junho 13, 2017

[LANÇAMENTO] UM COCHEIRO EM PARIS, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 3, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Quando o duque de Belvoir teve que sair às pressas da casa de Juliette Drouet, a amante de Victor Hugo, para não ser pego em flagrante pelo próprio escritor, sua única alternativa foi dirigir a própria carruagem pelas vielas de Paris. O que ele não esperava, contudo, era que tivesse que socorrer uma dama que acabara de chegar à cidade. A carruagem do Hôtel de Ville, que fora buscá-la no porto, havia quebrado um eixo e ele passava no exato momento do acidente. Não teve alternativa senão esconder a sua identidade, pois a jovem estava acompanhada justamente da ordinária baronesa viúva de Patchetts, uma antiga vizinha do duque seu pai, no Norte da Inglaterra. Tudo o que ele — o duque inglês bastardo — não podia, naquele momento, era ser reconhecido. Assim, apresentou-se como o cocheiro do conde Filippo Raspail e prestou socorro às damas.

Fruto da relação de um poderoso duque inglês, que não tivera filhos no casamento, com uma cortesã francesa, Belvoir — assumido pelo pai — vivia uma vida desregrada em Paris. Embora na juventude tivesse tido certa proteção moral por parte dos amigos, o duque de Prudhoe e o conde de Northumberland, sofrera muita rejeição da aristocracia britânica, sendo chamado de ‘lorde bastardo’. Por isso, tinha convicção absoluta de que nunca se casaria com a filha de nenhum deles. Belvoir só não contava que Harriet Neville, a lady que socorrera, se apaixonaria de verdade por ele, mesmo achando que fosse um humilde cocheiro.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de Um Cocheiro em Paris, terceiro livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

 

Paris, 1830.

 

Oliver Ashlie Stanhope, o duque de Belvoir, saltou pela janela da mansão de Juliette Drouet e caiu na escuridão da noite. Até mesmo para a cidade mais moderna da Europa aquela não era uma situação comum. A não ser que se tratasse de um incêndio. Não era o caso.

No meio da noite — e ainda por cima nu — Belvoir fazia bela figura. De cima de seus quase dois metros de altura, sua pele clara e seus cabelos loiro-escuros reluziam sob a luz da lua. Seus olhos de um azul-acinzentado estavam turvos de raiva de si mesmo.

Praguejava baixinho sua loucura em dormir com a mulher alheia. Mas Juliette o provocara durante toda a noite. E no que havia dado? Depois de terem se ‘conhecido’ sob os lençóis parisienses, cerca de uma hora antes, tivera de juntar suas roupas atabalhoadamente e arremessar-se no vão escuro da janela, pois os passos do próprio escritor na escada já eram audíveis no quarto da dama.

Andando às pressas vestiu-se parcialmente e alcançou sua carruagem. Mas o cocheiro tinha desaparecido. Não tinha alternativa a não ser conduzi-la ele mesmo. Se fosse pego seria um escândalo e ele estava cheio dos rumores. Não que aquele seu pecado recente fosse uma injúria. Daquilo ele era culpado. Mas que culpa tinha de ser filho de uma cortesã francesa e de um duque inglês?

Na margem direita do rio Sena, no Quartiers du Châtelet, esquina com as ruas Rosiers e La Place Forte, ele se deparou com uma carruagem que acabara de se envolver num grave acidente.

– Maldição! Mais essa, agora! – murmurou, enquanto jogava sua carruagem na direção da rue La Place Forte, pois a carruagem quebrada interceptava justamente a que ele tinha que passar. Os cavalos estavam agitados e pareceu-lhe que havia feridos.

Correu até lá. Seus cabelos desalinhados pelo sexo selvagem de pouco antes, sua calça meio aberta e a camisa solta davam-lhe um ar de desleixo. Ajudou o ferido cocheiro a desamarrar e soltar os cavalos, pois estes estavam arrastando o veículo tombado, e depois a se sentar à margem da rua. Abaixou-se, então, para socorrer as vítimas. Ouviu duas mulheres, uma proferindo gritos histéricos e outra tentando acalmá-la.

– Já vão nos tirar daqui, tia. Acalme-se! Assim a senhora está assustando ainda mais os cavalos — disse a voz calma e consoladora.

– Para o inferno esses malditos animais. Têm que ser sacrificados. Como se atreveram a jogar a baronesa de Patchetts de cabeça para baixo? Aquele maldito cocheiro vai me pagar! — retrucou a histérica, aos gritos.

– Tenho absoluta certeza, tia, que o coitado não teve culpa alguma. Tente se acalmar, por favor.

– Acalmar? Eu sou a baronesa de Patchetts, exijo respeito…

Belvoir deu um passo para trás. Céus! O que essa maldita baronesa está fazendo na França?

– Por favor. Pode nos tirar daqui? – uma voz doce se sobressaiu à gritaria e aos insultos da baronesa. Ele não podia deixar de socorrer.

– Onde está o maldito cocheiro? – gritou a baronesa.

– Ele se feriu, madame. Quebrou a perna. Se ficar calma eu a tirarei logo daí – respondeu Belvoir, abaixando-se ao lado da portinhola.

– E quem é você? Outro cocheiro, certamente! Tire-me daqui, seu bastardo – ela protestou. A mulher não poderia ter escolhido uma palavra mais adequada se quisesse atingir Belvoir em cheio. Ele teve vontade de dizer quem era e colocar aquela ‘maldita’ dama no devido lugar.

– Sim, madame, sou um simples e maldito cocheiro. Se permanecer calma sairá em segurança. Tenho que buscar ajuda. Se eu virar a carruagem sozinho é possível que se machuquem. Estão em quantas pessoas aí?

– Duas pessoas, monsieur. Muito obrigada – respondeu lady Harriet Neville, a dona da voz que tanto impressionara Belvoir. Mas a baronesa prosseguiu gritando, dizendo que estava sufocando, que jamais voltaria a andar e muito menos colocar seus pés em Paris.

Enquanto procurava ajuda nos arredores da La Place Forte, Belvoir lamentava-se. Com milhões de pessoas no mundo eu tinha logo que me deparar com a ordinária baronesa viúva de Patchetts? E qualquer mal que pudesse lhe ocorrer, por que tinha de ser logo aquele, no pior momento possível? Encontrar a antiga vizinha do duque, seu pai, do Norte da Inglaterra! Logo a maior mexeriqueira do reino, que havia espalhado para toda a sociedade o segredo de sua paternidade? Sim, ele pecara, saíra com a amante de outro homem, mas não era um pecado tão grande assim, pois o próprio escritor era um adúltero, tentava se justificar diante da Providência divina.

Filho bastardo de duque inglês com Justine Oldoini Rapallini Bienfait, ou simplesmente “condessa di Bienfait”, ele fora o escândalo da Inglaterra havia alguns anos. Tinha fugido para Paris para ter um pouco de paz. E agora ele teria que salvar exatamente a causadora de sua desgraça… Belvoir conjecturava. E se a deixasse de cabeça para baixo? Quanto tempo ela levaria para morrer sufocada por suas próprias papadas? Não podia fazer aquilo. A despeito de dormir com as amantes de outros homens, ele era honrado. E tinha a outra moça, a dona da voz suave. Ele avistou um coche e acenou. Logo, mais pessoas se juntaram a ele para virar a carruagem avariada. Para sua surpresa, a carruagem a serviço da baronesa era a do Hôtel de Ville, o mesmo hotel onde ele sempre ficava hospedado em Paris. Em meio aos brados da baronesa, ele se dirigiu à dama mais jovem:

– Está machucada, mademoiselle? Segure em mim, vou carregá-la até a outra carruagem – disse.

Lady Neville colocou sua mão de leve no braço dele. Ele levantou-a e a carregou até sua carruagem. Ela estava com alguns arranhões no braço esquerdo e sua testa sangrava. Mas mesmo ferida, Harriet não deixou de notar que o seu salvador era muito atraente e corou.

– Está ferida? – Belvoir assustou-se quando viu o sangue. Imediatamente retirou sua camisa e levou-a suavemente ao rosto da jovem.

– Desculpe-me, mademoiselle – disse ele assim que percebeu que ela olhava assustada para seu peitoral nu. Porém, quando ele acompanhou o olhar da moça viu que suas calças estavam abertas e que ela tinha visto algo que a fez enrubescer até a raiz dos loiros cabelos.

Pardon, mademoiselle, não foi intencional – ele desculpou-se.

– Tudo bem… – lady Neville conseguiu pronunciar. – Obrigada por ajudar-nos.

– Sabe como ocorreu o acidente? – ele perguntou.

– Não sei, monsieur. Senti só o solavanco e fomos jogadas no chão.

– Deve ter quebrado o eixo da roda – disse ele.

Nesse momento, a baronesa chegou auxiliada por outras pessoas, entrou na carruagem de Belvoir, e gritou:

– Vamos logo com isso, rapaz. Para quem você trabalha? Como ousa ficar nu na frente de duas damas?

– Acalme-se, tia. Ele me deu a camisa para estancar meu ferimento, fez-me um favor…

– Sou o cocheiro do conde Filippo Raspail, madame, ao seu dispor – disse Belvoir.

– Espere aí, eu o conheço… – disse a baronesa. Belvoir sobressaltou-se. Havia anos não encontrava aquela víbora. Será que ela ainda o reconheceria?

– Não, não pode ser. É apenas parecido com ele… Também, aquele lá! Não duvido que tenha feito centenas de bastardos pelo mundo – resmungou a baronesa.

– O que disse, madame? – perguntou Belvoir.

– Nada, nada, nada de seu mundinho. Vamos logo, rapaz! Suba aí e nos leve para o Hôtel de Ville.

– E o cocheiro do hotel? – perguntou Belvoir olhando em volta à procura do homem ferido.

– Deixe-o morrer por aí! – ordenou a baronesa, com irritação.

– De forma alguma, madame. É meu colega de profissão e prestarei o devido socorro — Belvoir retrucou na hora. Foi até o homem sentado na margem da rua, pegou-o no colo e o colocou em outra carruagem que parara ali perto para também ajudar. Deu um dinheiro ao condutor, pediu-lhe que prestasse socorro e que depois o procurasse no Hôtel de Ville se houvesse outras despesas. Voltou, subiu no seu assento e rumou com as duas para o hotel.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

Links para comprar a série O Quarteto do Norte:

A Estrangeira (Livro Impresso);

A Estrangeira (E-book);

A Ama Inglesa (E-book);

Um Cocheiro em Paris (E-book);

Fronteira da Paz (E-book).

junho 08, 2017

[LANÇAMENTO] A AMA INGLESA, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 2, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Desde pequena, a menina Leonora se perguntava por que sua mãe sabia ler e escrever em dois idiomas e o pai sequer sabia ler em um deles. Instruída pela mãe francesa, a filha de um simples cuidador de cavalos muito cedo se vê sozinha no mundo, à mercê de uma tia autoritária e de um padrasto violador. Um encontro na infância provoca uma reviravolta em sua vida e ela vai trabalhar como ama da duquesa viúva de Pudhoe, uma dama autoritária, mas que a respeitava. Entretanto, quando lady Muriel Browne chega de Londres para passar uma temporada em Pudhoe Castle, no Norte da Inglaterra, tudo à sua volta muda. Leonora começa a ser destratada pela duquesa e até pelos outros servos, até então seu amigos.

Numa noite gelada em Newcastle, sem ter para onde ir, ela acaba se abrigando no celeiro, aconchegada à vaca da duquesa, para não morrer de frio. Ali ela é acordada brutalmente pelo capataz da propriedade e amparada por aquele cuja imagem permeara seus pensamentos durante cinco longos anos, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido em toda a Europa por Lorde Perverso. Mas Leonora não o via assim. Pelo contrário. Achara-o caridoso. Afinal, se não fosse por ele, certamente não teria sobrevivido àquela noite.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de A Ama Inglesa, segundo livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

Newcastle, Inglaterra, 1828.

 

Leonora não sabia dizer o que era pior: ter um padrasto desprezível que a queria violentar ou uma mãe fraca que fingia não ver. Desde que fugira de casa há três dias, ela tentava, sem sucesso, perdoar a mãe – na verdade a tia que a criara e ela chamava de mãe –, mas não conseguia: onde já se viu ficar do lado do homem que tentara violentar a própria filha?

Deitada sobre o feno de uma fazenda, numa noite fria, ela tenta esquecer os últimos dias ou seriam os últimos 10 anos? Desde que seu pai morrera a vida não tinha sido gentil com ela. Agora com pouco mais de 18 anos tinha acabado, literalmente, na sarjeta, dormindo nos lugares mais inusitados, como esta noite na companhia de uma vaca. Sorte dela que não era um animal qualquer, mas a vaca que a duquesa de Prudhue tinha ganhado do marquês de Valnoré e a quem ela dava mais valor que a própria criadagem. Caso contrário, ela iria congelar, pois era uma noite fria até para os padrões de Newcastle.

Pensando no que fazer quando o dia clareasse, encostada à vaca que emitia um calor reconfortante, Leonora não percebera que voltara a cochilar. Acordou com vozes e com alguma coisa gelada cutucando suas ancas. Olhou assustada e deu de cara com dois pares de botas, um do capataz de Prudhoe Castle e o outro do dono dos olhos mais desconcertantes em que ela já tinha posto seus jovens olhos. O capataz gritou:

—Mais que desgraça é essa? Uma mulher dormindo com a vaca da duquesa! O que faz aqui? Ah, é você, sua bruxa? Levanta já daí — gritou o homem com as faces tão vermelhas quanto o pudim que a mãe verdadeira, quando viva, fazia de framboesa. Sob forte admoestação que o cavalheiro fazia — pois Leonora sabia que se tratava de um —, sobre o tratamento dado a ela pelo empregado, ela sem emitir sequer um pedido de desculpas, levantou-se, recolheu sua trouxa e saiu tão depressa quanto seus membros rígidos de frio permitiram. Não ousou olhar para o cavalheiro, embora achasse que já o tivesse visto e, talvez, exatamente por essa razão.

Levou um choque quando percebeu que, além do frio do outono no Norte, ainda chovia. Assustada, envergonhada como nunca estivera antes, e desconcertada por ter sido pega dormindo na propriedade alheia e ainda por cima com uma vaca, ela fingiu não ouvir quando o cavalheiro a chamou. Continuou andando — quase correndo — em direção ao portão, o mesmo que ela havia pulado na noite anterior para se abrigar no celeiro.

— Faça alguma coisa, Jordan. A moça vai morrer congelada — bradou o cavalheiro para o capataz.

— Moça, moça! Raios, olha o que você fez com essa sua grosseria, Jordan! Onde já se viu tratar uma moça com esses modos! Volte aqui, miss! Você vai ficar doente.

Leonora havia feito a curva em direção à saída da propriedade. Não sabia para onde iria, mas preferia morrer a abrir mão do resquício de dignidade que possuía. Onde já se viu ser acordada com chutes! Ele que vivesse o resto de seus dias com a culpa de sua morte na consciência, ela morreria de qualquer forma mesmo, pois, como sobreviveria àquele maldito inverno? Sem abrigo certamente congelaria.

— Raios! Maldição! Não me faça ir aí te buscar — ela o ouviu dizer quando jogava sua trouxa sobre a porteira e subia para pulá-la. Mas quando a pessoa nasce com falta de sorte, e aquele era o seu caso, nada dava certo, portanto, ela escorregou e caiu do outro lado exatamente numa poça de lama. Lá se foi meu resquício de dignidade.

Quando, na tentativa de sair daquela posição humilhante, ela apoiou um braço para se levantar, percebeu que não conseguia agarrar sua trouxa. Foi aí que Leonora concluiu que algo de muito grave tinha acontecido com seu ombro: tinha caído sobre ele e seu ombro direito agora também estava caído. A dor era excruciante e, numa segunda tentativa, embora tivesse conseguido ficar de pé, ela não conseguiu pegar seus pertences. Não que fosse uma trouxa grande, pois ela só tinha dois vestidos, mas seu ombro estava, de fato, fora do lugar. Abandonou a trouxa onde estava e deu alguns passos trôpegos esperando cair e morrer a qualquer momento de hipotermia, pois já não sentia suas extremidades, aliás, sentia apenas uma dor que entorpecia sua mente. Caiu. Ele chegou ao seu lado. Ela não escutou o tropel das patas do seu cavalo, mas sentiu quando ele a tomou nos braços. Estava todo molhado, mas seu corpo era forte e quente.

— Diacho de mulher! Quer se matar e me levar junto? — disse ele enquanto gritava ordens para o capataz.

— Corra na frente e abra o raio da porta, faça alguma coisa, homem! Mande esquentar água, chame a governanta, peça algo quente para ela beber.

Minutos depois, Leonora estava em um quarto quente, cuja lareira crepitava, viu-se ficando nua e sendo enrolada em alguma coisa bem quente. Seus dentes batiam tanto que ela não conseguia balbuciar nenhum protesto, tampouco, nenhum agradecimento. Uma banheira fumegante era preparada por duas criadas que ela conhecia, algo era levado aos seus lábios, e uma voz de homem ordenava que ela tomasse algo quente e doce. Foi só muito depois que ela se deu conta de que fora ele quem a despira, que a alimentara, que a colocara numa banheira quente, e que ela esteve nua na frente do cavalheiro mais formidável do mundo.

Entretanto ele não sorria, muito pelo contrário, parecia estar com muita raiva. Olhava para ela, mas não com aqueles olhos malévolos que seu padrasto a olhava, o cavalheiro a olhava, mas ela não sabia explicar o que via naqueles olhos.            Quando ela já estava deitada, seca, limpa, aconchegada em meio a muitas mantas macias e quentes, uma criada chegou e deu-lhe algo para beber. Ele pegou a xícara, levou aos lábios, foi só então que Leonora se deu conta de que ele também devia estar com muito frio, pois toda a roupa dele estava molhada e cheia de uma lama negra.

— Sua Graça — disse a governanta, Leonora sabia que se tratava da governanta, pois também a conhecia muito bem — tire essa roupa molhada, senão ficará doente.

Foi aí que ela soube que tinha sido socorrida pelo próprio duque, o poderoso duque de Pudhoe, conhecido por lorde Perverso, a quem ela havia conhecido há muitos anos, tempo demais para ele mudar tanto a ponto de ela não mais o reconhecer, nem ele a ela. Embora sua antiga imagem estivesse sempre em sua memória. Nos anos em que ficara sem vê-lo, contudo, soube de sua fama. O nome do lorde corria por todos os lados, a notícia de que ele tinha abandonado uma dama no altar, ou quase no altar, um casamento arranjado pelo falecido duque, que o lorde não aceitou desposar, correra a quatro ventos. De forma que todos o acusaram de perverso, pois havia desobedecido ao pai e humilhado a filha de um conde, deixando-a nas vésperas do casamento, e fugido para o Continente.

Todavia Leonora não o achara perverso, muito pelo contrário, ele tinha sido caridoso para com ela, afinal, se não fosse por ele, ela estaria morta de frio.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

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junho 06, 2017

[RESENHA] ALINA, DE EMILIA LIMA

Sinopse: “Amor e paixão no Brasil colonial!
Ambientada na Bahia século XVI, com passagens em Lisboa, Alina conta a história da família Cirilo, que veio de Portugal com o intuito de ajudar na colonização do Brasil. Alina Cirilo amou o jovem advogado Pedro Garcia desde a primeira vez que o viu – um grande amor, porém, proibido. Apaixonada por Pedro, com quem havia se deitado, ela é enviada pelo pai para longe, mas já levava a semente dele dentro de si. Sem escolha, longe de casa, vivendo em meio aos índios, ela conhece Naru, um mestiço com modos de fidalgo. Sozinha, carente, ela deixa-se conquistar pelo jovem belo e doce mestiço, embora nunca tenha esquecido Pedro. Amor, laços familiares, renúncias, traições e reencontros surpreendentes.”
 

 

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O mercado literário tem oferecido muitos títulos de romances históricos e de época para nós leitores, entretanto, a ambientação das histórias acaba sendo muito parecida entre eles: massivamente em terras (e contexto social) inglesas. Isso não é ruim, muito pelo contrário, mas há algum tempo tinha a vontade de ler uma história mais próxima de mim. Então soube que a Pedrazul ia relançar Alina, da escritora baiana Emilia Lima, muito elogiado em grupos de literatura internet afora. Como tratava-se de uma nova edição totalmente revista e ilustrada, esperei para ter esse livro em mãos e iniciar a leitura. Foi incrível!

Alina é o primeiro volume da série Família Cirilo, e é um romance muito lindo, cheio de verdades sobre a vida e os sentimentos humanos. A protagonista, longe de ser uma mocinha típica dos livros de época, é uma pessoa real, quase tangível. Tive a sensação que ela poderia ser eu ou qualquer outra mulher, seja da época da colonização do Brasil ou de agora. Sinceramente falando, este foi o primeiro livro em que a personagem principal fica dividida, se é que posso colocar desta forma, entre dois homens e eu não sinto vontade de largar a leitura. Apesar de bem jovem, Alina tem uma maturidade muito grande e é uma mulher honesta, o que torna todo o seu drama bastante plausível.

 

“Mesmo que se passassem muitos anos, ela ainda cultivaria o hábito de gastar horas sentada em frente à janela, olhando para aquele horizonte azul e verde. Era o que conseguia aplacar sua alma inquieta. Religiosa, tinha uma fé inabalável e ia à igreja frequentemente com a família. Todavia, era em frente ao mar que realmente sentia a presença de Deus.” (p. 18)

 

Alina era ainda uma jovem de 12 anos quando se apaixonou por Pedro Henrique Garcia, também imigrante português, advogado e amigo de seu irmão. Ele era um homem feito quando se conheceram, tinha 24 anos e era casado. Ela tinha consciência do erro de amar um homem que não podia ser seu, mas ainda assim o amava. Era um sentimento tão grande que não podia ser contido. Passaram anos assim, se amando platonicamente, pois o sentimento era recíproco, embora não tivessem certeza disso. Aos 16 anos, Alina ajudava o irmão em seu escritório de advocacia, onde também trabalhava Pedro Henrique, lutando em prol dos escravos e contra as injustiças que ocorriam no Brasil Colônia.

 

“Ali na praia, ouvindo as ondas baterem nas pedras, Alina ficou não se sabe por quanto tempo. Gostava da solidão e do silêncio que a ausência de vozes proporcionava. Na fazenda, as pessoas tinham seus falatórios e suas demandas, principalmente a mãe, que não entendia por que ela gostava tanto de ficar sozinha e, em vão, tentava inseri-la na vida familiar. Quando o barulho começava a incomodar a jovem, era o momento de fugir para o seu mundo irreal, onde ela e Pedro se casavam, tinham filhos e uma vida cheia de felicidade. Mas, como as ondas vêm e vão, aquele sonho também não podia ser segurado. E, como o vento, ele alçava voo e ela voltava a ser Alina, a moça que ousou amar um homem casado que jamais poderia ser seu.” (p. 27)

 

Ilustração do livro “Alina”, por Mara Sop.

 

“Fosses tu minha… eu jamais te deixaria ir!” (p. 33)

 

A revelação de que havia reciprocidade no amor entre Alina e Pedro Henrique encheu o coração dos dois de inquietação. A certeza de que eram um do outro em sentimento, mas que não podiam ficar juntos era terrível. Alina decide ir embora de São Salvador, mas não consegue fazê-lo sem se despedir de Pedro Henrique. Os dois se entregam a paixão e, algum tempo depois, a jovem descobre estar grávida de seu amor.

 

“Quero-te como meu primeiro e último homem. Quero entregar meu corpo a ti. Quero que me faças tua mulher porque jamais serei de outro homem por toda a minha vida.” (p. 48)

 

Pedro Henrique fica transtornado com a partida de Alina, mas sem saber de seu paradeiro, acaba voltando para Portugal com a esposa e os filhos, mantendo em seu peito a esperança de um dia reencontrar o seu amor. Alina fora para a fazenda da irmã Clara, na Capitania de São Jorge dos Ilhéus, evitando um escândalo em sua família. Lá aceita a ajuda de uma velha índia, Ana, e vai para uma aldeia, onde poderá ter seus filhos em paz. Sim, ela estava grávida de gêmeos!

Apenas o pai de Alina sabia o que estava acontecendo. A amizade entre os dois é uma das coisas mais bonitas dessa história. Ele entende os sentimentos da filha e aceita que ela decida o seu destino, diferente do que se poderia imaginar de um pai de família dessa época.

 

“Creio, papai, que Clara desconfiava de minha gravidez, mas eu não lhe contei. E por favor papai, se Pedro procurar o senhor, não lhe conte nada. Depois pensarei em uma solução melhor. Por ora ficarei aqui na aldeia, onde terei o meu filho. Eu estou bem, papai; e muito bem cuidada pela índia de quem falei ao senhor, a mesma que tratou Francisco em sua desventura…” (p. 70)

 

Na aldeia, Alina conhece Naru, um mestiço filho de um português com uma índia daquele lugar. Ele foi educado como um cavalheiro, mas suas raízes estavam na cultura indígena. Os dois logo ficam muito amigos, Naru dá todo o suporte durante a gravidez de Alina, sendo praticamente um marido para ela. Um tempo depois do parto, ele declara seu amor pela jovem, que também corresponde esse sentimento, embora não ame o rapaz com a mesma intensidade que a Pedro Henrique. Ela é honesta com Naru, contanto toda a sua história e eles decidem mesmo assim ficarem juntos, como marido e mulher.

 

Ilustração do livro “Alina”, por Mara Sop.

 

“O hálito dele era doce, com cheiro de frutas silvestres, e Alina desejou ser beijada. Desejou muito. E ele a beijou. Em seguida levou-a para uma saliência na mata e fê-la dele. Depois, deitados, ambos nus e saciados, ele a abraçou  e a trouxe para próximo de seu corpo:

‘Tu és linda! E és minha’ – disse, beijando-a longamente” (p. 96)

 

Alina seguiu em frente. Pedro era um homem casado e ela precisava dar uma família aos seus filhos. Naru era um homem maravilhoso e, embora ela não o amasse da mesma forma que amava a Pedro, tinha certeza que viveria bem com ele. Decidiu, então, voltar para sua casa em São Salvador e informou a família sobre seu casamento com o mestiço.

 

O envolvimento entre Alina e Naru foi tão natural, que por algumas páginas quase nos esquecemos de Pedro Henrique. Mas essa história ainda guarda muitas reviravoltas nas vidas de nossos protagonistas, incluindo um envolvimento entre Pedro e uma pessoa bastante próxima de Alina, além de muitos segredos e a vontade de ler os outros volumes da série o quanto antes! Alina é uma história riquíssima, ambientada no Brasil Colônia, que inclusive foi adotada em diversas escolas como livro paradidático. Esta edição da Pedrazul Editora foi lindamente ilustrada pela Mara Sop e vale muito a pena ler e ter na estante.

 

“Alina” e os marcadores com a capa do livro e de algumas das ilustrações coloridas de Mara Sop.

 

SOBRE A AUTORA: A baiana Emilia Lima é formada em Economia, mas é uma apaixonada pelas letras, principalmente pelos romances clássicos ingleses, cuja autora preferida é Jane Austen. Também é fã de Isabel Allende e de Gabriel Garcia Marquez. Apaixonada por cinema, Emilia adora conhecer os lugares onde seus livros são ambientados. Dona de uma extensa biblioteca, ela tem na leitura e na escrita um dos seus maiores prazeres. Sua paixão pelos livros vem desde criança, incentivada pelos avós maternos, Marlotinho e Zelinha, que sempre lhe davam livros de presente. Além de Alina, é autora de Ágata e de Dandara, que fazem parte da série Família Cirilo. Emilia mora na Bahia e tem dois filhos.

 

Saiba mais sobre Emilia Lima na entrevista concedida ao blog da Pedrazul Editora.

 

 

 

Título: Alina (Série Família Cirilo, Vol. 1)
Autora: Emilia Lima
Editora: Pedrazul
Páginas: 188

 

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