Janeiro 12, 2018

[RESENHA] VIDAS MUITO BOAS, DE J. K. ROWLING

Sinopse: “Como podemos aproveitar o fracasso?” “Como podemos usar nossa imaginação para melhorar a nós e os outros?”. J.K. Rowling responde essas e outras perguntas provocadoras em Vidas muito boas, versão em livro do famoso discurso de paraninfa da autora da série Harry Potter na Universidade de Harvard, que chega às livrarias brasileiras no dia 7 de outubro. Baseado em histórias de seus próprios anos como estudante universitária, a autora mundialmente famosa aborda algumas das mais importantes questões da vida com perspicácia, seriedade e força emocional. Um texto cheio de valor para os fãs da escritora e surpreendente para todos que buscam palavras inspiradoras.

 

Eu sempre digo que não gosto muito de livros de autoajuda. E não gosto mesmo. Mas antes de fazer essa afirmação categórica, passei anos lendo livros que visavam transformar a minha vida assim que eu terminasse de ler a última palavra e fechasse o volume. Desde casos reais que me colocariam no caminho da riqueza, até fábulas que me fariam bem sucedida. Alguns deles, indicados no curso de Administração que eu larguei faltando pouco menos que metade dos créditos para colocar as mãos em um fabuloso diploma que, eu percebi no decorrer do curso, não me levaria ao lugar que eu sonho para o meu futuro.  No geral, livros de autoajuda ajudam mesmo ao autor e as editoras, que efetivamente ganham com as inúmeras reimpressões desses livros. Muitos títulos não trazem uma mensagem consistente, apenas o pare o que está fazendo e faça o que eu digo.

Em Vidas Muito Boas, J. K. Rowling segue na contramão desses livros, e por isso a edição lindinha da editora Rocco torna-se um presente (ou um alerta) para ler ocasionalmente. O texto é, na verdade, o discurso para os formandos do ano de 2008 da Universidade de Harvard, e já foi amplamente divulgado na internet.

Talvez você esteja se perguntando por que uma pessoa que não gosta de livros de autoajuda comprou um livro justamente de autoajuda que já foi amplamente divulgado na internet. Compra compulsiva? Edição bonitinha? Para simplesmente escrever esse texto? A resposta é um pouco de tudo isso, e mais: palavras como essas de Vidas Muito Boas são necessárias em nossa vida, eventualmente. São para ouvir, ler, falar e também presentear. Aqui não temos fórmulas mágicas para amar, enriquecer ou ser o CEO magnífico top das galáxias. J. K. Rowling fala sobre suas experiências de fracasso e de como tudo o que ela passou refletiu e ainda reflete em sua vida. Não a toa que o subtítulo do livro é As vantagens do fracasso e a importância da imaginação. Ela não ensina a tirar leite de pedra, mas mostra que, se for necessário, nós conseguimos.

Recomendo muito a leitura desse discurso. Você pode começar a se inspirar assistindo ao vídeo abaixo. Particularmente, acredito que o destino do meu exemplar de Vidas Muito Boas será o mesmo que os vários que eu comprei de Faça Boa Arte, de Neil Gaiman: presentear pessoas especiais a fim de que elas lembrem, de tempos em tempos, que está tudo bem cair e levantar de vez em quando. O importante é não esquecer que podemos sempre erguer a cabeça e ir em frente.

 

 

“Existe um prazo de validade para culpar os pais por guiarem vocês para o lado errado; no momento em que vocês têm idade para assumir o controle, a responsabilidade é sua.” (p. 20)

 

 

Título: Vidas Muito Boas

Autora: J. K. Rowling

Tradução: Ryta Vinagre

Editora: Rocco

Páginas: 80

Compre na Amazon: Vidas Muito Boas

 

Inspire-se agora mesmo com o discurso de J. K. Rowling em Harvard (legendado em português):

dezembro 14, 2017

[RESENHA] SOB OS ACORDES DOS ANJOS, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Joss Horsfield tem o curso de sua vida alterado quando, no leito de morte, o Marques de Lands End, seu pai, reconhece seu irmão bastardo como filho e revela a grande farsa em que suas vidas foram enredadas. Agora, ao lado de seu irmão, ele começa uma busca pela mãe biológica de ambos. Mas a procura pela verdade traz novas descobertas, como duas primas que sobreviveram a um incêndio criminoso que matou toda a família: Celestine, uma louca que passou a vida escondida num hospício – e a quem ele teria que suportar –, e Estell, que durante a fuga das chamas se perdeu da irmã, foi levada para França, e retorna a Londres para um ajuste de contas. Joss, agora, tem que lidar com as consequências de mexer no passado, mas o que ele não esperava era que a louca Celestine o ensinaria outro tipo de loucura: a de amar alucinadamente.

Um romance intenso, personagens apaixonantes e o tempo, provando que ele gira, mas nada lhe passa impune.”

 

Sob os acordes dos anjos é o mais novo lançamento da autora Chirlei Wandekoken, da Pedrazul Editora. Com um título marcante e uma capa lindíssima, tão logo o e-book foi anunciado nas redes sociais eu o peguei de empréstimo no Kindle Unlimited para dar uma olhadinha rápida. Pouco tempo depois, já tinha lido cinco capítulos. No dia seguinte, cheguei ao final. A história é tão intensa e viciante, que eu duvido que algum leitor — especialmente um aficionado por romances de época ou históricos — seja capaz de abandonar essa leitura.

O livro começa com revelações sobre um amargo passado, o qual o Marquês de Lands End resolve não levar para o túmulo: muitas mentiras e mortes entrelaçam as vidas de seu filho Joss Horsfield, do bastardo Ray, reconhecido pelo Marquês no leito de morte, e das primas Celestine e Estell, que tiveram suas infâncias roubadas quando um incêndio criminoso matou toda a sua família. Joss descobre que sua mãe biológica está viva, porém confinada em um hospício. Ela fora posta lá por vingança de Catherine, a falecida Marquesa, uma ambiciosa e cruel mulher que roubou um dos filhos de Josephine, Joss, e dera ordens de matar o outro, Ray. Ela decidiu se casar com o Marquês por prestígio, envolvendo-o em sua teia aproveitando-se das dificuldades financeiras que ele enfrentava.

Investigando o passado, Joss descobre que uma das primas, Celestine, viveu com Josephine no hospício, fingindo-se de louca para proteger a prima. Estell, que teve uma valiosa ajuda quando ocorreu o incêndio, acabou sendo adotada na França, voltando para Inglaterra muito tempo depois.

 

“— Meu Deus! Há quanto tempo eu não sinto o toque de uma flor em minhas mãos, o seu cheiro… Que coisa mais linda! Que perfume doce! Como é bom ser livre de novo!

Joss, surpreso, olhou para ela, pois a voz da pessoa que havia dito aquela frase era uma voz normal, sem a agudez gutural que ela sempre infligia, sem nem um quê de loucura, muito pelo contrário. Os olhos violeta de Celestine estavam marejados, e um sorriso — um lindo sorriso — surgia nos lábios rosados.

Joss ficou hipnotizado pelo brilho daquele instante.”

 

Neste romance vemos como o tempo é implacável: todos os personagens, direta ou indiretamente, herdaram os feitos de seus antepassados. As disputas, os crimes e os amores da geração anterior formam a rede de intrigas e segredos a ser desvendada pelos mais jovens. Assim o relógio caminha. Nas mãos de alguns está a possibilidade de justiça.

Sob o acorde dos anjos tem como foco (romântico) principal a relação entre Joss e Celestine, uma moça sem modos, com pouco equilíbrio mental, mas muito verdadeira em seus sentimentos. O título do romance faz referência a uma linda cena quando eles se conheceram. Entretanto, temos outros casais pelos quais suspirar, alguns deles terão suas histórias contadas em futuros lançamentos da autora. Em resumo, o que posso dizer sobre este livro é que o enredo é surpreendente, com toques pontuais de sensualidade e erotismo, um cenário belíssimo (a idílica Cornualha!) e personagens apaixonantes, cada um a seu modo. Leitura mais que recomendada!

 

 

 

Título: Sob os acordes dos anjos
Autora: Chirlei Wandekoken
Edirora: Pedrazul
Páginas: 191

Compre na Amazon (disponível também para assinantes Kindle Unlimited): Sob os acordes dos anjos.

 

O que vem por aí: Série Paixões

Paixão de Recomeço: “Rosamund Lydgate era uma jovem viúva e amante de um lorde na Cornualha. Sempre tinha sido apaixonada por ele, mesmo antes de se casar com um cavalheiro que tinha idade para ser seu avô. Mas Rosamund vê seu mundo ruir quando esse lorde a abandona por outra. Desconsolada, ela se deixa cuidar por Sam Brooke, um doce e belo cavalheiro que sempre tinha sido apaixonado por ela. Pode uma mulher aprender a amar? Pode um coração partido voltar a ter paz? É possível voltar a sorrir depois de uma desilusão? Neste inebriante romance sobre recomeço, os personagens descritos mostram que felicidade é um conceito e que a alegria está dentro de casa um, basta deixá-la fluir.”

 

Paixão de Reencontro: “Jannie Beechworth estava pronta para se casar com outro, quando lorde Saymon Stanbury a sequestra a caminho da igreja. Forçando sua amada a se casar com ele na Escócia, Saymon terá que provar que aquele reencontro é para valer. Mas quem foi ferida uma vez tem medo da entrega, e Jennie, a fermentada, como lorde Stanbury a chama, não facilitará as coisas. Determinado a reconquistá-la, Saymon jurou que a fará implorar por ele, e o lorde costuma cumprir suas promessas.”

 

Paixão Além dos Mares: “Roger Montgomery, de Arundel Castle, estende sua Grand Tour para a Grécia e chega a Rhodes, um lugarejo medieval, parado no tempo. Mas o que Montgomery não imaginava é que sua fascinação pela Grécia antiga ganharia um nome: Saphira. Em visita à residência do Grande Mestre, ele se apaixonou pela filha de um dos 14 Cavaleiros da Ordem de São João, uma tradição bizantina do século 7d.C., destinada a se casar com um dos novatos cavaleiros. Mas, completamente alucinado pela beleza exótica da moça, ele a rouba e a leva para a Inglaterra. Um romance tórrido sobre as águas do mediterrâneo.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança, e sua terapia é escrever. Como leitora, sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances contemporâneos de época e os históricos. Como escritora, visita o passado, mas também escreve romances contextualizados nos tempos atuais.

São de sua autoria A Estrangeira, A Ama InglesaUm Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz, que compõem a série independente O Quarteto do Norte, e escreveu também Sob os acordes dos anjos, Quando os céus conspiram e Comprada por um lorde.

A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

dezembro 08, 2017

[RESENHA] OLHOS D’ÁGUA, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Sinopse: “Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.”

 

Conceição Evaristo foi uma grata descoberta que fiz neste ano de 2017. Tendo lido apenas (até o momento) o livro Olhos d’água, já me tornei fã da autora. Para escrever essa resenha, reli todos os contos. E não foi nenhum sacrifício, posso garantir.

Olhos d’água, antologia de contos de Conceição Evaristo, publicada pela primeira vez pela Pallas Editora em 2014 e sendo reimpresso várias vezes desde então, é o tipo de livro que incomoda. Faz chorar, ter medo, desperta empatia. Quando terminei a leitura, prometi a mim mesma que, se um dia eu for professora, todos os meus alunos conhecerão esse livro. Caso eu não seja, ele fica mais que recomendado aqui no blog. A autora da voz e vez a uma parcela da população que historicamente é silenciada. E os contos são de uma escrita tão precisa e tão poética que é impossível não se emocionar.

 

“Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

(…)

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra.” (ps. 18 e 19)

 

“Ela é que não ia ficar ali assentada. Se as pernas não andam, é preciso ter asas para voar.” (p. 32)

 

As mulheres criadas por Conceição Evaristo, e os homens também, embora em menor número, falam de temas sociais e existenciais de uma forma que os personagens poderiam ser qualquer pessoa. Poderia ser eu, ou você. A dureza da vida, a fome, a violência, os abusos e a linha tênue da permissão. A perda precoce da infância. O amor em várias formas, a morte e a condenação sem justiça. Todos esses temas e alguns outros estão presentes em Olhos dágua. Dentre tantas lágrimas, com a leitura desse livro eu também passei a me questionar qual era a cor dos olhos de minha mãe.

Olhos d’água  tem prefácio de Heloisa Toller Gomes e introdução de Jurema Werneck. São quinze contos que, se não conseguirem te fisgar por sua sensibilidade, pelo menos vão mostrar uma faceta realista e pela voz de quem sente na pele o que é ser negro em um país como o Brasil.

 

 

SOBRE A AUTORA: Conceição Evaristo nasceu em uma favela da zona sul de Belo Horizonte. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ.

Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série Cadernos Negros, publicada pela organização.

É Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.

 

 

Título: Olhos D’água
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Páginas: 116

 

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