pano, que dá um charme todo especial à obra. As ilustrações, embora sóbrias, são lindas e o texto foi impresso em vermelho, cor predominante da capa. É uma edição para ler e ter na estante!

 

 

Título: Esopo: Fábulas Completas
Autor: Esopo
Tradução: Maria Celeste C. Dezotti
Apresentação: Adriane Duarte
Ilustrações: Eduardo Berliner
Editora: Cosac Naify
Páginas: 561

 

Compre pela Amazon: Esopo. Fábulas Completas

janeiro 07, 2016

[RESENHA] O DIÁRIO SECRETO DE LIZZIE BENNET

The Lizzie Bennet Diaries foi uma premiada web série exibida originalmente em 2012 e também adaptada para livro, publicado no Brasil pela Verus Editora, em 2014. Trata-se de uma versão moderna e muito divertida do nosso querido clássico Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

 

Lizzie Bennet é uma estudante de pós-graduação em comunicação de massa (graduada em Letras), que resolve criar um vlog como projeto de curso. Com a chegada de dois amigos a sua cidade ela passa a ter bastante assunto para falar com a sua audiência.

 

A história tem todos os elementos de Orgulho e Preconceito, mas sem ser repetitiva ou inverossímil. Enxergamos na história e nos personagens a correspondência com a época atual e ela ainda consegue nos surpreender e nos deixar na expectativa pelo o que vai acontecer com a nossa heroína e sua família.

 

Na série, a escolha dos atores foi muito bem feita; ouso dizer perfeita. Até o Darcy com visual meio hipster (um tanto inesperado para mim) ficou uma graça! Em relação ao livro, um ponto positivo é que ele não funciona como uma mera transcrição da série; os autores conseguiram estruturar “as histórias” de forma que a leitura fosse tão agradável e divertida quanto assistir aos episódios no youtube. O livro preenche as lacunas dos episódios e também surpreende em alguns aspectos, por mostrar, realmente, os sentimentos mais secretos de Lizzie.

 

A cereja do bolo é que tudo aquilo que não conseguimos ver do romance entre Lizzie e Darcy na tela, é possível ler nas páginas do diário. Prepare-se para suspirar!

 

Nesta hora, outro turista esbarrou em nós, e deixei meu celular cair. Não na água, por sorte, mas no deque, no meio do caminho lotado de turistas.

— Eu pego – Disse o Darcy, abaixando-se no meio da confusão para recuperar  meu celular. Ele o agarrou e o estendeu para mim. – Aqui. Nenhum estrago, eu acho.

Quando estendi a mão e peguei o celular, meu dedo roçou no dele. E eu senti. Um choque se espalhando do ponto de contato até a minha mão. Não elétrico, mas um conforto latejante. Gostoso. E certo.

Meus olhos se ergueram de repente e encontraram os dele – e então eu percebi que ele também sentiu alguma coisa. (pág. 289)

 

Mais uma adaptação moderna de Orgulho e Preconceito que merece ser lida, relida e, sobretudo, assistida! É viciante, pode apostar! Vai ser responsável pela sua próxima ressaca literária!

 

Se interessou também pelo Diário de Mr. Darcy?  Fiz resenha dele aqui!

 

Ainda não conhece a websérie? Veja abaixo:

 

 

Título: O Diário Secreto de Lizzie Bennet
Autores: Bernie Su e Kate Rorick
Tradução: Cláudia Mello Belhassof
Editora: Verus
Páginas: 364

 

 

Compre pela Amazon: O Diário Secreto de Lizzie Bennet

janeiro 06, 2016

[CONTO] O DIA EM QUE CONHECI MEU PAI PELA SEGUNDA VEZ

img159

Decidi conhecer meu pai. Já o vi há muitos anos, mas agora será diferente. Não sou mais um menino assustado, tampouco sua figura me deixará sem palavras. Sei o que ele foi e quem ele é. Agora é a minha vez de mostrar quem sou eu.

 

Perguntando aqui e ali, numas férias em que passei em casa, descobri onde ele se esconde. Ainda é policial, mas é sócio de um bar. Foi lá que escolhi aparecer. Não sei se aguentaria ficar com ele a sós.

 

Fui conhecê-lo pela primeira vez quando tinha oito anos. Ele mal havia me visto nascer e já nos abandonara. Minha mãe decidiu que eu já estava virando um rapazinho e devia conhecer o homem que contribuiu para que eu viesse ao mundo. Ele foi embora, mas nunca esteve muito longe. Morava a poucos quilômetros de nós, numa cidade vizinha, e estava lotado em um batalhão desta mesma cidade. A família dele nunca nos procurou. Minha mãe achou melhor ir até o batalhão, onde o encontro seria breve e teria testemunhas. Era medo. Eu sabia.

 

Ele era o tipo de homem que não esquentava a cama de mulher nenhuma, mas gostou da minha mãe. Ela, moça caseira, filha de pessoas honestas, jamais se envolveria com um homem como ele, mas se apaixonou. Casaram-se. Pouco tempo depois, esperavam por mim. Desde então, ele resolveu que não queria mais filhos, pois já tinha vários, em várias cidades… Também não queria ter uma família conosco. Na verdade, já tinha passado da hora de ele ir embora dali.

 

Eu nasci e tive a melhor família que uma pessoa poderia ter. Meus avós, minha mãe, minha tia… Todos estavam lá nos momentos em que precisei. Mas nunca tive o meu pai.

 

Certa vez perguntei a minha mãe por que eu não tinha pai. Ele havia morrido? Não sabia nada dele, só que o chamavam de nomes indizíveis e desprezavam-no. Mesmo assim, minha mãe disse que se eu quisesse, ela me levaria para conhecê-lo. Fomos.

 

O dia estava quente, e o batalhão era no fim de um longo caminho. Minha mãe segurava a minha mão com muita força. Eu também estava com medo. Ia conhecer o meu pai.

 

No batalhão, já éramos esperados. Fomos anunciados e um homem veio caminhando lentamente até nós. Era ele, eu tinha certeza. Aproximou-se, mas não falou nada. Olhou rapidamente para mim. Seus olhos logo encontraram os da minha mãe e lá repousaram.  Olharam-se por um, que pareceu uma eternidade. Havia anos que ela não o via. Desconfio que ela também não o conhecia, nunca deve tê-lo conhecido de fato. Mas há muito tempo perdera a vontade de conhecê-lo. Um simples e tímido cumprimento foi o breve diálogo entre eles. Mas aquele olhar, aquele, sim, disse muito mais do que qualquer palavra poderia dizer.

 

Não me lembro de nada que ele disse, e a minha mãe não esteve junto a nós para ouvir a conversa. Ela me esperou na porta do batalhão, enquanto eu era apresentado aos colegas de farda do meu pai, lá dentro. Achei aquele lugar incrível! Meu pai estava para ser promovido a Sargento e muitos já o respeitavam como tal. Muita gente quis me conhecer e falar comigo. Senti-me importante porque meu pai o era.

 

(…)

Depois daquele dia, nunca mais o vi. Pensei até que havia sonhado com esse encontro, mas a minha mãe garante que não foi sonho. Nós realmente estivemos lá.

 

(…)

Eu precisava vê-lo de novo. Não sei por que, mas precisava. Fui ao bar. Entrei, sentei, pedi uma cerveja. Já era adulto, mas estava nervoso. Ele estava no balcão, não me viu. Confirmei com o cara que me trouxe a cerveja. Era realmente o meu pai no balcão. Tive vontade de ir embora. Nesta altura da vida, o que eu esperava ter dele? Pensei muito, os segundos pareciam horas. Eu estava ali. Não podia ir embora antes de falar com ele.

 

Também sou policial agora. Não sei se aquela visita ao batalhão me influenciou (ou se foi uma inclinação natural e, neste caso, trágica de seguir a profissão do pai), mas entrei para a corporação na primeira oportunidade, há pouco tempo. Sou Soldado. Ele, pela idade, já deve ser Primeiro Tenente. Arranjei uma arma emprestada só para ir vê-lo.

 

Foi tudo muito rápido. Ainda hoje parece que das duas vezes eu sonhei ter conhecido o meu pai. Levantei-me da cadeira e fui caminhando lentamente até o balcão. Parei de frente para ele. Olhou-me e não me reconheceu. Confirmei uma vez mais se realmente era meu pai. Disse o meu nome. Então as coisas passaram a fazer sentido para ele. Em um movimento repentino, ele pulou o balcão e me abraçou. Não sei se eu consegui abraçá-lo de volta, mas ele ficou ali, abraçando-me.

 

Voltei para a mesa, agora com o meu pai. Conversamos sobre várias coisas. Falei para ele que eu também era policial, Cabo, quase Sargento; que tudo tinha dado certo para mim e que eu vivia muito bem. Ele me falou da família, dos muitos filhos e do arrependimento de não ter me procurado depois daquele dia no batalhão.

 

Perguntou-me pela minha mãe. Menti que ela havia se casado novamente, que era muito feliz e tinha mais três filhos. Ele não pareceu acreditar. Ele devia conhecer a mulher com quem se casara há muito tempo mais do que eu supunha.

 

Apresentou-me para todos como o seu filho, que também era policial. Simplesmente um orgulho! Aquilo irritou-me. Esforcei-me para não deixar transparecer. Ele em nada havia contribuído para que eu estivesse ali, homem feito, pessoa de bem. Por ele, eu nem teria nascido!

 

Prometi voltar sempre nas férias para visitá-lo, agora que nós tínhamos nos conhecido de verdade. Quinze anos depois, soube que ele morrera.

 

 

 

*** Este conto participou do Concurso de Contos DEZCONTOS (2015), do curso de Letras do Polo Cederj Itaperuna, ficando na oitava colocação. Ele narra uma história real; foi o meu pai quem decidiu conhecer o pai dele pela segunda vez. O que eu fiz foi unir as versões dele e da minha avó sobre o ocorrido, com uma pitada de imaginação. Contei com a revisão do meu marido, melhor amigo e companheiro da vida, Anderson Novais.

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2017 • powered by WordPressDesenvolvido por