Janeiro 18, 2017

[CONTO] O MATADOR NOTURNO, PARTE 1

Sinopse: “Mulheres sendo assassinadas de forma dramática e dois policiais que precisam resolver suas diferenças para solucionar o mistério do assassino que só age sob a luz da lua: o matador noturno.”

O sangue escorria ladeira abaixo, como se o ser humano inerte a beira da calçada fosse uma fonte inesgotável do líquido escuro. Uma mulher, por volta dos trinta anos, pele levemente bronzeada e corpo voluptuoso jazia enquanto a noite ainda estava longe de terminar. Na estreita rua em que ocorrera o assassinato, janelas fechadas e nenhuma movimentação. O único barulho que se ouvia era de uma goteira, vinda de uma das marquises, denunciando uma chuva que caíra horas atrás.

Evangeline era apenas mais uma das vítimas do matador noturno. Desconfiava-se de que era um homem, ainda que não houvesse provas cabais do fato. Simplesmente corpos de mulheres do mesmo padrão estético de Evangeline eram encontrados em vielas silenciosas, no alto da madrugada. Elas sempre eram encontradas pouco depois do crime, a tempo suficiente de seu sangue pintar a rua e dar um ar dramático ao acontecimento.

– Se eu pudesse dar um palpite, – Rony disse timidamente – diria que trata-se de algo mais que um crime serial. Em todos os corpos haviam sinais de que existe uma mensagem que está prestes a ser desvendada. O matador noturno quer nos dizer algo, tenho certeza. Se não descobrirmos, mais mulheres serão mortas.

– Perdoe-me meu caro Rony, – o detetive Almeida disse sorrindo – mas você não disse nada além do que qualquer pessoa habituada a assistir filmes de suspense policial diria. Caso queira realmente ajudar, terá de decifrar o suposto enigma do matador noturno.

Rony assentiu, mesmo contrariado. Trabalhava com o detetive Almeida há poucos meses e não havia conseguido dar nenhuma pista importante ou concluir algum caso sem que o detetive tivesse de ajudá-lo. Na verdade, Almeida fazia quase todo o trabalho do jovem investigador.  Não gostava de ter Rony como parceiro, um jovem inexperiente e trapalhão. Nunca teve vocação para professor, gostava de trabalhar com quem sabia ou fazer tudo sozinho. No caso das mulheres assassinadas pelo matador noturno, ele sabia que pegaria o homem, se é que tratava-se de um. Rony não tinha a menor condição de resolver esse caso.

A perícia não dera nenhuma informação que acrescentasse algo de substancial à investigação. A morte de Evangeline fora como a das outras mulheres: cortes em artérias que proporcionassem todo o sangue que compunha o cenário favorito do matador, falta de sinais de violência sexual, falta de evidências de roubo e um souvenir colocado delicadamente sobre o peito da vítima, seguro pela mão do cadáver. Em Evangeline, o matador deixou uma rosa vermelha. Já foram encontradas outras flores, um cartão romântico, um chaveiro de coração e uma pequena garrafa com um barquinho de papel dentro dela. O melhor palpite até então era de que o matador poderia ter um interesse romântico pelas vítimas ou por alguém que guardasse semelhança com elas. Sua motivação poderia ser acabar com a vida de qualquer mulher que o lembrasse de sua amada. Mas era apenas um palpite, dentre muitos que a investigação já teve.

– Por onde continuamos, detetive? – quis saber Rony.

– Continuar? Essas mortes quase não deixam rastros que nos levem ao matador. Na verdade, acho que a pergunta mais correta seria por onde vamos começar.

Evangeline, diferente das outras vítimas, era uma conhecida modelo fotográfica, garota propaganda de uma famosa loja de biquínis da cidade. Seu rosto e, sobretudo, seu corpo, estampavam os catálogos de moda praia da região e decoravam as paredes da grife oceano. Uma pequena mudança no perfil social das mulheres assassinadas, que anteriormente era composto apenas por estudantes, vendedoras, uma costureira e uma professora de primário. Evangeline era a décima vítima. Sua morte, obviamente, causou comoção nas redes sociais. O caso foi ficando conhecido em todo o país, o que dificultava ainda mais a investigação.

– Almeida, eu quero esse matador preso o mais rápido possível! – disse o delegado. – Até o governador já ligou para mim querendo saber sobre o andamento da investigação.

– O governador? – perguntou Almeida, empalidecendo. – Ele não pode pensar que pressionando-nos será mais rápido encontrar o matador. Esse é o caso mais difícil em que já trabalhei, e o Rony bonitão ali não é de grande ajuda.

Rony, que ouvia atentamente o diálogo, baixou a cabeça, levemente constrangido pela humilhação. Havia se acostumado com o tratamento pouco cortês de Almeida, mas envergonhava-se com frequência com os comentários que o detetive fazia publicamente sobre sua aparência ou falta de talento para a profissão. Almeida fazia questão de que todos soubessem da incompetência do jovem rapaz.

– Na verdade, – disse o delegado – o governador ligou para o prefeito e o prefeito passou lá em casa ontem à noite e comentou sobre a urgência que o governador quer na resolução deste caso, enquanto jogávamos pôquer.

– Delegado, se me permite, – arriscou Rony, sob o olhar impaciente de Almeida – creio que estamos mais perto do matador noturno do que imaginamos. É só uma questão de observar os detalhes dos crimes, sobretudo o de Evangeline.

– Obrigado, Rony. Fico feliz que esteja se esforçando neste caso. – disse o delegado, mas a simpatia em sua voz não chegara aos seus olhos. Era o tipo de pessoa que sabia ser simpaticamente falsa.

– É, Rony, belo esforço, parabéns! – ironizou Almeida.

Com as falsas congratulações, terminaram mais um expediente sem que soubessem por onde procurar pelo matador noturno.

 

 

 

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