dezembro 08, 2017

[RESENHA] OLHOS D’ÁGUA, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Sinopse: “Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.”

 

Conceição Evaristo foi uma grata descoberta que fiz neste ano de 2017. Tendo lido apenas (até o momento) o livro Olhos d’água, já me tornei fã da autora. Para escrever essa resenha, reli todos os contos. E não foi nenhum sacrifício, posso garantir.

Olhos d’água, antologia de contos de Conceição Evaristo, publicada pela primeira vez pela Pallas Editora em 2014 e sendo reimpresso várias vezes desde então, é o tipo de livro que incomoda. Faz chorar, ter medo, desperta empatia. Quando terminei a leitura, prometi a mim mesma que, se um dia eu for professora, todos os meus alunos conhecerão esse livro. Caso eu não seja, ele fica mais que recomendado aqui no blog. A autora da voz e vez a uma parcela da população que historicamente é silenciada. E os contos são de uma escrita tão precisa e tão poética que é impossível não se emocionar.

 

“Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

(…)

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra.” (ps. 18 e 19)

 

“Ela é que não ia ficar ali assentada. Se as pernas não andam, é preciso ter asas para voar.” (p. 32)

 

As mulheres criadas por Conceição Evaristo, e os homens também, embora em menor número, falam de temas sociais e existenciais de uma forma que os personagens poderiam ser qualquer pessoa. Poderia ser eu, ou você. A dureza da vida, a fome, a violência, os abusos e a linha tênue da permissão. A perda precoce da infância. O amor em várias formas, a morte e a condenação sem justiça. Todos esses temas e alguns outros estão presentes em Olhos dágua. Dentre tantas lágrimas, com a leitura desse livro eu também passei a me questionar qual era a cor dos olhos de minha mãe.

Olhos d’água  tem prefácio de Heloisa Toller Gomes e introdução de Jurema Werneck. São quinze contos que, se não conseguirem te fisgar por sua sensibilidade, pelo menos vão mostrar uma faceta realista e pela voz de quem sente na pele o que é ser negro em um país como o Brasil.

 

 

SOBRE A AUTORA: Conceição Evaristo nasceu em uma favela da zona sul de Belo Horizonte. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ.

Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série Cadernos Negros, publicada pela organização.

É Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.

 

 

Título: Olhos D’água
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Páginas: 116

 

Compre na Amazon: Olhos D’água.

dezembro 04, 2017

[CONTO] CAPÍTULO EXTRA DE O MATADOR NOTURNO

 

Pensando em transformar O Matador Noturno em e-book para a Amazon, eu escrevi, há algum tempo, um capítulo extra para a história. O conto tinha alguns furos e uma questão mal explicada, que eu só consegui desenvolver depois de finalizar a história no Wattpad. Eu escrevia os capítulos semanalmente e os postava quase imediatamente após escrever, fazendo só uma revisão simples. Foi uma experiência muito bacana, mas também desesperadora em partes. Histórias policiais são uma delícia de escrever, mas requerem o triplo de atenção para ficarem convincentes. Mesmo que o intuito, como o que eu tive ao escrever O Matador Noturno, seja apenas divertir e entreter.

O Matador Noturno passou pela revisão da Clara Taveira e do Raphael Pellegrini, do Capitu Já Leu, e ganhou algumas modificações sutis no enredo, além do capítulo extra. Eu resolvi não comercializá-lo, mantendo-o, assim, para leitura gratuita no Wattpad.

 

Para ler o primeiro capítulo postado aqui no blog, clique aqui.

Para ler a história completa no Wattpad, clique aqui.

 

Essa sou eu encarnando o Almeida.

 

Capítulo Extra – O Matador Noturno

 

Algumas semanas antes, na noite da morte de Bicalho…

 

Deise sabia que não era uma boa ideia ir até a delegacia. Mas ela precisava falar com Bicalho. Falar a sós. Desde o rompimento deles e desde a morte de Evangeline, ela não teve sequer um minuto em que pudesse conversar com ele às claras. Ainda guardava a chave do escritório do delegado em sua bolsa e sabia que ele costumava passar as horas que não queria ficar em casa com Patrícia na própria delegacia. Bicalho era um garotão privilegiado. Sempre conseguiu o que queria, na hora que precisava. Tinha dinheiro sem precisar batalhar por ele e poder sem merecê-lo. Qualquer investigador que precisasse fazer hora extra sabia que o delegado fazia do escritório o quintal de sua casa. Ironicamente, ou não, a delegacia era o lugar mais seguro para conversas, encontros e falcatruas. Mas apenas suas mulheres tinham a chave da porta.

Inspiração. Respiração. O cérebro de Deise sofreria uma pane assim que os olhos dela cruzassem com os de Bicalho. Não conseguia pensar direito perto dele. Duas batidas de leve na porta. Discretamente enfiar a chave na fechadura e entrar no escritório. Todos os passos de Deise haviam sido ensaiados.

— Boa noite – Deise falou com sua voz aveludada. Bicalho demorou a levantar o olhar da gaveta. Olhou para Deise um tanto surpreso. A barba estava por fazer e a roupa levemente desalinhada. Ouvia música clássica, como sempre fazia.

— O que você quer aqui? Não lembrava de que ainda tinha a chave do meu escritório – Bicalho respondeu, tentando não ser muito rude e falhando neste propósito.

— Quero conversar com você. Faz tanto tempo que não conversamos a sós – Ela disse docemente, aproximando-se da mesa.

— Que conversa é essa, Deise? Não tenho mais paciência para charminho seu, não… e você não deveria mais vir até aqui em horários impróprios ou usar essa chave – Bicalho disse, apontando distraidamente para a mão de Deise, que guardava a chave como um bem valioso.

— O que é isso, Bicalho? Esqueceu de tudo, esqueceu quem eu sou? Não lembra mais de nós dois? – Deise sussurrou e tocou levemente as mãos do delegado, a grande e imponente mesa do escritório os separando – Quero saber como você está. Sinto sua falta. Estou disposta a esquecer o seu deslize com a modelo. Poderíamos continuar de onde paramos.

Deise pronunciou cada frase como se estivesse fazendo uma prece. Não lhe agradava nem um pouco a ideia de se humilhar, mas por Bicalho… pelo delegado, ela faria coisas inexplicáveis sem ao menos pestanejar. Deu a volta na mesa e sentou nela, bem em frente a Bicalho, esperando que eles voltassem a ser os amantes que sempre foram.

Bicalho deu um sorrisinho irônico, acariciou o rosto de Deise, trazendo-a até si para beijá-la. A mulher estava ali, praticamente entregue a ele, que não resistiu e falou ao pé do ouvido:

— Você não vale um real velho e furado.

Respirou e se recostou em sua cadeira, os olhos brilhando em deboche da cena patética protagonizada pela antiga amante.

— Você não tem o direito de falar assim comigo. Eu não sou um chiclete que você pode jogar fora quando bem entender. Nós tínhamos uma relação, e você jogou tudo fora por uma vagabunda de biquíni – respondeu Deise, ainda sentada no mesmo lugar.

— Deise, querida, não venha bancar a mulher traída e ofendida. Preciso te lembrar de que você também é casada? Que a sacanagenzinha que a gente fazia ocasionalmente já deu o que tinha que dar? Você frequenta a minha casa e eu frequento a sua, mas parece que eu sou mais amigo do seu marido que você é da minha esposa. Você fantasia demais! Pinte um quadro, faça um curso de culinária ou escreva um romancezinho fuleiro desses que você gosta de ler.

Deise olhou para o lado, a gaveta aberta tinha uma foto de Evangeline.

— Nem morta essa mulher vai sair do meu caminho? Quantas mais você vai ter até perceber que sou eu a certa para você? – perguntou Deise.

— Não seja patética, Deise. É isso o que você é: patética – disse Bicalho, rindo. – Não me crie problemas. Você sabe, sou um fotógrafo e um saudosista. Tenho lembranças nossas lá em casa.

— Você é um nojento. A pessoa mais repugnante que eu já tive o desprazer de conhecer – disse Deise, entredentes. – Eu também tenho lembranças suas, de momentos que eu não participei, mas que você e o Vitório parecem ter se divertido muito.

Todo o bom humor que Bicalho ostentara até então se esvaiu com a fala de Deise.

— É bom ter cuidado com o que diz, Deise. Você pode não ver o nascer do sol se achar que sabe demais.

— E seria bom se você soubesse escolher as suas mulheres, Bicalho. Nem todas são como a Patrícia. Ou essa defunta aí da gaveta – disse Deise, fazendo menção de se retirar do escritório.

— Nossa conversa ainda não terminou, Deise.

— Não mesmo, delegado. Não mesmo.

 

***

 

Deise saíra arrasada da delegacia, não pensava que poderia chegar tão longe por causa de Bicalho. Tudo de ruim em sua vida era por causa dele! Ele era a razão de todos os seus problemas, de todas as suas confusões. Procuraria Patrícia para conversarem e dormiria na casa dela. Precisava estar na companhia de alguém, e a amiga era a sua melhor opção no momento.

— Deise! O que você faz aqui tão tarde? – perguntou Patrícia.

— Preciso de um lugar para dormir, briguei com o Vitório — respondeu Deise.

— Tudo bem, entre. Preciso mesmo falar com você – Patrícia disse, olhando no fundo dos olhos da amiga.

A casa de Patrícia e Bicalho era lindíssima. Eles eram um casal peculiar, embora fizessem questão de manter as aparências. Havia bastante tempo que dormiam em quartos separados. As duas foram até o quarto onde dormia o delegado.

— O que você está querendo, Patrícia? – Deise perguntou, tentando parecer interessada.

— Quero te mostrar uma coisa – respondeu Patrícia.

Patrícia pegou uma bela caixa de madeira, trancada com um cadeado. As duas sentaram na cama, com o objeto entre elas.

— O que tem nesta caixa? – Deise perguntou, embora temesse a resposta.

— Preciosidades do nosso bem mais precioso – Patrícia disse, sorrindo. Não tendo uma resposta de Deise, emendou – Bicalho.

— Não estou entendendo, Patrícia. Acho melhor dormirmos, já está tarde – Deise tentou se esquivar.

— Bicalho troca ocasionalmente o cadeado desta caixa. É um baú de carvalho, o famoso pau de dar em doido, já ouviu falar? É uma madeira muito resistente. Não é inquebrável, mas é muito resistente.

— Você já viu o conteúdo dessa caixa? – perguntou Deise.

— Sim.

— E o que tem nela? – Deise precisava saber.

— Fotos. Sabe, desde que o Bicalho fez um curso de fotografia, ele adora registrar tudo. Mas aqui, nessa caixa, ele guarda as fotos mais delicadas e raras para ele. Você é uma das musas, achei que gostaria de saber. Está no hall das exclusivas, junto a mim e a modelo que morreu – disse Patrícia, calmamente.

— Há quanto tempo você sabe? – perguntou Deise.

— Eu vou te dizer. Mas antes receba os meus parabéns por não tentar justificar o injustificável. Bicalho faria isso, se estivesse em seu lugar. Os homens são assim.

— Há quanto tempo você sabe? – insistiu Deise.

— O que eu posso dizer? Eu sei os segredos do meu marido. Acaso você sabe os do seu?

Deise não respondeu. Colocou sua bolsa em cima da cama e a abriu.

— Já que estamos compartilhando segredos, e tendo a pensar que já compartilhamos segredos demais, quero te mostrar duas coisas – disse Deise.

— Sim, o que é? – perguntou Patrícia.

Deise mostrou a cópia da chave do escritório de Bicalho a Patrícia e a colocou ao lado da caixa. Depois, fez o mesmo movimento, mas com uma pistola e um silenciador.

dezembro 01, 2017

[LANÇAMENTO] O DIA EM QUE CONHECI MEU PAI PELA SEGUNDA VEZ

Sinopse: “O dia em que conheci meu pai pela segunda vez” é uma antologia de contos e primeiro livro escrito pela autora Tamires de Carvalho. São narrativas inspiradas nos ‘causos’ de polícia que seu pai adorava contar e que mostram como a profissão de policial militar pode moldar o caráter e a personalidade de um homem. Do início ao fim, o dia a dia de abordagens, perseguições e conflitos de exercer esta profissão.

 

Já está disponível em e-book na Amazon O dia em que conheci meu pai pela segunda vez! Esse foi o primeiro livro que eu escrevi, e ele foi inspirado nos causos de polícia do meu falecido pai. Inclusive, a primeira postagem aqui do blog foi do conto que dá nome ao livro.

Estou tão feliz com essa publicação que, como em poucas vezes na minha vida, não sei nem o que dizer. Leiam, avaliem e compartilhem! Espero que gostem. Escrevi com todo o meu coração.

 

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O Dia também tem playlist no Spotify! Confira abaixo:

 

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