janeiro 10, 2019

[RESENHA] QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?, DE DJAMILA RIBEIRO

Sinopse: “Um livro essencial e urgente, pois enquanto mulheres negras seguirem sendo alvo de constantes ataques, a humanidade toda corre perigo.

Quem tem medo do feminismo negro? reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista Carta Capital , entre 2014 e 2017. No texto de abertura, a filósofa e militante recupera memórias de seus anos de infância e adolescência para discutir o que chama de “silenciamento”, processo de apagamento da personalidade por que passou e que é um dos muitos resultados perniciosos da discriminação. Foi apenas no final da adolescência, ao trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, que Djamila entrou em contato com autoras que a fizeram ter orgulho de suas raízes e não mais querer se manter invisível. Desde então, o diálogo com autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, bell hooks, Sueli Carneiro, Alice Walker, Toni Morrison e Conceição Evaristo é uma constante.

Muitos textos reagem a situações do cotidiano — o aumento da intolerância às religiões de matriz africana; os ataques a celebridades como Maju ou Serena Williams – a partir das quais Djamila destrincha conceitos como empoderamento feminino ou interseccionalidade. Ela também aborda temas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Estados Unidos e no Brasil, além de discutir a obra de autoras de referência para o feminismo, como Simone de Beauvoir.”

 

Quem tem medo do feminismo negro? Por que esse tema causa tanto incômodo e é tratado por tanta gente como “mais uma divisão desnecessária”, “vitimização” ou (o péssimo) “mi-mi-mi”?

Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2018) é um livro que não se deve nem tentar resumir. Não seria justo. É uma leitura extremamente necessária e eu recomendo muitíssimo que você considere ler esse livro o quanto antes. A nossa sociedade nos condiciona a pensar que o feminismo negro é uma besteira, pois “é tudo feminismo” e as mulheres, todas elas, sofrem o mesmo tipo de machismo. Além disso, ainda é muito questionada a necessidade de cotas raciais além das já existentes cotas sociais. Esses, dentre outros temas, são tratados nos artigos reunidos nesse livro, publicados originalmente na Carta Capital. Djamila Ribeiro traça um panorama preciso da questão do negro, sobretudo da mulher negra, no Brasil ainda racista em que vivemos.

 

Veja também: O perigo da história única, por Chimamanda Ngozi Adichie (vídeo legendado):

 

Quem tem medo do feminismo negro? não é um livro para pessoas desconstruídas, lacradoras e toda quantidade de adjetivos modernos e irônicos até que vemos hoje em dia pela internet. Aqui, tem-se a oportunidade de aprender um pouco mais com alguém de posse do seu lugar de fala, narrando suas experiências pessoais, profissionais e acadêmicas. Não há lugar para achismos, pois mesmo quando Djamila comenta casos de racismo amplamente conhecidos do grande público, como o do goleiro Aranha ou da jornalista Maju Coutinho, é um pouco mais dela, do que ela já passou, que também conhecemos. Djamila, diferente de muitos dos grandes veículos de comunicação, não contemporiza nem trata como “caso isolado” tais ataques, postura que seria fundamental para que se mudasse a ideia de que “agora tudo é racismo”, minimizando os fatos.

Embora haja esforços recomendando o contrário, agora, mais do que nunca, é o momento de ler, conhecer, estudar e entender o feminismo em todas as suas formas. E em um país racista como o Brasil, é fundamental saber de fonte confiável o que é o feminismo negro. Sugiro começar por essa leitura.

 

 

 

Título: Quem tem medo do feminismo negro

Autora: Djamila Ribeiro

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 120

 

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dezembro 17, 2018

[RESENHA] MEU LIVRO VIOLETA, DE IAN McEWAN

Sinopse: “‘Meu livro violeta’ é uma pequena joia da narrativa curta sobre o crime perfeito. Mestre do suspense e do enredo, Ian McEwan descreve uma traição literária meticulosamente forjada e executada sem escrúpulos. Publicado em janeiro de 2018 na prestigiosa revista New Yorker, o conto revisita um tema caro ao autor e tratado em livros como Amsterdam: as ambivalências das relações de amizade entre dois artistas, com doses desmedidas de admiração e inveja.
Ao conto que dá título ao livro se segue o libreto “Por você”, escrito para a ópera de Michael Berkeley. Profundo conhecedor de música, McEwan apresenta uma cativante história de amor e traição envolvendo quatro personagens: o regente e compositor Charles Frieth, sua esposa, uma admiradora, e o médico da família. Em sua primeira incursão no universo da ópera, McEwan mostra que seu talento como criador de histórias segue sendo insuperável.”

 

Ian McEwan não decepciona. Mesmo em duas histórias curtas como Meu livro violeta, que dá nome à publicação da Companhia das Letras (2018), com tradução de Jorio Dauster, e o libreto para ópera de Michael Berkeley, Por Você, é impossível não ser fisgado pela perspicácia do escritor inglês e de seus personagens extremamente (e desconfortavelmente) humanos como nós.

Meu Livro Violeta é uma leitura bem rápida, li as duas histórias no trajeto de ida e volta de casa para o trabalho de ônibus, pouco mais de uma hora, sem contar os minutinhos esperando o coletivo. Ambas as narrativas falam da corrupção humana, e da tentação de cometer um crime levadas às últimas consequências, resultando em crimes perfeitos. Em Meu Livro Violeta, o delito é o da inveja: aqui temos dois escritores que eram muito próximos na juventude, mas que o sucesso, a fama e o dinheiro não acontecem para os dois da mesma forma. Já no libreto Por você, temos um crime de amor, ou motivado pela falta dele.

Se você gosta de um bom suspense, de uma trama bem amarrada e envolvente, Meu Livro Violeta é uma ótima pedida.

 

 

Título: Meu Livro Violeta

Autor: Ian McEwan

Tradução: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 128

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dezembro 14, 2018

[RESENHA] ADULTA SIM, MADURA NEM SEMPRE: FRALDAS, BOLETOS E POUCO COLÁGENO, DE CAMILA FREMDER

Sinopse: A vida adulta chega de uma hora para outra e nem sempre estamos preparados para ela. E tudo bem.

Um dia você é a jovem moderna que ouve música alta e incomoda a vizinha. Num piscar de olhos é você quem está interfonando para o porteiro e reclamando, aos berros, do som da garota que mora no andar de cima. O que aconteceu? Simples: a vida adulta chegou. Quer dizer, não tem nada de simples.
Como Camila Fremder mostra neste seu novo livro, a vida adulta costuma chegar de uma hora para outra, sem avisar, sem um curso preparatório, sem nada. Ou pelo menos é assim que a gente se sente. E a consequência disso é muito estranhamento, reflexões e boas risadas.
Saem de cena as noites agitadas e os dias sem grandes preocupações, sendo substituídos por fraldas (no caso de quem tem filho), boletos e muita paranoia com a aparência. Com observações perspicazes e bom humor, Camila nos ajuda a entender e aceitar melhor essa transição. Um livro que você não vai conseguir largar. A menos que o bebê acorde ou esteja na hora de você correr para o batente.”

 

É muito estranho, mas terminei esse livro com a sensação que a Camila Fremder espiou os últimos anos da minha vida pela fresta da porta e só mudou um detalhe ou outro para compor Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno (Paralela, 2018). Não é possível que as mulheres adultas, sobretudo as com filhos, sejam tão iguais. Ou seria?

Sou muito fã do livro Como ter uma vida normal sendo louca (Agir, 2013) e neste livro solo Camila Fremder também conseguiu me arrancar boas risadas, além de me deixar pasma com o quanto temos em comum (me adiciona no zap, Camila?). Só não li o livro em uma única sentada porque precisei parar na hora do meu almoço: recebi um alerta das lojas americanas, as fraldas e os lenços umedecidos estavam em promoção! Quem é mãe sabe que promoção de fralda é uma notícia tão boa quanto ouvir que o salário caiu na conta. Neste caso, o salário conta como um aviso que você já pode ir até as lojas americanas para comprar fraldas e lenços umedecidos.

As mães de primeira viagem com filhos ainda pequenos e as gestantes vão se identificar muito com esse livro (como eu queria ter lido esse livro quando estava grávida da Olívia!), mas ele também pode ser uma ótima pedida para as mulheres que ainda não têm filhos (mas planejam no futuro), ou para as tias que em breve ganharão um sobrinho, ou ainda se você tem uma grande amiga que vai ser mamãe. Até se você não for nada disso, mas queira rir um pouco e saber como é a vida do lado de cá. Adulta sim, madura nem sempre é um livro super divertido, muito na pegada “maternidade real” e “vida real”, pois a vida adulta é mesmo cheia de medos, inseguranças, frustrações, mas é só respirar fundo e repetir “vai ficar tudo bem”, que os batimentos cardíacos logo voltam ao normal (dica da Camila).

 

“Porque ser adulto, no final das contas, é descobrir novos medos e enfrentá-los todos os dias.”

 

“Hoje já visto looks mais elaborados, mas sempre fazendo composições que são a cara da mãe moderna, como uma mancha de papaia no canto da gola alta, ou um resto de queijo branco estrategicamente grudado na alça da bolsa, onde fica evidente também a tampa da mamadeira para fora. E, para dar textura aos cabelos, nada como uma sopa de mandioquinha com espinafre. É incrível como a moda me acompanha em todos os momentos da vida.”

 

Deixando aqui o meu depoimento, porque mãe adora falar sobre a sua cria e eu não sou diferente de jeito nenhum, no trabalho eu sempre demoro algum tempo para perceber que estou com a roupa suja, por mais que eu faça tudo-o-que-tem-de-ser-feito para arrumar a Olívia para ir para a casa da avó dela ANTES de me vestir para o trabalho. De vez em quando o meu colega, meio sem jeito, fala “Tamires, tem uma coisa aí na sua blusa…”. E sabe de uma coisa, eu acho graça toda vez. É a vida que eu escolhi para mim e todo mundo — que tem filhos crescidos — diz para eu aproveitar bastante, porque essa fase é ótima.

Falando em fase ótima, ainda não stalkeei, mas acho que o filho da Camila é mais novo que a minha filha Olívia. Sabe por que eu sei? Se o Arthur tivesse a idade da Olívia, esse livro teria pelo menos um capítulo sobre desenhos e séries infantis e como essa programação torna-se mais presente na nossa vida que as produções para adultos. Um belo dia o seu filho está dormindo e você ainda está assistindo — com atenção — a algum episódio do Show da Luna (aprendo muita coisa com a Luna, não tenho vergonha em admitir). Em outro, o seu marido te chama para ver aquele episódio em que a Peppa Pig vai até o Palácio de Buckingham conhecer a Rainha Elizabeth, tentando não te dar spoilers porque ele já viu.

Mas isso tudo melhora, aos poucos a programação vai ficando mais diversa. Um dia eu estava vendo um pedacinho de Cinquenta tons de liberdade com a Olívia (por favor, leiam até o final e não chamem o Conselho Tutelar), só o comecinho, de curiosidade, e ela falou “olha o papai e a mamãe de moto na praia”. Fiquei toda inchada, porque se o Christian e Anastasia Gray são como o papai e a mamãe, ela nos tem em altíssima conta! Para que todos fiquem tranquilos, na primeira vez em que o casal ficou sozinho no quarto (eles estavam em lua de mel, como se precisassem de motivo para transar… quem leu os livros sabe do que estou falando) eu mudei de canal, porque com criança a gente tem que ter muito cuidado com o que assiste e com o que fala. Eles ouvem e repetem mesmo se você disser “merda” lá da cozinha e eles estiverem no quarto, vai por mim.

Voltando ao livro, Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno, é uma ótima leitura, com texto leve, divertido, capítulos curtos e viciantes, tudo de bom! Aproveita e compra logo dois, pois esse é um livro ótimo também para presentear!

 

 

 

Título: Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno

Autora: Camila Fremder

Editora: Paralela

Páginas: 144 (e-book)

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