novembro 09, 2018

[RESENHA] O PARAÍSO SÃO OS OUTROS, DE VALTER HUGO MÃE

Sinopse: “O paraíso são os outros, de Valter Hugo Mãe, ganha nova edição pela Biblioteca Azul com ilustrações do autor inéditas no Brasil. Em O paraíso são os outros, uma menina volta seu olhar pueril para os casais. Casais de pessoas e de animais, de homem e mulher, de mulher com mulher, de golfinhos e de pinguins. Uma menina a quem o amor intriga e fascina. Uma menina que ao imaginar a vida dos outros, sonha com a pessoa que um dia irá amar. Sua voz inocente toca tanto as crianças quanto os adultos. A nova edição desta obra do aclamado escritor português Valter Hugo Mãe traz ilustrações do autor e texto de Noemi Jaffe na quarta capa. Além disso, esta edição apresenta texto atualizado, nota exclusiva do autor sobre suas ilustrações, miolo com cores especiais e capa dura. ‘Mais do que um livro, O paraíso são os outros é um convite à vida. Quando percebermos que o amor precisa de ser uma solução e não um problema então teremos percebido tudo.’ – Luis Sepúlveda. ‘Parece que só quem aceita o erro em si mesmo é capaz de amar os outros, nosso paraíso difícil e necessário. Valter Hugo Mãe propõe, como em seus desenhos, a unidade na dualidade e vice-versa. Só para os que amam ou os que estão dispostos a amar.’ – Noemi Jaffe.”

 

Eu sou muito fã de livros curtinhos. Especialmente dos de poesia ou prosa poética, como é o caso de O paraíso são os outros, do escritor português Valter Hugo Mãe. Às vezes, tudo o que a gente precisa em um dia, principalmente quando tudo parece impossível, é de uma pitada de amor. Se for o seu caso, recomendo muito esse livro.

O paraíso são os outros surgiu, segundo o autor, após uma reflexão acerca de uma popular expressão de Sartre, presente também na obra A desumanização: “o inferno são os outros”. Nas duas obras de Valter Hugo Mãe, a narrativa fica a cargo de uma menina. Quem melhor que uma criança para nos abrir os olhos para as verdades da vida?

A menina reflete sobre casais — formados por humanos ou animais — e sobre a aventura que é dividir a vida com alguém. Os textos são bem curtos e simples, mas extremamente delicados. Pura poesia!

 

“Os casais são criados por causa do amor. Eu estou sempre à espera de entender o que é. Sei que é algo como gostar tanto que dá vontade de grudar. Ficar agarrado, não fazer nada longe. Os casais são isso: gente muito perto. Quero dizer: acompanhando, porque mesmo em viagem não deixam de acompanhar, pensam o dia inteiro no outro. Às vezes, falamos com alguém que pertence a um casal e essa pessoa nem ouve porque está a pensar em quem ama. Chega a ser bizarro. Quase mal educado.”

 

“O amor é um sentimento que não obedece nem se garante. Precisa de sorte e, depois, de empenho. Precisa de respeito. Respeito é saber deixar que todos tenham vez. Ninguém pode ser esquecido.”

 

“Estou cada vez mais certa de que o paraíso são os outros. Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem.”

 

 

A edição da Biblioteca Azul conta com ilustrações do autor, que diz desenhar não por talento, e sim por ternura. A única ressalva que eu faço sobre o livro — na verdade, sobre o e-book — é que o texto da Noemi Jaffe não integra a edição conforme informado na sinopse das edições impressa e eletrônica. O e-book tem uma diagramação linda, perfeita para a leitura, mas deixou o texto da quarta capa de fora. Uma pena!

 

 

Título: O paraíso são os outros

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Biblioteca Azul

Páginas: 64

 

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outubro 26, 2018

[RESENHA] LAZARILLO DE TORMES E O ROMANCE PICARESCO

 

Sinopse: “Narrativa anônima do século XVI, Lazarillo de Tormes é um marco no panorama da literatura universal, sendo considerado o fundador do romance picaresco. Divertida e por vezes comovente, a história do garoto Lázaro e de sua luta pela sobrevivência possui também um alto teor de crítica social, o que faria com que o livro fosse proibido pela Inquisição.”

 

Lazarillo de Tormes é uma narrativa curta, clássico da literatura espanhola e mundial, que inaugurou o tipo de romance chamado de picaresco. De autoria desconhecida, tendo suas edições mais antigas datadas de 1554, a história de Lázaro é uma narrativa de leitura rápida e bem humorada.

O romance é estruturado em tratados — precedidos de um prólogo, — onde o próprio Lazarillo conta suas desventuras. Nascido no rio Tormes, motivo que, segundo ele, explica o seu sobrenome, ainda bem jovem perde o pai, precisa deixar a mãe e, de início, cai nas mãos de um cego, assumindo o ofício de ser os seus olhos. Em pouco tempo, o trabalho que parecia ser nobre torna-se bastante penoso: Lázaro passa fome e sofre maus tratos diversos com esse seu primeiro amo. A partir daí o personagem desenvolve a capacidade de se virar, de tirar proveito das situações mais extremas. O que pode parecer malandragem — e é, obviamente — também pode ser interpretado como pura questão de sobrevivência, com pitadas de vingança, em alguns casos.

Larazillo de Tormes foi uma leitura que eu não teria feito (pelo menos não neste ano de 2018) se eu não tivesse cursado a disciplina de Matrizes de Cultura e Literaturas Hispânicas, nesse semestre do curso de Letras (2018-2 UFF/CEDERJ). A leitura surgiu como uma proposta diferenciada de avaliação presencial: a coordenação da disciplina divulgou a questão única da prova, que seria a leitura de Lazarillo de Tormes (ou de A Celestina) e pediu para que fizéssemos uma comparação com outro produto cultural de livre escolha. No dia marcado para a prova presencial nós teríamos de dissertar sobre a nossa leitura e pesquisa, mas sem consulta.

A proposta, que a primeira vista me assustou, foi muito positiva. A leitura de Larazillo de Tormes foi muito agradável — por isso estou recomendando o livro aqui — e ter de pesquisar sobre o tema e pensar sobre algo semelhante tornou o estudo menos maçante e a aprendizagem mais efetiva. Foi uma prova de exposição de conhecimento, não de decoreba.

Lazarillo de Tormes, como já dito, inaugurou o romance picaresco, que é definido como uma pseudo-autobiografia de um anti-herói, em que ele narra suas aventuras, que por sua vez, são a síntese crítica de um processo de ascensão social pela trapaça. O romance picaresco é uma sátira da sociedade do pícaro, o protagonista.

Vários personagens da literatura e do cinema se enquadram nas características do pícaro. Em minha breve pesquisa, percebi semelhanças em Leléu, personagem de Lisbela e o Prisioneiro, filme de Guel Arraes (2003). Assim como Lazarilho, Leléu percorre cidades fazendo o possível (leia-se usando de artimanhas) para garantir o seu sustento, com a diferença de que, no caso do brasileiro, suas malandragens também incluem conquistas amorosas. Lisbela e o Prisioneiro funciona muito bem como crítica de uma sociedade baseada em classes, além de outros temas que a adaptação trata de forma perfeita: metalinguagem, resposta ao ideal cavalheiresco — que também é uma característica do romance picaresco — dentre outros.

 

Leléu, do filme “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), interpretado por Selton Mello.

 

Comparações e pesquisas à parte, sugiro que você inclua em sua lista a leitura de Lazarillo de Tormes. O livro é um tesouro facilmente encontrado em livrarias e pela internet. Dificilmente você vai fechar o livro sem ter dado uma risada ou sem se surpreender com situações e pessoas que são facilmente identificáveis ainda nos dias atuais.

 

“Quantos devem existir no mundo que fogem dos outros porque não se veem a si mesmos!”

 

“Mas, segundo me parece, esta é uma regra já usada e observada entre eles. Embora não tenham um vintém, fazem questão do barrete no seu lugar. Que o Senhor os ajude, já que com esta doença morrerão.”

 

“Apesar de rapaz ainda, achei tudo uma graça e disse para mim mesmo: ‘quantas destas devem fazer estes enganadores às pessoas inocentes!’”

 

 

 

Título: Lazarillo de Tormes

Autor: Anônimo

Baixe gratuitamente a edição biligue da Embaixada Espanhola, fonte de leitura e informações dessa resenha, clicando aqui.

 

outubro 11, 2018

[RESENHA] O QUE É FASCISMO? E OUTROS ENSAIOS, DE GEORGE ORWELL

Sinopse: “Romancista celebrado pelas distopias de 1984 e A revolução dos bichos, George Orwell também foi um prolífico repórter e colunista. Entre as décadas de 1930 e 1940, o autor de O que é fascismo? colaborou em diversos veículos da imprensa britânica. Nesta coletânea de 24 ensaios publicados em revistas e jornais, Orwell explora um amplo espectro de assuntos, sempre perpassados pela política, sua principal obsessão intelectual e literária. Com temas que variam de Adolf Hitler à pornografia, de W. B. Yeats a O grande ditador, os textos selecionados pelo jornalista Sérgio Augusto compõem um inteligente mosaico das opiniões de Orwell durante o período crítico da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria. Com sua visão irônica do mundo conflagrado da época, os ensaios demonstram a potência criativa do “socialismo democrático” adotado pelo escritor como credo político após sua experiência na Guerra Civil Espanhola, em contraposição aos totalitarismos de esquerda e de direita então em voga.”

 

A não ser que você viva em uma bolha sem acesso à internet (se vive, talvez eu lhe inveje por isso), terá de concordar comigo que uma das palavras mais repetidas nas últimas semanas é fascismo. Longe de ser um simples xingamento (como algumas pessoas talvez pensem), ou ser de simples compreensão, uma vez que o substantivo tende a se moldar de acordo com época e o lugar, o termo “fascismo” motivou a única leitura que eu consegui fazer nesses dias de fervor eleitoral.

Os dicionários definem o fascismo como uma forma autoritária de governo (ditadura), em que prevalecem os conceitos de raça e nação sobre os valores individuais. Trocando em miúdos: uma forma de governo que privilegia certa camada da sociedade tida como maioria.

Fui atrás do livro de Orwell procurando por respostas, motivada pelo título da coletânea de ensaios. Felizmente, terminei o livro sem soluções mágicas e sim com muitas perguntas. Digo felizmente, porque há muito tempo eu percebo as perguntas como mais valiosas que as respostas, sobretudo as prontas, feitas para serem engolidas forçadamente goela abaixo. As perguntas movem o mundo, nos empurram para frente. Não há espaço para comodismo no questionamento.

No ensaio que dá nome ao livro, O que é fascismo?, George Orwell também se questiona. Segundo o autor, talvez essa seja a pergunta mais importante — e não respondida — de sua época. O ensaio, como os outros que integram essa coletânea, foi escrito na década de 1940 e é um doloroso espelho para o nosso mundo de hoje, em pleno século XXI, 2018. Ainda não conseguimos aprender o que é realmente o fascismo e suas consequências reais na vida das pessoas. De todas elas.

Para se ter uma ideia, neste livro George Orwell fala sobre fronteiras cada vez mais fechadas; esquerdistas que até “militam”, mas não seriam capazes de abrir mão de alguns privilégios em prol do bem comum de todos; do poder — para o bem ou para o mal — da propaganda; do mercado literário e da crítica literária, com suas resenhas viciadas e direcionadas pelas grandes editoras, além da crítica à confusão entre posicionamento político e qualidade literária. Quem é de esquerda só é bom se escrever sobre temas que a esquerda gosta? Além das muitas perguntas que abrem caminho para uma reflexão aprofundada sobre a realidade da época em que foram escritos os textos do autor de 1984 — e também sobre a nossa época, — aqui você também aumenta consideravelmente a sua lista de leitura com algumas resenhas literárias feitas pelo autor.

O que é  fascismo? E outros ensaios é uma coletânea para quem gosta de refletir sobre a história, sem medo de autocrítica. Não leia se você for do tipo sangue nos olhos e faca nos dentes quando o assunto é sério como política. Porque quando falamos de política não é só o que eu gosto ou desejo. Não é sobre manter privilégios em detrimento da fome de alguém ou sequer ter o esforço de todo dia ter um pouquinho mais de empatia. Não é sobre ganhar ou perder. Porque quando é assim, todos nós já perdemos.

 

 

 

Título: O que é fascismo? E outros ensaios

Autor: George Orwell

Tradução: Paulo Geiger

Organização e Prefácio: Sérgio Augusto

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

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Veja também: trecho do filme “O grande ditador”, tema de um dos ensaios do livro “O que é fascismo? E outros ensaios”:

 

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