agosto 28, 2018

[RESENHA] As últimas testemunhas: crianças na Segunda Guerra Mundial, de Svetlana Aleksiévitch

Sinopse: “Nesta obra, a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2015, Svetlana Aleksiévitch, dá voz às memórias de pessoas que viveram a guerra durante a infância.”

 

Quando Svetlana Aleksiévitch ganhou o Nobel de Literatura em 2015 eu fui, reconheço, uma das várias pessoas que, torcendo o nariz, questionou: como assim uma jornalista ganhar o maior prêmio de… literatura? Pois bem, como em tudo na vida, e a literatura não foge à regra, as coisas não assim, oito ou oitenta. Não vou discutir (agora) o conceito de literatura pois, acreditem, quanto mais se estuda mais é notório que a arte das palavras não é algo fechado, intocado ou quase místico. A suposta aura inatingível da literatura nada mais é que academicismo elitista. Juro.

Svetlana faz, sim, literatura. Ela não faz ficção, não cria mundos fantásticos nem escreve romances ou qualquer coisa que você tenha certeza absoluta que é literatura. Ao invés de dar voz à personagens imaginados, ela escolhe pessoas reais para contarem suas próprias histórias. A autora reúne relatos de pessoas feridas e nos mostra a face esquecida (ou nunca mostrada) dos trágicos períodos de guerra. Se isso não é literatura, eu não sei mais o que pode ser…

 

“É assim que eu ouço e vejo o mundo — como um coro de vozes individuais e uma colagem de detalhes do dia a dia. É assim que meus olhos e ouvidos funcionam. Dessa forma, minha mente e emoção chegam ao seu potencial máximo. Dessa maneira eu posso ser, ao mesmo tempo, escritora, repórter, socióloga, psicóloga e pregadora.” (Svetlana Aleksiévitch, Revista TAG Curadoria Julho/2018)

 

As últimas testemunhas foi o livro enviado pela TAG Curadoria aos seus assinantes no mês de julho, aniversário do clube, como uma escolha da empresa, sem um curador por trás da indicação. Eu já planejava ler algo da Svetlana, provavelmente A guerra não tem rosto de mulher (ainda na minha lista de leitura), mas o momento ainda não havia chegado. Outras leituras acabaram roubando a vez da escritora bielorrussa na minha lista de compras. O livro enviado pela TAG, no momento publicado no Brasil apenas pelo clube, em parceria com a Companhia das Letras (que deve publicá-lo em capa comum posteriormente) resolveu o meu problema. Finalmente li um livro da Svetlana e, meu Deus, foi um grandessíssimo soco no estômago. As últimas testemunhas reúne vários relatos de pessoas que eram crianças na época da ocupação alemã na Rússia durante a Segunda Guerra Mundial.

É de doer o peito. Todos os dias em que eu conseguia ler algumas páginas, precisava comentar com alguém sobre o sofrimento daquelas pessoas, do contrário aquilo quase me sufocava. Ler sobre todas as crianças que ficaram órfãs; que tomavam água quente como se fosse sopa, para acalmar a fome; que fugindo dos ataques viam seus pais caírem inertes no chão, sem entender muito bem o que acabara de acontecer; que comiam lasca de parede e de eletrodomésticos, resquício de grama ou de qualquer vegetação aparente para vencer a fome, não chega nem perto do sofrimento real daquelas pessoas, eu sei. Mas doeu e me marcou profundamente. Um depoimento com o qual eu tive pesadelos por dias foi o da imagem de um bebê que tomava o leite do seio de sua mãe enquanto ela já era apenas um corpo inerte desprovido de sentidos. A pessoa que presenciou o ato jamais pôde esquecer, e eu também não vou. Essas pessoas que sobreviveram a tempos tão difíceis, que são uma pequena amostra viva do terror que foi (e ainda é) a guerra, são os protagonistas do livro da ganhadora do Nobel de 2015.

Esse livro é muito denso. Foi uma leitura demorada e bastante difícil. Evitei ler à noite, pois me dava pesadelos, como eu já mencionei. Muitas daquelas crianças tinham a idade da minha filha, ou um pouco mais. Lendo o livro da Svetlana, é impossível não pensar nas crianças de hoje que vivem na Síria, Venezuela e tantos outros países que, por motivos diversos, vivem algum tipo de conflito. Até mesmo aqui no Brasil.

Dito tudo isso, ao contrário do que pode ter parecido, eu recomendo muitíssimo a leitura desse livro! Esse ou outro da Svetlana, mas guarde o título As últimas testemunhas. Não é todo autor que consegue se anular para dar voz aos seus personagens. E aqui, mais que uma simples transcrição de áudios, a autora escolhe o que e como contar. É pura arte. Uma Arte que machuca, mas é extremamente necessária. Neste título você percebe as pausas, as hesitações, o momento em que o depoente está prestes a chorar. E, inevitavelmente, você chora com ele.

 

 

“Não só os orfanatos passavam fome, as pessoas ao nosso redor também, porque entregavam tudo para o front. De crianças pequenas éramos umas quarenta, nos instalaram separadamente. À noite — berros. Chamávamos por mamãe e papai. Os educadores e professores tentavam não dizer a palavra ‘mãe’ na nossa frente. Eles contavam histórias e escolhiam os livrinhos que não tinham essa palavra. Se de repente alguém falava ‘mãe’, na hora começava um chororô. Um chororô inconsolável.” (contracapa)

 

 

 

Título: As últimas testemunhas

Autora: Svetlana Aleksiévitch

Tradução do russo: Cecília Rosas

Editora: TAG Experiências Literárias / Companhia das Letras

Páginas: 320

 

Ficou interessado na TAG Experiências Literárias? Faço parte do clube curadoria, mas você pode clicar aqui e conhecer melhor as duas caixinhas, curadoria e inéditos, e ver qual se adéqua ao seu gosto e estilo!

agosto 14, 2018

[RESENHA] UMA DAMA FORA DOS PADRÕES (OS ROKESBYS #1), DE JULIA QUINN

Sinopse: “Às vezes você encontra o amor nos lugares mais inesperados…

Esta não é uma dessas vezes.

Todos esperam que Billie Bridgerton se case com um dos irmãos Rokesbys. As duas famílias são vizinhas há séculos e, quando criança, a levada Billie adorava brincar com Edward e Andrew. Qualquer um deles seria um marido perfeito… algum dia.

Às vezes você se apaixona exatamente pela pessoa que acha que deveria…

Ou não.

Há apenas um irmão Rokesby que Billie simplesmente não suporta: George. Ele até pode ser o mais velho e herdeiro do condado, mas é arrogante e irritante. Billie tem certeza de que ele também não gosta nem um pouco dela, o que é perfeitamente conveniente.

Mas às vezes o destino tem um senso de humor perverso…

Porque quando Billie e George são obrigados a ficar juntos num lugar inusitado, um novo tipo de faísca começa a surgir. E no momento em que esses adversários da vida inteira finalmente se beijam, descobrem que a pessoa que detestam talvez seja a mesma sem a qual não conseguem viver.”

 

Estou disposta a ler tudo o que for publicado em português de Julia Quinn, e livro certamente não vai faltar: a autora, que já vendeu mais de 850 mil livros pela Arqueiro e terá sua série mais aclamada — Os Bridgertons — adaptada para a Netflix, continua conquistando leitores mundo afora com seus delicados romances de época.  Seu lançamento mais recente no Brasil, Uma dama fora dos padrões, não foge à regra: quando o leitor percebe, já se rendeu completamente ao romance e aos personagens.

Uma dama fora dos padrões (Os Rokesbys #1), é uma trama que se passa antes dos Bridgertons. A protagonista, Billie — Sybilla Bridgerton — é a irmã mais velha do futuro Visconde Briderton, patriarca da amada e mais famosa família criada por Julia Quinn. Ela é tida como fora dos padrões porque, aos 23 anos, seu interesse principal é cuidar da propriedade de sua família, o que faz muito bem por sinal, até que o irmão tenha idade suficiente para assumir suas responsabilidades como herdeiro do título e de tudo o que vem com ele. Billie é uma típica moça do campo, livre, sem muito traquejo para assuntos e tarefas femininas da sociedade a qual pertence. Usa calcas e lê sobre agricultura, por exemplo. Tem uma vaga certeza de que se casará com um dos irmãos Rokesby, Andrew ou Edward. Definitivamente sabe que não se casará com George, o herdeiro do condado. A partir daí o leitor deduz facilmente que o casal, aqui, é Billie e George, pois é assim que funciona nos romances de Julia Quinn. Não é spoiler, é informação que vem na contracapa e eu já me rendi por esse jeito descomplicado de contar histórias, marca registrada da autora.

 

“Mesmo naquela época, ela já sabia que não era como as outras garotas. Não queria tocar piano ou costurar. Queria estar ao ar livre, voar na garupa de seu cavalo, a luz do sol dançando pela sua pele enquanto seu coração pulava e corria com o vento.

Ela queria levantar voo.

Ainda queria.

Se beijasse George… Se ele a beijasse… A sensação seria a mesma?” (cap. 16)

 

George Rokesby, o mocinho, não era exatamente como os irmãos: herdeiro do título, foi criado desde cedo para tal, com todas as responsabilidades e restrições que exigem o cargo. Isso, além da diferença de cinco anos entre ele e Billie, não permitiu que George ficasse cavalgando pela propriedade, subindo em árvores etc, coisas que seus irmãos mais novos faziam em companhia da garota. Os Bridgertons e os Rokesbys além de vizinhos eram muito próximos, como se fossem da mesma família.

A aproximação entre o casal é lenta. Apesar de se conhecerem há anos, Billie e George nunca foram exatamente amigos. Então muitas coisas acontecem até que a amizade fique mais próxima e depois eles percebam que estão apaixonados um pelo outro. Até quase a metade do livro tive a impressão de que não ia acontecer nada além de alguns diálogos bem humorados e algumas fagulhas entre os dois, mas em seguida tudo foi ficando mais romântico e eu só consegui parar de ler quando cheguei ao fim.

 

“Billie sorriu, e George ficou sem ar. Ninguém sorria como Billie. Nunca sorriria. Ele sabia disso há anos e ainda assim… só agora…” (cap. 14)

 

Uma dama fora dos padrões é uma delícia de livro. Com uma trama descomplicada, mas ao mesmo tempo viciante, Julia Quinn mais uma vez nos presenteia com o tipo de história que só faz bem ao coração.

 

 

 

Título: Uma dama fora dos padrões (Os Rokesbys #1)

Autora: Julia Quinn

Tradução: Viviane Diniz

Editora: Arqueiro

Páginas: 272

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agosto 07, 2018

[RESENHA] ENTRE IRMÃS, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

Sinopse: Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.”

 

Às vezes, tenho a impressão de que gastamos o nome heroína com personagens que são, simplesmente, protagonistas. Tal dispêndio, entretanto, não ocorre em Entre Irmãs (Arqueiro, 2017). Frances de Pontes Peebles nos presenteia com duas protagonistas que são verdadeiramente heroínas, cada uma a seu modo: Luzia, a Vitrola — alcunha que ganhou após sofrer um acidente que deixou um de seus braços defeituoso, torto como uma vitrola, — E Emília, uma jovem inconformada com sua condição social, uma matuta nas palavras da irmã, que deseja a todo custo ir para a cidade e ser como as mulheres que ela vê impressas nas páginas de sua revista favorita, a Fonfon.

A forma como o livro foi estruturado foi brilhante no sentido de fazer com que o leitor se afeiçoasse as duas irmãs quase não sendo possível ter uma preferência entre elas. Cada capítulo (e suas subdivisões) é centrado em uma das personagens, intercalando Emília e Luzia como uma colcha de retalhos em terceira pessoa. Apesar da prosa bastante descritiva da autora, Entre Irmãs é uma leitura saborosa e, em pouco tempo, o leitor devora as mais de quinhentas páginas quase sem pestanejar.

 

 

Uma curiosidade sobre Entre Irmãs é que o livro foi escrito originalmente em inglês. Embora a autora seja brasileira, a tradução do romance foi feita por Maria Helena Rouanet. Esse é um detalhe, entretanto, que não fica perceptível nem incomoda, acredito que pelo ótimo trabalho da tradutora e também pela obra em si, que tem uma temática bem brasileira. O romance foi publicado no Brasil com outro título, antes da adaptação em filme e série, com o nome de A Costureira e o Cangaceiro.

Entre Irmãs é o tipo de livro que fica na memória. É marcante, dá um nó na garganta. Por vezes tive vontade de que Emília e Luzia fossem reais, para que eu pudesse abraçá-las. Lembrei que mulheres fortes como elas existiram e ainda existem aos montes no nosso país.

As três personagens mais queridas por mim neste livro me ensinaram coisas valiosas que eu vou guardar para a vida. Tia Sofia me ensinou que eu não devo desperdiçar as minhas lágrimas. Luzia mostrou que as mulheres são ainda mais fortes do que imaginam. Emília me fez perceber que é preciso ter muita determinação para não ser levada pela maré das coisas tidas como fáceis, previsíveis.

 

 

Eu poderia ficar horas e horas falando sobre Entre Irmãs, mas esse é um livro bom demais para ser simplesmente resumido. Você precisa ler para fazer parte daquelas histórias, tornar-se íntima das irmãs Dos Santos. Ir embora de Taguaritinga e enfrentar uma sociedade implacável ou percorrer o sertão a ponto de ser parte dele.

Entre Irmãs me remeteu fortemente aO Quinze, de Rachel de Queiroz, quando, lá pelo capítulo 9, mostrou um dos campos de concentração criados pelo governo para tentar remediar a seca no sertão. Frances foi além ao mostrar, mais que a miséria, um pouco da corrupção que envolvia a distribuição de comida nos tempos mais severos dos períodos de seca.

Não foi somente uma das melhores leituras que fiz em 2018. Entre Irmãs foi um dos melhores livros que eu li na vida. É um monumento em forma de livro. Obrigada, Frances de Pontes Peebles.

 

 

 

Título: Entre Irmãs

Autora: Frances de Pontes Peebles

Tradução: Maria Helena Rouanet

Editora: Arqueiro

Páginas: 576

 

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