dezembro 12, 2018

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE III)

 

Não vou mentir: nesse ponto já cansamos dessa loucura que é o estágio supervisionado. Mas, como nem tudo são espinhos, a vantagem dessa etapa, o Estágio Supervisionado III, é que você já sabe tudo o que precisa fazer e como fazer. É só arregaçar as mangas e ir à luta!

 

Leia também: Eu, Estagiária Parte I e Parte II.

 

Inicialmente, os procedimentos burocráticos são os mesmos: preencher os termos de compromisso, enviar para a Universidade, levar até a escola parceira para colher a assinatura da direção, levar até a regional de ensino com os documentos pessoais e a carta de apresentação do polo CEDERJ para a liberação do estágio. Nesse meio tempo em que a papelada vai para lá e para cá, na plataforma sempre temos algumas atividades como relatório de experiências, resenha ou a elaboração de alguma atividade de pesquisa para fazer. Muitas atividades realizadas para o Estágio II são repetidas no Estágio III. A agenda de atividades é praticamente a mesma, com a diferença de que aqui você vai ter de ministrar pelo menos uma aula na escola parceira. Na verdade, precisamos elaborar dois planos de aula completos, com texto base, atividade e material complementar, mas caso você não consiga (ou não queira) dar as duas aulas na escola (ou apresentar o seu material para a professora regente), no Estágio III é possível dar uma das aulas no polo CEDERJ, para a tutora presencial de estágio.

 

“Para o Estágio Supervisionado III foram realizadas atividades de observação na turma base 3001, do terceiro ano do Ensino Médio, coparticipação junto a essa turma, realizando atividades como correção de exercícios e redações, auxílio individual aos alunos, confecção de materiais didáticos e instrumento de avaliação, além de outras atividades de pesquisa realizadas em casa. Com todo o suporte do polo regional CEDERJ, pela tutora presencial Danielle Marreiros Valleriote; da escola, pela direção e pela professora regente Joelma Pimentel, além da equipe pedagógica do Colégio Estadual Rotary, o estágio transcorreu tranquilamente.

Com a experiência adquirida especialmente no Estágio Supervisionado II, neste semestre as atividades previstas não foram tão complexas. Tendo o hábito de pesquisa como modus operandi o desafio aqui foi aplicar os conhecimentos estudados para nosso desenvolvimento didático, ou seja, descobrir a melhor forma de lecionar.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio III)

 

Material complementar do plano de aula “A Literatura de Cordel”.

 

“Diferente dos estágios I e II, no Estágio Supervisionado III, o aprendizado que fica mais evidente é o da prática docente, da didática para além dos livros.

O substantivo “didática” é de origem grega e significa “arte ou técnica de ensinar”. Nos cursos de Licenciaturas integrantes do Consórcio CEDERJ temos a disciplina de Prática de Ensino I – Didática, ofertada no quarto período (no caso do curso de Letras), que nos dá uma dimensão sobre tendências pedagógicas, construção da identidade docente, cotidiano escolar, dentre outros temas, aprofundados na disciplina Pratica de Ensino II, do quinto período. Com o Estágio Supervisionado, principalmente neste semestre, foi possível recordar toda a teoria estudada nessas disciplinas.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio III)

 

Eu comecei essa postagem reclamando (nas fotos, ao contrário, estou sempre sorrindo!), mas a verdade é que o estágio é muito importante para o aluno de licenciatura. Sem ele, não teríamos a menor ideia de como repassar tanto conteúdo aprendido durante os quatro anos e meio do curso de Letras. Além disso, o estágio nos dá um choque de realidade quanto à profissão de professor. Dentro da escola a gente não aprende apenas a ensinar, mas também a ouvir e a compartilhar.

 

“Um exercício bastante favorável para a nossa formação, e que tem sido constante nos Estágios Supervisionados, é o de pesquisa. Nas nossas agendas de atividades dos estágios II e III elaboramos materiais didáticos, o que é positivo para o estímulo à nossa criatividade; também selecionamos textos e materiais audiovisuais que poderiam ser usados em sala de aula; além das leituras e resenhas elaboradas pelo aluno estagiário. Essas atividades contribuem para a criação de um hábito — se já houver, pode reforçá-lo — de pesquisa, leitura, interpretação e escrita, fundamentais para que o professor se mantenha atualizado e possa dar aulas cada vez mais atraentes para os seus alunos.”  (Extraído do meu Relatório Final do Estágio III)

 

Apresentação do projeto de material complementar “Bingo Literário”.

 

“O Estágio Supervisionado das licenciaturas viabilizadas pelo CEDERJ contam com o apoio de uma grande rede em prol da educação: coordenação de curso e de polo presencial, tutores presencial e a distância, professora regente e direção escolar, colegas de curso, alunos, comunidade escolar e, muitas outras pessoas nas nossas redes particulares que acabam por se envolver com o nosso trajeto. Dessa forma, acreditamos que, com todas as dificuldades, o estágio é eficiente na promoção e disseminação de uma educação solidária e libertadora.” (Extraído do meu Relatório Final do Estágio III)

 

O estagiário tem sempre um relatório ou trabalho para fazer surante o semestre, mesmo quando as atividades de campo já acabaram. Prova disso é que neste semestre (2018/2) precisamos gravar um vídeo apresentando um dos nossos planos de aula. Foi a minha primeira vez na frente de uma câmera e, definitivamente, não sirvo para ser Booktuber de jeito maneira!

 

“Às quartas gravamos vídeos para o Youtube” #sóquenão

 

O próximo semestre, 2019-1, será o meu último semestre de estágio e também (se tudo der certo, torçam por mim!) o meu último semestre do curso de Licenciatura em Letras (UFF/EAD CEDERJ). Estou nervosa, ansiosa, vou cursar matérias além da matriz curricular porque amo Linguística e não quero perder a chance de me aprofundar nessa área linda, mas, acima de tudo, vou finalmente poder chegar aqui e postar: Eu, Formada. Até lá!

 

***

 

P.S.: Conselho estilo livro de autoajuda: não desanime, pois as dificuldades durante o estágio podem ser tantas que eu nem conseguiria enumerar. Direcione a sua visão para as coisas boas, para o aprendizado, para aprovação no final do semestre. Para você que está lendo agora ter uma ideia, no meu primeiro dia de trabalho de campo, quando fui combinar os dias e horários com a minha professora regente, no Colégio Estadual Rotary, o pneu da minha moto furou bem na hora de eu ir embora para casa (diga-se de passagem, horário de almoço, minha barriga estava roncando), e se não bastasse, caiu a maior chuva. Mas, como eu disse, nem tudo são espinhos, consegui uma ajuda para empurrar a moto até o mecânico mais próximo, peguei a chuva mais fraca na volta para casa (minha casa fica a 47 Km da escola base) e o meu almoço tava prontinho me esperando, porque eu não sou boba nem nada e já deixei pronto de véspera. No fim dá tudo certo, pode confiar!

 

dezembro 11, 2018

[RESENHA] NADA, DE CARMEN LAFORET

Sinopse: “Nada é um romance inesquecível. Escrito em 1944, quando a autora tinha apenas vinte e três anos, e vencedor da primeira edição do prêmio Nadal, é considerado uma das obras espanholas mais importantes do século XX. Sefundo Mario Vargas Llosa, é um romance composto com maestria, e, para o New York Times, ainda hoje ‘o charme peculiar do livro continua inalterado’.

A história é narrada por Andrea, uma jovem órfã que se muda para a casa da avó, em Barcelona, para cursar Letras na universidade local. Mas o cenário que encontra, logo depois da Guerra Civil Espanhola, é desolador. Os familiares, empobrecidos, amontoam-se em um casarão decadente, onde discutem ferozmente pelos motivos mais mesquinhos. E a vida universitária esconde segredos e falsas amizades. Em Nada, esses dois mundos convergem em um diálogo dramático, num texto que renovou a literatura espanhola pós-guerra.”

 

Nada, de Carmen Laforet, é um livro que fica ecoando na mente da gente por vários dias depois que fechamos a última página. Foi uma leitura tão peculiar, que no final eu não consegui saber com certeza se o livro era bom o ruim. Apenas que a temporada na Rua Aribau me marcaria para a vida inteira.

Andrea é uma jovem e humilde órfã que está de mudança para Barcelona para estudar Letras, por volta dos anos de 1940 (pós Guerra Civil Espanhola). Seria o começo de uma nova vida, na casa de sua avó, lugar de onde ela guarda boas lembranças. Todas as expectativas sobre seu novo lar, no entanto, são quebradas quando ela chega ao casarão situado na Rua Aribau: sua família está longe de ser composta por pessoas normais, o lugar é sujo e sombrio e de imediato ela percebe que não terá uma vida fácil naquele lugar. A única pessoa mais amigável da casa é a sua avó, mas Andrea não consegue estabelecer uma relação muito próxima a ela.

O romance é dividido em três partes. Na primeira, o foco é a relação de Andrea com sua tia Angústias, uma beata solteirona disposta a cuidar da sobrinha com rédeas curtas no que tange a moral e os bons costumes. Já na segunda, temos a amizade de Andrea e Ena, uma amiga de família abastada da faculdade, como plano principal. E na terceira parte, temos uma Andrea quase sendo parte das loucuras da casa da Rua Aribau, tendo completado um ano morando naquele lugar.

 

Livro “Nada”, de Carmen Laforet, Revista TAG Curadoria Novembro-2018 e Coletânea de Poesias “Rua Aribau”, organizada por Alice Sant’Ana.

 

Andrea é uma personagem muito real. Não é boa, mas também não consigo vê-la como uma pessoa ruim. Ela é como um passarinho que mesmo depois de ter a porta de sua gaiola aberta, não tem recursos suficientes para alçar voo. Em meio à loucura de seus tios e a senilidade de sua avó, ela é firme na certeza de não fazer parte daquilo, de ser lúcida e maior que aquelas pessoas que, na verdade, são apenas um reflexo em alta resolução dela própria.

A pobreza e a fome são personagens importantes neste romance, de uma forma bastante tangível, especialmente na família de Andrea. A protagonista, que recebe uma modesta pensão, decide não ajudar nas despesas da casa — portanto fica impedida de fazer suas refeições nela — mas gasta todo o dinheiro em três dias, comendo em lugares caros e, eventualmente, presenteando com flores a mãe de sua amiga Ena. Nos outros dias, Andrea sofre com uma fome angustiante, aliviada pelas refeições feitas em visitas à Ena, e pelos restos deixados por sua avó.

“Ela me fez sentir tudo o que eu não era: rica e feliz. E nunca me esqueci disso.” (p. 71)

 

“O fato é que eu me sentia mais feliz desde que me desvencilhara daquele nó das refeições familiares. Pouco importava que naquele mês eu tivesse gastado demais e o orçamento de uma peseta diária mal desse para comer: no inverno, o meio-dia é a hora mais bonita. A melhor hora para tomar sol num parque ou na praça de Catalunha. Às vezes pensava, com prazer, no que estaria acontecendo em casa. Meus ouvidos se enchiam dos gritos do papagaio e dos palavrões de Juan. Preferia flanar livremente.” (ps. 121 e 122)

 

 

Nada foi lançado em 1944 e logo recebeu o prêmio Nadal. É uma das obras mais traduzidas em língua espanhola e ganhou uma edição especial para a TAG Curadoria, sob indicação da escritora Alice Sant’Ana. A autora tinha apenas 23 anos quando concluiu esse livro, mas não teve uma produção literária muito grande apesar do estrondoso sucesso de seu romance de estreia. Carmen Laforet, pelo que consta na Revista TAG Curadoria (Novembro, 2018), vinha de um ambiente familiar tóxico e era de uma constituição psicológica frágil. Somado a isso, era extremamente insegura e autocrítica, características reforçada e alimentada por seus familiares.

“Ao vencer a primeira edição do Prêmio Nadal com ‘Nada’, Laforet ganhou a atenção do país inteiro. O sucesso, no entanto, teve um custo muito alto: sua família paterna reconheceu-se nos personagens do livro e não perdoou a exposição de suas intimidades. Seu marido, o jornalista e crítico literário Manuel Cerezales, com quem se casou em 1946, também se manteve vigilante à produção da escritora, provocando um bloqueio criativo e uma crescente insegurança e autocensura.” (Revista TAG Curadoria — Novembro, 2018 — p. 15)

 

Nada é um romance limpo, cru e ao mesmo tempo de muita sensibilidade. Depois de conhecer um pouco sobre a autora, fiquei ainda mais apegada a este livro, como se eu também tivesse uma casa da Rua Aribau a qual guardo lembranças que talvez nunca tenham existido. Aquelas pessoas, empobrecidas e enlouquecidas pela Guerra Civil guardam muito de nós mesmos, das nossas angústias, decepções e amarguras. Foi uma leitura inesquecível e o mimo do mês de novembro é o que eu mais gosto de ganhar na TAG: um segundo livro, porque livro nunca é demais! Alice Sant’Ana organizou uma coletânea de poesias chamada Rua Aribau, composta por quinze poemas e ilustrações de escritoras e artistas contemporâneas. Os versos falam sobre adaptação, viagem, decadência, solidão e inadequação. Porque a Rua Aribau também é aqui. Em qualquer lugar.

 

 

 

Título: Nada

Autora: Carmen Laforet

Tradução: Rubia Prates Goldoni

Prefácio: Mario Vargas Llosa

Editora: TAG em parceria com Alfaguara

Páginas: 280

 

Ficou interessado na TAG Experiências Literárias? Faço parte do clube curadoria, mas você pode clicar aqui e conhecer melhor as duas caixinhas, curadoria e inéditos, e ver qual se adéqua ao seu gosto e estilo!

dezembro 06, 2018

[RESENHA] A CASA DA ALEGRIA, DE EDITH WHARTON

Sinopse: “Lily Bart, a personagem principal de A Casa da Alegria, é uma mulher bonita, refinada e inteligente que vive em Nova Iorque no início do século XX e sofre as consequências da falência financeira da família. Órfã de pai e mãe ela vai morar de favor com uma tia de padrões morais rígidos. A única saída para as dificuldades de Lily é encontrar um bom casamento, pois já começam a correr boatos de que ela está passando da idade de se casar. A linda, espirituosa e sofisticada moça vive uma vida de luxo e facilidade e se conduz como se tivesse direito a tal existência, apesar de ser incapaz de pagar por ela: uma jovem muito pobre com gostos muito caros, ela precisa de um marido rico para preservar sua posição social e garantir um futuro palatável. Mas ela recusa-se a casar sem amor e tenta impor sua independência na conservadora sociedade nova-iorquina.”

 

“Para que vivemos, senão para fazer graça para os nossos vizinhos, e para rirmos deles quando for a nossa vez?” (Jane Austen, Orgulho e Preconceito)

 

A Casa da Alegria, romance de Edith Wharton publicado originalmente em 1905, conta história de Lily Bart em sua tentativa de se manter entre a alta sociedade nova-iorquina do início do século XX, embora já não tenha recursos financeiros para isso. Ela é uma jovem linda e muito bem educada, mas sua renda é composta apenas por uma modesta pensão deixada por seus pais e a caridade de uma tia levemente avarenta que a acolhe em seu lar.

O Livro da Literatura, almanaque fundamental para quem quer se inteirar sobre as principais obras do cânone da literatura mundial, coloca A Casa da Alegria como um sucessor temático de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; e de A Feira das Vaidades, de William Makepeace Thackeray; tendo como foco o romance de costumes, todos eles precedidos por Pamela, de Samuel Richardson (este último com publicação em português pela Pedrazul Editora). Em A Casa da Alegria, diferente de Austen ou Charlotte Brontë, por exemplo, em que o nosso foco acaba sendo desviado para os mocinhos e a história de amor entre os protagonistas, desde o começo temos plena consciência que o tema principal é o malabarismo de Lily Bart para continuar usufruindo dos prazeres do luxo e do divertimento que a alta sociedade usufrui e das consequências que cada um de seus atos pode acarretar em sua vida, ou melhor, em sua honra.

Lily Bart é um bibelô entre os ricos, por essa razão é sempre convidada para festas, retiros no campo, viagens internacionais etc. Apesar de oficialmente viver com a tia, a viúva sovina Mrs. Peniston, a “agenda” de Lily é tão cheia de eventos sociais que ela vive passando temporadas nas casas de um ou outro casal de amigos, como uma folha desgarrada da árvore que vai para aonde o vento soprar. Obviamente, isso tudo tem um preço para Miss Bart: apesar de não pagar pela hospitalidade ou pelas viagens, ela precisa estar sempre muito bem apresentável. E esse custo de beleza já não cabe em seu módico orçamento.

Lily sabe que precisa se casar o quanto antes, mas ela precisa analisar as opções, pois não poderia se casar com qualquer um. O desejável seria casar-se com um homem rico, mas Miss Bart não conseguiria confiar a sua felicidade facilmente a alguém por quem não estivesse, no mínimo, apaixonada (ou o inverso, por uma questão também de poder). Fica muito claro desde o começo da história que ela quer ter dinheiro, mas também quer ser feliz, quer sentir o coração palpitar, quer admirar o parceiro com o qual ela dividirá sua vida…

 

“Ah, tem uma diferença… uma garota é obrigada a se casar, já um homem pode escolher – e o encarou com um olhar crítico. – Se o seu paletó estiver um pouco velhinho, quem se importará? Isto não impedirá as pessoas de convidá-lo para jantar. Já se eu andasse malvestida ninguém iria me convidar para nada: uma mulher é convidada mais pelas suas roupas do que por ela mesma. As roupas são o cenário, a moldura, se assim preferir. Elas não garantem o sucesso, mas fazem parte. Quem quer ver uma mulher maltrapilha? É esperado que sejamos bonitas e bem-vestidas até o fim, e se não conseguimos manter tudo isso sozinha, precisamos sair em busca de um parceiro.”

 

“Na verdade não queria se casar com um homem que fosse rico apenas; no fundo ela tinha vergonha da paixão da sua mãe pelo dinheiro. Lily gostaria de se casar com um nobre inglês com ambições políticas e vastas propriedades; ou, como segunda opção, um príncipe italiano com um castelo nos montes Apeninos e um posto hereditário no Vaticano. Causas perdidas tinham um charme romântico e ela gostava de se imaginar alheia à imprensa vulgar do Quirinal, sacrificando seus prazeres em nome de uma tradição de longa data…”

 

“Dúzias de meninas bonitas e jovens tinham se casado e ela com vinte e nove anos ainda era Miss Bart. Ela estava começando a se revoltar com o destino, quando pensou em abandonar a corrida e conquistar uma vida independente. Mas que tipo de vida seria? Ela mal tinha dinheiro para pagar a conta da modista e suas dívidas de jogo e nenhum dos interesses aleatórios que ela classificava como “preferências” parecia promissor o bastante para ela viver bem na obscuridade. Ela sabia que odiava a pobreza tanto quanto sua mãe, e por conta disso pretendia lutar até o seu último suspiro contra isso, emergindo repetidas vezes acima desta maré até alcançar o ápice do sucesso que se apresentava na forma de uma superfície difícil de ser alcançada.”

 

Um tema bastante delicado tratado no romance é o de que uma mulher não pode tudo. A Casa da Alegria, segundo O Livro da Literatura, é um romance sobre as restrições econômicas e morais impostas às mulheres. Miss Bart erra (e paga caro por isso) muitas vezes ao pensar que certas atitudes bobas, como viajar sozinha em companhia de um homem, ou ser vista na companhia de um deles em horário impróprio, ou ainda pedir dicas de aplicações financeiras, podem não ser algo tão grave a ponto de por a sua reputação em risco. Ela tem a ilusão de que pode tratar de negócios com um homem sem oferecer nada em troca, como uma igual. A literatura e, principalmente, a história, mostram como sempre foi difícil para uma mulher ser tratada como igual pelo sexo oposto. Em A Casa da Alegria, além das armadilhas do sexo masculino, temos também amizades femininas bastante traiçoeiras, que não hesitam em puxar o tapete de uma querida amiga para se manterem afastadas de escândalos ou não serem protagonistas de um. Lily Bart percebe o quanto é cansativo o malabarismo para viver essa vida de luxo, mas ao mesmo tempo ela é sugada para isso, pois foi moldada desde a infância para valorizar o prazer sem esforço, o prazer pelo simples fato de ser Lily Bart, uma pessoa que deixa por onde passa um rastro de encantamento e inveja.

Lily teve seus pretendentes, mas nenhum deles fez seu coração pulsar como Lawrence Selden, um advogado que flutua bem na alta roda, mas não tem uma fortuna suficiente para encher os olhos da jovem. Neste ponto, ela lembra bastante Lady Mary Crawley, de Downton Abbey, quando havia uma possibilidade remota de Matthew não ser o herdeiro do condado (a Condessa estava grávida) e ela tinha dúvidas em se comprometer definitivamente casando-se com um simples advogado, embora estivesse perdidamente apaixonada por ele.

 

“Ela era como uma roseira rara cultivada para ser exposta, uma planta da qual cada botão tinha sido extirpado, exceto a flor principal da sua beleza.”

 

Lily Bart é uma personagem para amar e odiar, não necessariamente nessa ordem, mas talvez com a mesma intensidade. Sabe aquelas personagens que você tem vontade de chamar para uma conversa e dizer: “Meu Deus, fulana, não faz isso! Não tá vendo que você vai quebrar a cara?”. A jovem Lily é uma dessas! A Casa da Alegria é um romance para devorar e se surpreender, uma crítica social ácida com um texto de uma crueza impensável na época de Jane Austen, mas carregado com a ironia característica dela que é uma das mais adoradas dentre os ilustres predecessores de Edith Wharton.

 

 

 

Título: A Casa da Alegria

Autora: Edith Wharton

Tradução: Silvia M. C. Rezende

Editora: Pedrazul

Páginas: 300

Compre no site da Editora Pedrazul (pré-venda): A Casa da Alegria.

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