Janeiro 25, 2017

[ETC.] DESAFIO #12MESESDEPOE: JANEIRO

 

“Vós que me ledes, por certo estás ainda entre os vivos; mas eu que escrevo, terei partido há muito tempo para a região das sombras.”

 

O Desafio de leitura #12MESESDEPOE foi criado no ano passado pela blogueira Anna Costa e foi um tremendo sucesso! A ideia de ler um conto de Edgar Allan Poe todos os meses e interagir a partir da hashtag do desafio foi tão maravilhosa que agora em 2017 o #12mesesdePoe continua! Desta vez, além do conto, leremos também um poema do autor, veja o cronograma abaixo:

 

Em janeiro, como exposto acima, o conto escolhido foi A queda da casa de Usher.

 

“Seu coração é um alaúde suspenso; Tão logo o tocamos ele ressoa.” De Béranger

 

Publicado originalmente em 1839, A queda da casa de Usher, sem querer dar spoiler, mas já o fazendo, mostra logo em seu título o possível desfecho do conto. A história começa quando o narrador, que não foi nomeado, chega à casa de seu amigo dos tempos de infância, Roderick Usher, após ter recebido uma carta dele solicitando a visita, pois estava doente. No local, também mora a irmã de Usher, Madeline, que morre um tempo depois da chegada do narrador. Roderick decide sepultar a irmã de forma permanente apenas duas semanas depois de seu falecimento. Antes disso, com a ajuda do narrador, Madeline é sepultada no túmulo da família, na própria casa. Nota-se que ela tem as bochechas rosadas, mas… “é de praxe em qualquer enfermidade de caráter estritamente  cataléptico, a caricatura de um tênue rubor no busto e nas faces”. A partir daí, coisas muito estranhas acontecem na casa e com Usher e o seu amigo narrador. A queda da casa de Usher é um conto gótico com todos os maravilhosos elementos do gênero, e é considerada uma das mais famosas obras em prosa de Edgar Allan Poe. No conto encontramos o nosso poema de janeiro, O palácio assombrado. Como eu li o poema primeiro para só depois ler o conto, me surpreendi! Foi bom para ler mais uma vez, já que escolhi ler sempre o poema primeiro neste desafio.

 

 

E por falar em O palácio Assombrado, vocês podem conferir o poema a seguir. Um palácio, que antes era a morada da felicidade, perdera sua luz, sua felicidade, pois o trono do rei Pensamento foi tomado de assalto por seres maus, trajados de luto. O final é maravilhoso.

 

O Palácio Assombrado

I

  No mais verde de nossos vales,

  habitado por anjos bons,

  antigamente um belo e imponente palácio

  — um palácio radiante — se erguia.

  Nos domínios do rei Pensamento.

  lá se achava ele!

  Jamais um Serafim espalmou a asa

  sobre um edifício só metade tão belo.

 

  II

  Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,

  sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.

  ( Isso, tudo isso, aconteceu há muito, muitíssimo tempo. )

  E em cada brisa sua que soprava,

  naqueles doces dias,

  ao longo dos muros pálidos e empenachados,

  se elevava um aroma alado.

 

  III

  Caminhantes que passavam por esse vale feliz

  viam, através de duas janelas iluminadas,

  espíritos que se moviam musicalmente

  ao som de um alaúde bem afinado,

  em torno de um trono onde, sentado,

  ( Porfirogênito! )

  com majestade digna de sua glória,

  aparecia o senhor do reino.

 

  IV

  E toda refulgente de pérolas e rubis

  era linda porta do palácio,

  através da qual passava, passava e passava,

  a refulgir sem cessar,

  uma turba de ecos cuja grata missão

  era apenas cantar,

  com vozes de inexcedível beleza,

  o talento e o saber de seu rei.

 

  V

  Mas seres maus, trajados de luto,

  assaltaram o alto trono do monarca;

 (ah, lamentemo-nos, visto que nunca mais a alvorada despontará sobre ele, o desolado!)

  e, em torno de sua mansão, a glória,

  que, rubra, florescia,

  não passa, agora, de uma história quase esquecida

  dos velhos tempos já sepultados.

 

  VI

  E agora os caminhantes, nesse vale,

  através das janelas de luz avermelhada, vêem

  grandes vultos que se movem fantasticamente

  ao som de desafinada melodia;

  enquanto isso, qual rio rápido e medonho,

  através da porta descorada,

  odiosa turba se precipita sem cessar,

  rindo — mas sem sorrir nunca mais.

 

Pesquisando no Google, vi que existe uma animação inspirada em O Palácio Assombrado, feita por Jeanette Seah e Daniel Nudds, da Vancouver Film School. Confira abaixo (em inglês):

 

Gostei muito da experiência de ler as histórias de Edgar Allan Poe, apesar de não ter cumprido o desafio de 2016 religiosamente até o final. Espero ler mais neste ano com o desafio e com a primeira edição da coleção Medo Clássico, lançamento da editora DarkSide do mês de fevereiro/2017.

Sinopse: “Nunca mais houve um autor como Edgar Allan Poe. Nunca mais haverá uma edição como esta. Edgar Allan Poe: Medo Clássico é uma homenagem ao mestre da literatura fantástica em todos os detalhes: da capa dura à tradução primorosa, além das belíssimas xilogravuras do artista gráfico Ramon Rodrigues. Pela primeira vez, os contos de Poe estão divididos por temas que ajudam a visualizar a grandeza de sua obra: a morte, narradores homicidas, mulheres etéreas, aventuras, além das histórias completas do detetive Auguste Dupin, personagem que inspirou Sherlock Holmes. Edgar Allan Poe: Medo Clássico apresenta ainda o poema “O Corvo” na sua versão original em inglês e nas traduções para o português de Machado Assis e de Fernando Pessoa, além do clássico ensaio sobre o poema, “A filosofia da composição”. O livro traz ainda o prefácio do poeta francês Charles Baudelaire, admirador do autor e seu primeiro tradutor na França. Este é um dos primeiros títulos da coleção Medo Clássico da DarkSide Books – que inclui outros autores eternos como Mary Shelley, Bram Stoker e H.P. Lovecraft –, sempre com texto integral, extras, notas e ilustrações exclusivas de renomados artistas brasileiros, em um projeto feito de fã para fã por quem ama e reverencia os grandes mestres da escuridão. “O melhor de Poe nunca envelhece. Seus contos ainda nos deixam maravilhados. E suspeito que eles serão eternos.” – Neil Gaiman”

 

[ATUALIZAÇÃO: Saiba um pouco mais sobre o livro: Diário Lendo Medo Clássico Vol. 1: Edgar Allan Poe ]

 

Compre na Amazon: Medo Clássico – Edgar Allan Poe.

 

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Janeiro 23, 2017

[RESENHA] ÚLTIMAS PALAVRAS, DE CHRISTOPHER HITCHENS

“Em 2010, o jornalista e polemista britânico Christopher Hitchens foi obrigado a interromper subitamente a turnê de lançamento de seu livro de memórias Hitch-22. O diagnóstico de um câncer em estado avançado determinava, então, uma guinada radical em sua vida. O intelectual bon vivant movido a nicotina e a álcool cedeu espaço a um estoico paciente em busca de cura – uma empreitada frequentemente árdua e desencorajadora, mas que foi encarada com destemor por Hitchens até o fim, em dezembro de 2011.
Por meio da coluna que assinou por anos na revista Vanity Fair, Hitchens não só assumiu a doença publicamente como passou a descrever a gradual deterioração da própria saúde decorrente do tratamento por quimioterapia – sem um pingo de sentimentalismo, mas com a contundência e o humor característicos de seu estilo. A coletânea desses artigos, bem como anotações esparsas deixadas pelo autor, compõe Últimas palavras, seu título póstumo.” 

Fonte: Globo Livros.

 

Há muito tempo ouço falar sobre Christopher Hitchens, mas não havia lido nada do autor até ver a indicação da leitura de Últimas Palavras feita pelo músico e escritor Tony Belloto à BBC Brasil, em uma matéria sobre como é ser ateu no nosso país.

“Volta e meia, alguns me provocam dizendo que, na hora da morte, apelarei para Deus. A esses, recomendo a leitura de ‘Últimas Palavras’, rebate Bellotto, citando o livro póstumo de seu ateu favorito, Hitchens.” (Tony Belloto)

 

Todo ateu ou agnóstico já ouviu que, em seus últimos momentos de vida, se converterá e reconhecerá Jesus Cristo (tomando como base o Cristianismo) como único Deus e Salvador. Particularmente, acho essa afirmação ridícula e desrespeitosa, e já era dessa opinião antes mesmo de abandonar a religião. O religioso, em sua febre por espalhar a palavra muitas vezes tira do seu semelhante o direito de pensar diferente. Além disso, nada me faz pensar que uma pessoa que vive praticando crimes e maldades, mas na última hora arrepende-se e aceita Jesus, consegue zerar a conta. Não acho justo, mas é bíblico e os religiosos em geral aceitam melhor uma pessoa assim a um ateu/agnóstico convicto.

 

“Em Últimas palavras, Hitchens, um dos grandes nomes do ateísmo moderno, ironiza detratores que associam o câncer a uma vingança divina, questiona o efeito prático das orações e revolta-se com a presença de crucifixos nos quartos de hospitais religiosos – mas se mostra grato pelas manifestações de solidariedade recebidas de pessoas das mais diversas crenças. Observador arguto do comportamento humano, reflete sobre como as pessoas tratam vítimas do câncer e arrisca sarcásticas dicas de etiqueta para esses casos. Defensor da ciência e da razão, comenta os avanços da medicina com admiração e uma ponta de esperança, enquanto critica o modus operandi das instituições e profissionais de saúde.”  Fonte: Globo Livros.

 

Christopher mostra em seu livro que os ateus continuam sendo ateus na iminência da morte e que considerar o câncer como castigo divino é cruel até para aqueles que se dizem cristãos, mas na verdade são fanáticos religiosos. Em poucas palavras, o autor demonstra da forma mais verdadeira que nós não temos um corpo, nós somos um corpo. Sendo um corpo, esperar pela morte, tendo a certeza de que ela está bem próxima, é mais natural e confortável quando não nos agarramos ao sobrenatural.

Chegando as últimas páginas é perceptível o esforço que Hitchens fazia para escrever enfrentando um tratamento tão cruel e doloroso como ele enfrentou. Sempre que possível, fazia piada. Disse não lutar contra o câncer, como é comum ouvirmos dizer. Na verdade, o câncer estava lutando contra ele. A publicação conta, ainda, com um lindo e emocionante prefácio de Carol Bleu, esposa de Christopher. Dificilmente alguém conseguirá ler sem se emocionar.

“Meu marido era um espetáculo difícil de acompanhar.” (Carol Bleu, sobre seu falecido marido, Christopher Hitchens).

 

“Ao escrever sobre si mesmo diante da expectativa da morte, Hitchens revela admirável desprendimento. Sem autopiedade, e com a mesma honestidade com que detalha sua decrepitude física, põe em xeque antigas convicções (como o enunciado nietzscheano “o que não me mata me fortalece”, que deixou de ter sentido para o autor depois das altamente debilitantes sessões quimioterápicas). A coragem da transparência, que havia pautado toda uma vida, manteve-se inalterada até o fim, como atestam as últimas – e talvez as melhores – palavras de Christopher Hitchens.” Fonte: Globo Livros.

 

 

SOBRE O AUTOR: Christopher Hitchens nasceu em 13 de abril de 1949 na Inglaterra e se formou no Balliol College da Universidade de Oxford. Escreveu mais de vinte livros e brochuras, incluindo coletâneas de ensaios, críticas e reportagens. Finalista do National Book Award de 2007, seu livro Deus não é grande: como a religião envenena tudo obteve sucesso internacional de vendas. Outro best-seller, o memorialístico Hitch-22, foi finalista do National Book Critics Circle Award de 2010. Sua antologia de ensaios selecionados, Arguably, de 2011, figurou na lista dos dez melhores livros do ano elaborada pelo New York Times. Foi colunista, crítico literário e editor colaborador de Vanity Fair, Atlantic, Slate, Times Literary Supplement, Nation, New Statesman, World Affairs e Free Inquiry, entre outras publicações. Morreu em Houston, em 15 de dezembro de 2011. Fonte: Globo Livros.

 

 

Título: Últimas Palavras
Autor: Christopher Hitchens
Tradução: Alexandre Martins
Páginas: 96
Editora: Globo Livros

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Janeiro 20, 2017

[RESENHA] OS OITO PRIMOS, DE LOUISA MAY ALCOTT

Os Oito Primos foi escrito por Louisa May Alcott (1832-1888), escritora norte-americana dedicada principalmente à literatura infantojuvenil, tendo sido publicado originalmente em 1875.  No Brasil, foi publicado em e-book pela Pedrazul Editora, em dezembro de 2016, com tradução de Michelle Gimenes.

A narrativa conta a história da jovem Rose, uma órfã vivendo com várias tias a espera de seu tutor, o tio Alec, que está em viagem pelo exterior. Ela é uma criatura frágil, delicada, e, desta forma, tratada como uma um boneca de porcelana por seus familiares, que acreditam que a menina é muito doente por sua pouca disposição. Rose não conhecia o tio Alec nem os primos, desta forma, temia o encontro com eles e os rumos que sua vida tomaria com todas as mudanças prestes a acontecer.

 

“Rose, de fato, tinha alguns motivos para estar triste, pois não tinha mãe e também perdera o pai recentemente, o que deixou-a sem outro lar além desse onde passara a viver com suas tias-avós. Ela estava na casa há apenas uma semana e, embora as estimadas senhoras tentassem fazer o possível para deixá-la feliz, não haviam obtido muito sucesso, visto que Rose não era como nenhuma outra criança que elas conheciam, e as tias sentiam como se tivessem que cuidar de uma melancólica borboleta.”

 

“Minha criança, não espero que você me ame e confie em mim logo de uma vez, mas quero que acredite que colocarei todo meu coração neste novo dever; e, se eu fizer algo errado, e provavelmente farei, ninguém sofrerá mais amargamente do que eu por esse erro. É culpa minha que eu seja um estranho para você, quando o que eu quero é ser  seu melhor amigo.  Esse é um dos meus erros, e  nunca me arrependi tão profundamente quanto agora. Seu pai e eu tivemos um desentendimento uma vez, e eu pensava que nunca fosse perdoá-lo; então, me afastei por anos. Graças a Deus, fizemos as pazes na última vez que o vi e, naquela ocasião, ele me disse que, se fosse obrigado a partir, deixaria sua garotinha sob meus cuidados como símbolo de seu amor. Não posso tomar o lugar dele, mas tentarei ser um pai para você; e, se aprender a me amar a metade do que amava aquele que você perdeu, serei um homem orgulhoso e feliz. Acredita nisso e está disposta a tentar?”

 

Rose é a única garota entre os primos, o barulhento Clã de sete rapazes. Ao descobrirem que o avô era escocês, os meninos aprenderam sobre a cultura da Escócia, tudo pela glória do Clã. Após conhecê-los a resistência inicial da jovem foi se dissipando, e ela pôde ver nos meninos amigos valiosos. A partir do experimento de tio Alec, que propunha criar Rose a sua própria maneira por um ano, sem interferência das tias, a menina desabrochou, e mostrou-se tão cheia de vitalidade quanto os primos. Alec não pretendia criar Rose nos moldes de criação das meninas da época. Para ele, além de aprender tarefas domésticas, a menina também devia ser livre para brincar e aprender sobre anatomia, por exemplo. Ao término do primeiro ano, Rose poderia escolher continuar com o tio Alec ou viver com alguma das outras tias. Nesta parte, é difícil até para nós leitores esboçar uma preferência, pois cada tia uma tem uma particularidade e contribui para a formação da jovem de sua própria maneira, sempre com muito afeto.

Os Oito Primos ressalta valores familiares e de amizade dos quais estamos muito carentes na atualidade. Por exemplo, em um dos capítulos Rose promete não usar mais brincos, adorno que ela gostava muito, caso os primos concordassem em não fumar. Ou quando deixou de participar de uma festa, para que a empregada Phebe fosse em seu lugar. Pode parecer uma coisa boba, mas abrir mão de uma coisa que se quer ou goste muito não é fácil nem comum. A história de Louisa May Alcott nos deixa esse tipo de lição ao mostrar o desenvolvimento dos jovens primos e suas aventuras.

Em uma rápida pesquisa no Google, vi que existe uma continuação da história Os Oito Primos, chamada Rose in Bloom. Na continuação, acompanhamos a protagonista Rose em sua vida na sociedade. Todos os nossos queridos personagens continuam na sequência, o que me deixou bastante animada para prosseguir com a leitura. Infelizmente, Rose in Bloom não foi publicado em português ainda. Fica aqui registrado o pedido para a Pedrazul Editora trazer mais essa história para o nosso idioma.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

https://pt.wikipedia.org/wiki/Louisa_May_Alcott

https://en.wikipedia.org/wiki/Rose_in_Bloom

 

 

Título: Os Oito Primos
Autora: Louisa May Alcott
Tradução: Michelle Gimenes
Páginas: 232
Editora: Pedrazul

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