fevereiro 27, 2016

[RESENHA] O ESCARAVELHO DO DIABO

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Divulgação Filme

 

O Escaravelho do Diabo, escrito por Lúcia Machado de Almeida e integrante da série Vaga-lume, é considerado um clássico da literatura infanto-juvenil nacional. Lançado em 1972, teve inúmeras reedições e volta a figurar nas listas de leitura atualmente devido ao lançamento da adaptação cinematográfica, prevista para estrear em abril deste ano.

 

A série Vaga-lume foi fundamental para a minha formação como leitora, junto aos gibis e as revistas com temática infantil do final dos anos 90. Contudo, sinceramente, não me recordo de ter lido este título específico de Lúcia Machado de Almeida, autora também de Xisto no Espaço, O Caso da Borboleta Atíria e Spharion. Resolvi ler, pois, sempre que possível, gosto de ler o livro antes de assistir ao filme.

 

Trata-se de um mistério que se passa na cidade de Vista Alegre, interior de São Paulo, onde uma série de assassinatos acometem pessoas ruivas. A primeira vítima é Hugo, e seu irmão, Alberto, estudante de medicina, passa a ajudar a polícia a desvendar o mistério das mortes que seguem a de seu irmão. Além da cor dos cabelos e da pele sardenta, outro fator comum entre os crimes é que uma caixinha com um besouro é enviada às vítimas, pouco antes de seus assassinatos.

 

Confesso que tinha as mais altas expectativas para esta leitura, mas não a considerei tão boa assim. Talvez, por ser um livro infanto-juvenil as pontas soltas no enredo devam ser perdoadas, mas algumas coisas me incomodaram nesta leitura:

 

1) As personagens femininas são muito mal desenvolvidas. São bobas, fúteis, altamente infantilizadas. O livro é de 1972, mas temos inúmeros exemplos de histórias muito mais antigas em que as personagens femininas são retratadas de melhor forma, principalmente levando em consideração que O Escaravelho do Diabo foi escrito justamente por uma mulher.

 

2) Alberto parece esquecer muito rápido a morte do irmão. Ele é mencionado poucas vezes, o que achei estranho. Descobrir o assassino era quase uma aventura para ele e seu relacionamento com Verônica também não foi muito interessante. Na verdade, em alguns momentos achei bem chato (muito também devido ao que mencionei anteriormente sobre as mulheres da história).

 

3) Alguns acontecimentos são muito corridos, desta forma, inverossímeis. Mas essa parte temos que dar um desconto, pois, é sempre bom lembrar, trata-se de uma história voltada ao público infanto-juvenil.

 

 No geral, a ideia do romance é muito boa. Fiquei animada para assistir ao filme, que, pelo trailer, mostra que foram feitas algumas alterações no enredo. Que venham mais adaptações dos nossos livros, o cinema nacional merece (e nós também!).

 

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 Título: O Escaravelho do Diabo
Autora: Lúcia Machado de Almeida
Editora: Ática
Páginas: 128

 

 

 

 

Saiba mais sobre o filme aqui!

 

 

Veja o trailer:

 

fevereiro 23, 2016

[RESENHA] MARGARET HALE (NORTE E SUL)

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Margaret Hale, ou Norte e Sul, é um romance escrito por Elizabeth Gaskell, publicado originalmente de forma seriada nos anos de 1854 e 1855. Esta edição lindíssima publicada pela Pedrazul Editora conserva o que seria o título “original” da obra, como nos informa a Editora Geral da Pedrazul, Chirlei Wandekoken: “Norte e Sul foi o título escolhido pelo seu editor pioneiro, o escritor londrino Charles Dickens, à época de sua publicação…”. (Nota da Editora)

 

Se Dickens, ao escolher Norte e Sul como título do romance, conseguiu influenciar e despertar um maior interesse do leitor da época, pelo sentido de oposição que tal título exprime, nunca saberemos. O importante é que, independente do título, a história que gira em torno de Margaret Hale é apaixonante e conquista muitos fãs até hoje.

 

Começamos com Margaret retornando à casa de seus pais depois de uma longa temporada na casa da tia, Mrs. Shaw, onde foi companhia de sua prima Edith, até que esta se casa.

 

A família Hale vive em um presbitério na idílica Helstone, onde tudo é calmo, verde e lindo! Você lê e tem vontade de ir para lá; dá até para imaginar os pássaros cantando!

“Oh, não posso descrever meu lar. É meu lar, e não posso colocar seu encanto em palavras.” (p. 15)

 

Mas tudo muda quando eles passam a morar na cidade industrial de Milton. O lugar é cinza, com muitas fábricas e parece triste e insalubre comparado a Helstone. Nesse contexto, Margaret e sua família precisam adquirir novos hábitos e superar o choque cultural de lugares tão opostos.

 

Na cidade, Mr. Hale, anteriormente pároco, passa a ser professor de jovens cavalheiros. A partir daí conhecemos Mr. Thornton, um importante industrial da cidade. A amizade entre eles é natural e instantânea. Já para Margaret, saudosa do aristocrático sul, é um pouco mais difícil reconhecer as qualidades de Thornton e de sua cidade.

 

Mr. Thornton era, talvez, o mais velho dos pupilos de Mr. Hale. Mas ele, certamente, era seu favorito. Mr. Hale adquiriu o hábito de citar as opiniões dele tão frequentemente, e com tanta consideração, que tornou-se uma pequena piada doméstica, imaginar quanto tempo, durante a hora apontada para a instrução, poderia ser dada ao absoluto aprendizado, já que tanto desse tempo parecia haver sido passado em conversação.” (p. 70)

“‘Não é orgulho da minha parte’, respondeu Mr. Thornton; ‘é o simples fato. Não negarei que sinto-me orgulhoso por pertencer a uma cidade – ou talvez deva dizer um condado – de cujas necessidades trouxeram à luz tais grandezas de concepção. Eu preferiria ser um homem labutando, sofrendo – ou melhor, falhando em sucesso – aqui, que levar uma próspera e monótona vida nos velhos entediantes redutos do que vocês chamam de sociedade aristocrática lá no Sul, com seus lentos dias de descuido e conforto. Pode-se ficar entupido com mel e incapaz de erguer-se e voar.’

‘o senhor está muito equivocado’, disse Margaret, desperta pela calúnia ao seu amado Sul e sendo levada a defendê-lo apaixonadamente, trazendo cor às suas bochechas e lágrimas raivosas aos seus olhos. ‘O senhor não sabe nada sobre o Sul. Se há menos aventuras ou menos progresso – suponho que não devo dizer menos excitação – provocados pelo espírito apostador do comércio, que parece requisito para forçar a criação destas maravilhosas invenções, há menos sofrimento também. Vejo homens aqui andando pelas ruas olhando para o chão, derrotados por algum lamento opressor ou preocupação – que não apenas sofrem, mas também odeiam. Agora, no Sul temos nossos pobres, mas não há aquela terrível expressão em seus semblantes de um doloroso senso de injustiça que eu vejo aqui. O senhor não conhece o Sul, Mr. Thornton’, ela concluiu, caindo em um silêncio determinado, e com raiva de si mesma por haver dito tanto.

‘E devo dizer que a senhorita não conhece o Norte?’, perguntou ele, com uma inexprimível gentileza no tom, já que ele percebera que a magoara.” (p. 82)

 

O que dizer de Mr. Thornton? É um personagem apaixonante! Honesto e sincero, desde o início percebemos os seus sentimentos e aflições, pois ele não os nega. 

“Hei de me colocar aos pés dela, preciso fazê-lo. Se houvesse uma chance em mil, ou em um milhão… eu o faria.” (p. 190) 

 

No meu caso, a leitura deste livro já estava sugestionada pelos comentários (e suspiros) sobre o casal Margaret e Mr. Thornton, mas o romance de Elizabeth Gaskell é muito mais que uma simples história de amor. Aqui temos também uma narrativa riquíssima sobre a revolução industrial, as condições trabalhistas da época, o início da organização sindical, greves e também sobre especulação financeira. Mr. Higgins e sua família formam um núcleo importantíssimo que exemplifica a situação das famílias pobres que viviam do trabalho árduo e insalubre que conseguiam nas fábricas.

 

Li com muitas expectativas e todas elas foram superadas! A história é maravilhosa, daquelas que você sente falta quando termina a leitura. Recomendo!

 

 

Título: Margaret Hale (Norte e Sul)
Autora: Elizabeth Gaskell
Tradução: Gabriela Alcoforado
Editora: Pedrazul
Páginas: 428
Avaliação: 5/5 estrelas e favorito

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Veja também:

Um Coração para Miltoncontinuação do romance de Elizabeth Gaskell, escrito por Trudy Brasure, publicado pela Pedrazul Editora!

Sinopse: “No século XIX, em meio a Revolução Industrial, um amor em meio ao caos. Margaret Hale e Mr. Thornton. Após a morte de seus pais, Margaret está de partida para Londres com sua tia, Mrs. Shaw, mas um livro precisa ser entregue a Mr. Thornton, das fábricas Marlborough; uma recordação de Mr. Hale para seu mais querido pupilo. Na despedida,  frente à Mrs. Thornton, Margaret entrega o livro ao industrial. Ele, numa tentativa desesperada de impedir sua partida, diz que também tem algo para ela e lhe entrega outro livro, e dentro dele, uma nota escrita às pressas. Margaret olha o volume, cujo conteúdo narrava os movimentos mercantis e os negócios na Europa, mas o aceita. Uma carruagem pelas movimentadas ruas de Milton; um cavaleiro enfrenta a neve em busca de um coração que pertence a ele e a Milton; uma aparição apaixonada na estação; e o retorno a Helstone. A vida de John e Margaret Thornton contada por uma por uma bisneta do casal. Um coração para Milton traz de volta todos os ricos personagens de Margaret Hale (Norte e Sul), de Elizabeth Gaskell: Nicholas Higgins, Hannah Thornton, Henry Lennox e muitos outros num romance histórico de amor e esperança.”

 

 

fevereiro 20, 2016

[RESENHA] SEJAMOS TODOS FEMINISTAS

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Sejamos Todos Feministas é uma versão adaptada da palestra que Chimamanda Ngozi Adichie ministrou em 2012, no TEDxEuston, conferência anual com foco na África. O E-book está disponível para download gratuito no site da Companhia das Letras e nas principais plataformas online. Também é possível adquirir a versão impressa a um preço bastante acessível.

 

O livro é muito importante para o momento atual do movimento feminista, pois ainda existe muita desinformação e a falsa crença de que o feminismo não é mais necessário, pois as mulheres já teriam conquistado tudo o que queriam e precisavam. Será?

“A palavra ‘feminista’ tem um peso negativo: a feminista odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana (no caso da autora), acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor, não usa desodorante.”

 

A mulher que se assume publicamente como feminista fatalmente já ouviu ou foi acusada de alguma das coisas descritas acima. Sendo homem, a situação fica ainda pior: sua masculinidade é posta em xeque porque homem não pode ser feminista. Muitas vezes o homem que apoia a causa é criticado por feministas que o acusam de roubar o protagonismo do movimento. A autora é brilhante na questão de colocar o feminismo como sendo responsabilidade de todos, pois a igualdade beneficia a ambos os sexos.

 

Chimamanda conta que um amigo, Louis, certa vez lhe disse: “Não entendo quando você diz que as coisas são diferentes e mais difíceis para as mulheres. Talvez fosse verdade no passado, mas não é mais. Hoje as mulheres têm tudo o que querem.” Em um jantar com este amigo, a autora resolveu dar uma gorjeta ao manobrista, que tinha feito um ótimo trabalho em estacionar o seu carro em uma área com poucas vagas. O rapaz imediatamente agradeceu a Louis, que apenas estava acompanhando Chimamanda. Surpreso com a situação, Louis questionou o porquê de o funcionário tê-lo agradecido, já que não havia sido ele quem deu o dinheiro. A partir daí ele percebeu que as coisas são sim diferentes entre homens e mulheres e que o feminismo ainda pode ser relevante nos dias atuais. Pode parecer uma coisa boba, mas é só um exemplo do machismo há muito tempo enraizado em nossa sociedade.

“De forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência. Quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos, mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.”

 

Ao longo da leitura percebemos o quão simples é o caminho para a mudança, ainda que ele seja repleto de percalços. Chimamanda fala daquilo que vivemos, com simplicidade e propriedade. Em tempos de opiniões confusas e mal embasadas em redes sociais, é muito bom ter um texto lúcido e esclarecedor sobre um tema tão importante. Em alguns momentos a fala da autora pode até parecer demasiadamente óbvia, mas de vez em quando alguém tem de dizer o óbvio para que continuemos seguindo em frente. 

 

Título: Sejamos Todos Feministas
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Christina Baum
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 24

 

Se você não puder ler o livro no momento, veja a palestra que o deu origem abaixo (legendado em português):

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