junho 20, 2018

[RESENHA] TEMPO DE MIGRAR PARA O NORTE, DE TAYEB SALIH

Sinopse: “Com um texto tão enxuto quanto complexo, o sudanês Tayeb Salih nos conduz às margens do rio Nilo para contar a história de Mustafa Said, árabe africano de intelecto notável — mas que carrega consigo um passado trágico, de loucura e morte. Censurado em seu país de origem, Tempo de migrar para o norte ganhou notoriedade mundial e já foi traduzido para mais de 30 idiomas.”

 

Quem acompanha as postagens aqui do blog há mais tempo sabe que eu fui assinante da TAG Experiências Literárias antes que a empresa segmentasse o clube em duas linhas de interesse: TAG Curadoria e TAG Inéditos. A TAG Curadoria, grosso modo, é a ideia inicial do clube, oferecendo aos assinantes livros diferenciados, muitos até fora de catálogo, com a curadoria de algum escritor ou de alguém com bastante bagagem cultural e literária. Já a TAG Inéditos é o novo clube, que procura trazer ao Brasil best-sellers que já são sucessos lá fora, no entanto, ainda inéditos no Brasil.

O legal da TAG (no meu caso em específico, da TAG Curadoria) é o desafio de ler algo fora de sua zona de conforto. Mesmo assim, muita gente acha que pode não valer a pena, pois colocando na ponta do lápis, dá para comprar pelo menos dois livros todo mês só com o valor da assinatura. Eu fiz essa conta e saí do clube. Mas sempre ficava namorando as caixinhas pelo facebook, confesso… Então houve a segmentação, a TAG Curadoria passou a enviar edições exclusivas ainda mais especiais e as condições de pagamento ficaram mais bacanas. Agora é possível, por exemplo, fazer a assinatura anual e ganhar um desconto em relação à assinatura mensal. Deste modo, é possível pensar além do preço, que é superimportante obviamente, e voltar os olhos para a experiência, que é maravilhosa.

Voltei para o clube TAG Curadoria em maio e recebi o livro Tempo de migrar para o norte, de Tayeb Salih, indicação do escritor Milton Hatoum. Foi o meu primeiro contato com a literatura árabe e eu peguei para ler assim que a caixinha chegou. Eu sou do tipo que não pesquisa o livro na internet com base nas dicas que a TAG dá nas redes sociais. Gosto da surpresa, de conhecer o livro e o autor, caso nunca o tenha lido, como foi com Tayeb Salih.

Tempo de migrar para o norte lembra muito O Grande Gatsby na estrutura narrativa: aqui temos um narrador que não é o protagonista da história, apenas conta a história de um sujeito maior, extraordinário. Após sete anos fazendo um doutorado em literatura na Inglaterra, um sudanês — nosso narrador não nomeado — retorna a sua aldeia de origem. O retorno traz a ele sentimentos de pertencimento àquela paisagem às margens do Nilo, mas também há um certo desconforto com as tradições e costumes do lugar. É o que acontece com todo mundo que passa tempo demais longe de casa: é difícil se reconectar, voltar a pertencer inteiramente ao lugar de origem, pois a pessoa muda, já o lugar, na maioria das vezes, não.

De volta à aldeia o narrador percebe que existe um homem que também não pertence inteiramente àquela realidade: Mustafa Said. Descrito como um belo africano muito bem educado, inteligente e viajado, Mustafa Said logo chama a atenção do narrador e vê nele alguém com quem pode conversar abertamente e contar suas aventuras e desventuras na Londres de 1920.

 

Livro + Box + Revista com textos complementares sobre a obra e o curador.

 

“Este romance denso e evocativo, com lances da lírica árabe, narra as viagens e visões de Mustafa Said, dilacerado entre dois continentes. Trata-se de uma complexa sondagem na alma humana, que é também uma reflexão sobre o colonialismo britânico na África e uma crítica implacável aos governantes do Sudão pós-colonial.” (Milton Hatoun, curador da TAG Experiências Literárias – maio/2018)

 

Mustafa Said representa a ruptura, o colonizado que não foi assimilado, mas também não pertence ao passado, como os anciãos do vilarejo em que escolheu repousar. É um homem perdido entre dois mundos, misterioso, e com um grande currículo de mortes em seu nome. O personagem usava de sua aparência exótica aos olhos das mulheres inglesas e extrapolava os estereótipos atribuídos ao seu povo para caçar suas vítimas. Ele seduziu essas mulheres e as levou à loucura, a ponto de algumas delas cometerem suicídio.

O texto de Tayeb Salih é muito rico, com construções bastante poéticas, muito gostoso de ler, até quando toca em temas desagradáveis. Em cerca de 200 páginas ele conseguiu falar de colonialismo, religião, política e costumes, de forma magistral. Não à toa o livro foi proibido no Sudão, principalmente por seu conteúdo sexual.

O que mais me tocou nesta publicação foi um diálogo sobre os tipos de mulheres, no caso as mutiladas e as não mutiladas, que reproduzo abaixo:

“‘As mulheres cristãs’, comentou Bint-Majthub, ‘não entendem da coisa como as mulheres daqui. Não são circuncidadas e tratam a coisa como se fosse um gole de água. As mulheres daqui se untam em óleos, usam perfumes, queimam incenso, vestem camisolas de seda e, quando deitam na esteira vermelha após a oração da noite e abrem as pernas, o homem se sente como Abu-Zaid Alhilali e se, por acaso, estiver sem vigor, logo se revigora.’

Meu avô e Bakri riram.

‘Basta de falar das mulheres da aldeia, Bint-Majthub!’, protestou Wad-Irrayis. ‘As de fora, essas, sim, são mulheres de verdade!’

‘Você é quem está por fora!’, comentou Bint-Majthub.

‘Wad-Irrayis gosta das mulheres não circuncidadas’, comentou meu avô.

‘Juro, Hajj Ahmad, se experimentasse as mulheres etíopes e nigerianas, largaria a masbaha e as orações na hora. O que elas têm entre as pernas é um prato cheio, intato, com todo o seu bem e seu mal. Aqui, cortam-no e deixam-no como uma terra devastada.’

‘A circuncisão é uma das normas do islã’, disse Bakri.

‘Que islã é esse?’, perguntou Wad-Irrayis. ‘Deve ser o seu islã e o de Hajj Ahmad, que não sabem distinguir entre o que lhes faz bem e o que lhes faz mal. Por acaso, os nigerianos, os egípcios e os árabes da Síria não são muçulmanos como nós? Mas eles fazem as coisas direito, deixam as mulheres como Deus as criou, enquanto nós as mutilamos feito animais.’” (p. 81)

N.T.: Abu-Zaid Alhilali é o herói de uma epopeia popular que narra a invasão das tribos árabes de Banu-Hilal ao Magreb.

 

É importante ler esse tipo de coisa escrita por um escritor árabe, pois dito por alguém de fora, dependendo de como se fala, é tido como preconceito cultural. Eu não me importo com esse tipo de julgamento, porque o que acontece com essas mulheres, ainda meninas, é de uma crueldade sem tamanho, em nome de um aprisionamento misógino que algumas pessoas chamam de religião. No livro há ainda outras passagens que mostram o desrespeito com as mulheres e como isso é contemporizado inclusive entre aqueles que teriam o poder de reverter essa situação, homens modernos, usando como desculpa o aspecto cultural da situação.

 

Tempo de migrar para o norte foi uma leitura muito rica, gostei bastante, e foi verdadeiramente uma descoberta para mim, pois eu não conhecia o autor e nunca havia lido algo da literatura árabe. Essa, talvez, seja a maior vantagem de participar de um clube de assinaturas: mais que a surpresa em torno do título, existe a surpresa com a leitura, expande nosso horizonte para algo novo e bom.

 

*** o mimo do mês de maio da TAG Curadoria foi um blend oriental maravilhoso, nunca experimentei um chá tão gostoso em toda a minha vida! Pena que só deu para duas xícaras, porque eu tomaria litros dele! Veja o kit completo no vídeo abaixo:

 

Ficou interessado na TAG Experiências Literárias? Faço parte do clube curadoria, mas você pode clicar aqui e conhecer melhor as duas caixinhas, curadoria e inéditos, e ver qual se adéqua ao seu gosto e estilo!

 

 

Título: Tempo de migrar para o norte

Autor: Tayeb Salih

Tradução: Safa Abou-Chahla Jubran

Editora: Planeta / TAG Experiências Literárias

Páginas: 176

junho 19, 2018

[RESENHA] A BRUXA NÃO VAI PARA A FOGUEIRA NESTE LIVRO, DE AMANDA LOVELACE

Sinopse: “Aqueles que consideram “bruxa” um xingamento não poderiam estar mais enganados: bruxas são mulheres capazes de incendiar o mundo ao seu redor. Resgatando essa imagem ancestral da figura feminina naturalmente poderosa, independente e, agora, indestrutível, Amanda Lovelace aprofunda a combinação de contundência e lirismo que arrebatou leitores e marcou sua obra de estreia, A princesa salva a si mesma neste livro, cujos poemas se dedicavam principalmente a temas como relacionamentos abusivos, crescimento pessoal e autoestima. Agora, em A bruxa não vai para a fogueira neste livro, ela conclama a união das mulheres contra as mais variadas formas de violência e opressão. Ao lado de Rupi Kaur, de Outros jeitos de usar a boca e O que o sol faz com as flores, Amanda é hoje um dos grandes nomes da nova poesia que surgiu nas redes sociais e, com linguagem direta e temática contemporânea, ganhou as ruas. Seu A bruxa não vai para a fogueira neste livro é mais do que uma obra escrita por uma mulher, sobre mulheres e para mulheres: trata-se de uma mensagem de ser humano para ser humano – um tijolo na construção de um mundo mais justo e igualitário.”

 

Há séculos muitas mulheres queimaram em fogueiras sob a acusação de serem bruxas. As curandeiras, feiticeiras, médiuns, ou simplesmente mulheres que tinham um conhecimento a frente de seu tempo, ou mesmo não se curvavam aos desmandos de sua sociedade, eram torturadas e mortas. Alguns homens também tiveram semelhante destino em épocas passadas, mas a fogueira era delas e para elas, as bruxas.

Agora, no século XXI, era da informação, as fogueiras não existem mais. Pelo menos não do jeito que existiam na Idade Média. Hoje a fogueira é simbólica e às bruxas é, em algumas vezes, assegurado o direito de apagar o fósforo.

Neste novo livro, Amanda Lovelace discorre, em poesia, sobre as fogueiras modernas. A fogueira do machismo, do abuso. Toda vez que uma de nós tem medo de sair sozinha à noite, a fogueira é acesa. Toda vez que precisamos provar além da conta o nosso valor, unicamente por sermos mulheres, a fogueira é acesa. No entanto, cada mulher que se arma e luta, por si e por suas irmãs, apaga o fósforo e vence a fogueira.

 

Leia também: A princesa salva a si mesma neste livro, de Amanda Lovelace.

 

 

“Ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra,

sabendo

que todas as probabilidades

estão

contra você.

— & nunca desistir apesar disso.”

 

“batom vermelho

um sinal externo

do fogo

interno.

— tentamos avisar você.”

 

A bruxa não vai para a fogueira neste livro é dividido em quatro unidades temáticas, O julgamento, A queima, A tempestade de fogo e As cinzas. É uma boa leitura para quem gosta de poesia contemporânea envolvendo a temática de empoderamento, especialmente feminismo. É também um ótimo lembrete de que as bruxas modernas estão mais poderosas do que nunca.

 

 

Título: A bruxa não vai para a fogueira neste livro

Autora: Amanda Lovelace

Tradução: Izabel Aleixo

Editora: Leya

Páginas: 201

Compre na Amazon: A bruxa não vai para a fogueira neste livro.

 

Caso tenha interesse: Lista de pessoas executadas por acusação de bruxaria.

junho 07, 2018

[LANÇAMENTO] POESIA NA SALA DE AULA, DE HÉLDER PINHEIRO

Sinopse: Vale a pena trabalhar poesia em sala de aula? Qual a função social da poesia?
A resposta a essas duas questões poderá abrir nossos olhos para o que estamos perdendo ao marginalizar a poesia no cotidiano escolar. Não se pode abandoná-la só porque a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece de mais cuidados do que o texto em prosa.
Este livro mantém, ao mesmo tempo, um caráter de relato de vivências e de sugestões de abordagem do poema no contexto escolar. Não se trata de um livro didático, tampouco de um livro teórico, embora por trás de muitas práticas e sugestões haja uma base de leituras teóricas tanto do universo da poesia quanto das metodologias e de concepções pedagógicas.
Aqui, cada capítulo enfrenta problemas específicos, com o autor buscando constantemente ocupar um entrelugar bastante significativo, sobretudo para instigar o leitor-professor a realizar suas próprias experiências sem seguir um roteiro prévio, como ocorre em muitas obras que trazem sequências didáticas prontas.
Além de refletir sobre a função social da poesia e sobre as condições para melhor efetivar o encontro com a poesia no espaço escolar, Poesia na sala de aula amplia sugestões e experiências, bem como indica dezenas de antologias e livros de poemas.
Certo é que todo leitor vai em busca de seu caminho, e eles são diversos. Um poema ouvido ou lido na escola, um livro visto de relance, uma antologia, a audição de um link de internet, tudo pode servir de estímulo para a descoberta da poesia. Mas não basta descobrir, é preciso dar continuidade à experiência de leitura.”

 

Os deuses da poesia ouviram as minhas preces, ou a minha tentativa um pouquinho desastrada de introduzir a poesia de Manoel de Barros no projeto anti-bullying da escola onde estou fazendo estágio. Lembro-me de falar com os alunos “poesia cura tudo. Até bullying”. E eles ficaram me olhando como se eu fosse um pouco lunática (acertaram!) e eu olhei de volta morrendo de vontade de saber trabalhar melhor esse tema, porque é uma coisa em que eu realmente acredito. Pouco tempo depois do meu período de estágio na escola, a editora Parábola lançou o livro Poesia na Sala de Aula, de Hélder Pinheiro. E a minha ideia, que tem ainda mais um ano para ser desenvolvida (estágios 3 e 4), vai poder ser, de fato, bem embasada.

 

Neste link você pode saber mais informações sobre o livro e ler um trechinho de degustação.

 

SOBRE O AUTOR: José Hélder Pinheiro Alves é graduado em Letras pelas Faculdades Integradas de Uberaba (1983), mestre em Letras (Literatura brasileira) pela Universidade de São Paulo (1992), doutor em Letras (Literatura brasileira) pela Universidade de São Paulo (2000) e pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (2004). Atualmente é professor titular em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Campina Grande, PB. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura e ensino, poesia, literatura infantil e literatura de cordel. É membro do GT Literatura e ensino da ANPOLL.

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