janeiro 31, 2018

[LETRAS] PRECONCEITO LINGUÍSTICO, LIVRO DE MARCOS BAGNO, COMPLETA 19 ANOS

Pouco depois da minha aprovação no vestibular para o curso de Letras da UFF/CEDERJ, meu marido, que é formado também em Letras, me presenteou com uma edição de Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Achei o livro interessante e a recomendação que recebi junto ao presente foi expressa: ninguém pode cursar Letras sem ler esse livro.

É impossível não se reconhecer, tanto como vítima quanto como algoz, nas páginas de Preconceito Linguístico. O livro desnuda essa face preconceituosa que o brasileiro tem e que é encoberta pela fama que temos de povo bonzinho, gente boa. Há quem reduza a obra de Marcos Bagno há mero esquerdismo, tentando desqualificar o trabalho dele que é um dos maiores linguistas do nosso país. Não vou sequer pôr em discussão o caráter de quem desqualifica uma obra ou, como no caso do autor, várias obras, sem ao menos conhecer o trabalho e, ainda, usando os termos esquerdista, petralha, mortadela etc. Não vale a pena.

Neste mês, o livro completa 19 anos desde a sua primeira publicação. E a reflexão do autor sobre o aniversário de um dos seus livros mais famosos é a que estamos longe de abandonar esse caráter preconceituoso, especialmente no que tange à língua falada. Veja o comentário de Bagno sobre o aniversário do livro, publicado em seu perfil no facebook:

“Em 1999, por instigação amorosa de Marcos Marcionilo, publiquei “Preconceito linguístico”. Em 2015 o livro mudou de editora, se transferiu para a Parábola, sempre pelas mãos generosas e competentes do mesmo Marcionilo. O livro completa, agora em janeiro, 19 anos. Desde sua primeira aparição, já foi reimpresso mais de 50 vezes e o número de exemplares vendidos supera os 300 mil. Isso poderia ser motivo de alegria, e é, mas também provoca uma inevitável reflexão sobre a realidade social monstruosa que é a do Brasil, essa imensa Bastilha continental que há séculos resiste a ser derrubada. Passados 19 anos, o preconceito linguístico continua a ser o que sempre tem sido: mais um dos diversos elementos que constituem um amplo e largo preconceito social, dirigido a todas e a todos que não fazem parte da ínfima camada dominante, essencialmente branca e masculina, e de seus micos amestrados, uma classe média que, por ser reduzida, acredita fazer parte da oligarquia, sem se dar conta de que é manipulada por ela das formas mais vis e repugnantes. Mulheres, pessoas não-brancas, homossexuais, transgêneros, indígenas, camponesas e camponeses, pobres e miseráveis, toda essa gigantesca legião de gente perseguida e humilhada, vítimas de assassinato sistemático e ininterrupto, como se não bastasse toda essa injustiça social, ainda tem que suportar o escárnio dirigido às suas línguas e aos seus modos de falar. Eu sinceramente gostaria muito que esse meu livro fosse tido como datado, que as coisas que nele vêm denunciadas descrevessem um momento histórico já distante, mas não é assim. Diante da tragédia social, política e ética que estamos vivendo, a discriminação pela linguagem continua firme e forte em sua função de aprofundar o abismo das exclusões que é constitutivo desse país triste e infeliz. Pouco a comemorar, portanto, nesse aniversário.”

 

A nova edição de Preconceito Linguístico, publicada pela Editora Parábola em 2015, é praticamente um novo livro. O texto foi radicalmente revisto, ampliado e atualizado, conforme informa o autor logo nas primeiras páginas. Além da luta por um ensino mais democrático da língua materna, Marcos Bagno abriu espaço também para questões atuais, como a nova classe média, o polêmico presidenta, O Exame Nacional do Ensino Médio, dentre outros. Além disso, alguns pontos da edição anterior, tratados superficialmente, foram melhor explicados.

Existe um mito de que a Sociolinguística quer fazer todo mundo falar errado. O conservadorismo aliado à falta de informação produz e espalha esse tipo de falácia. Recomendo que você que ainda não conhece o que é de fato a sociolinguística, passe a pesquisar mais sobre o assunto. Preconceito Linguístico é um ótimo começo.

 

“O preconceito, seja ele de que natureza for, é uma crença pessoal, uma postura individual diante do outro. Qualquer pessoa pode achar que um modo de falar é mais bonito, mais feio, mais elegante, mais rude do que outro. No entanto, quando essa postura se transforma em atitude, ela se torna discriminação e esta tem de ser alvo de denúncia e de combate. No caso da língua, é imprescindível que toda cidadã e todo cidadão que frequenta a escola (pública ou privada) receba uma educação linguística crítica e bem informada, na qual se mostre que todos os seres humanos são dotados das mesmíssimas capacidades cognitivas e que todas as línguas e variedades linguísticas são instrumentos perfeitos para dar conta de expressar e construir a experiência humana neste mundo.” (Preconceito Linguístico, Editora Parábola, 2015)

 

SOBRE O AUTOR: Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília. Pesquisa e atua em políticas linguísticas, na descrição do português brasileiro e em seu ensino, tanto no Brasil quanto no exterior. Publicou, entre outras obras, Gramática pedagógica do português brasileiro (Parábola Editorial, 2012). É o tradutor de alguns dos textos fundadores da sociolinguística: Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística, de U. Weinreich, W. Labov e M. Herzog (Parábola, 2006), e Padrões sociolinguísticos, de W. Labov (Parábola, 2008).

 

 

Título: Preconceito Linguístico
Autor: Marcos Bagno
Editora: Parábola
Páginas: 352

 

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