julho 12, 2018

[RESENHA] A LEITORA INCOMUM, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Os cinco ensaios reunidos neste livro foram escritos entre 1919 e 1929 e publicados em suplementos e revistas literárias. Os textos mostram que além de ser uma ficcionista, Woolf era uma leitora muito atenta, com perspicaz senso crítico. A compreensão que ela tem do leitor, da leitura e do ofício de escrever explicam o porquê ela ser uma das escritoras mais importantes do século XX, responsável por técnicas como a do fluxo de consciência, por cenas cinemáticas e as digressões que adentram as camadas da narrativa. Além do profundo conhecimento da Virginia sobre o tema é preciso falar do cuidado com a tradução, que opta por manter o ritmo da escrita tão peculiar da Woolf. Como explicitado no famoso ensaio Um teto todo seu, mesmo sendo de uma família aristocrata, Virginia Woolf não teve permissão de frequentar a universidade, dessa forma fazendo de sua escrita não apenas uma escolha estética, mas acima de tudo de autonomia e política, de forma que não se parecesse em quase nada com a escrita de outros autores e ainda assim fosse profundamente certeira e bem escrita. Todos os textos desta coletânea fazem parte do livro Granite and Rainbow organizado por Leonard Woolf e publicado em 1958. Sobre o título, A Leitora Incomum, ele remete ao livro de ensaios que a própria Virginia organizou e publicou chamado O Leitor Comum. O livro faz parte da Coleção Alfaiate, costurados a mão e com capa em serigrafia sobre tecido montados um a um.”

 

Em se tratando de Virginia Woolf, sou do tipo leitora mineira: estou lendo pelas beiradas. Há quem se surpreenda quando eu digo, mas, até o momento, não li nenhum dos romances da autora (nem Mrs. Dalloway!). Woolf me conquistou e continua me conquistando, sobretudo, por seus magníficos ensaios. Um dia desses eu mergulho nos romances, certamente o farei, mas tenho certeza de que já li o suficiente da escritora inglesa para admirar a sua inteligência e virar sua fã de carteirinha.

 

Leia também: Cenas londrinas, Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Um teto todo seu O sol e o peixe.

 

O livro A Leitora Incomum (Arte e Letra, 2017), reunião de ensaios de Virginia Woolf traduzidos por Emanuela Siqueira, é um livro especial como não se vê com tanta frequência quanto seria incrível na lista de lançamento das editoras brasileiras. Explico: somos inundados quase mensalmente por lançamentos de luxo, com ilustrações, planejamento gráfico que parecem de outro mundo de tão perfeitos etc. (e graças a Deus por isso), mas poucas vezes vi um livro pelo qual as pessoas, inclusive não leitoras, ficassem admiradas com o delicado trabalho visivelmente aplicado no material ali impresso. A edição da Arte e Letra, além do ótimo conteúdo, nos presenteia com aquele gostinho de livro artesanal, um verdadeiro deleite para nós, leitores. A capa é de pano e, mesmo sabendo disso no ato da compra, fiquei admirada ao sentir o livro em minhas mãos. É uma capa dura revestida com um pano no qual a capa foi impressa! Os livros são costurados a mão, montados um a um e os exemplares, numerados. O meu é o 204.

Artesanato tem algo de especial que é difícil de definir. Cada produto é único, embora sejam produzidos vários exemplares, pois carrega um pouco da essência de quem o produziu. Se o produto livro já é algo especial, imagina uma tiragem em que todos os livros, além do processo coletivo e trabalhoso que envolve uma publicação, têm a mão de uma pessoa que não pode ser outra coisa, senão um apaixonado por literatura?

 

Copa do mundo? Neste dia só tive olhos para o meu “A Leitora Incomum”!

 

Sobre os ensaios, são cinco os presentes nesta edição: Horas na biblioteca, A anatomia da ficção, A vida e o romancista, Uma mente implacavelmente sensível e Fases da ficção. Cada um deles mostra a faceta leitora e crítica literária de Virginia Woolf, mas da forma apaixonada de quem teve a literatura como mais que uma profissão, um compromisso. Destaque para Fases da ficção, que aumentou consideravelmente a minha lista de leitura de romances clássicos e Uma mente implacavelmente sensível, que fala sobre Katherine Mansfield, outra escritora maravilhosa, a qual vale muito a pena conhecer e ler.

“Os contistas mais notáveis da Inglaterra estão de acordo, diz o Sr. Murry, que como escritora, Katherine Mansfield era ‘hours concours’. Ninguém a sucedeu e nenhum crítico esteve apto a definir suas qualidades. Mas o leitor de seu diário está bastante satisfeito em deixar tais questões de lado. Não é a qualidade de sua escrita ou o grau de sua fama que nos interessa no diário, mas o espetáculo de uma mente — uma mente implacavelmente sensível — recebendo, uma atrás da outra, impressões aleatórias de oito anos de vida.” (p. 39)

 

A Arte e Letra é uma editora, que também é cafeteria e livraria, não necessariamente nesta ordem. Mesmo sem conhecer diretamente, mas como apaixonada por livros e literatura, só posso agradecer por um lugar como esse existir no nosso país. E por produzirem livros tão maravilhosos, que podem ser enviados pelos correios para quem não está em Curitiba para comprar na livraria, tomando um cafezinho.

 

Conheça a Arte e Letra: https://www.arteeletra.com.br/

 

 

Título: A leitora incomum

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Emanuela Siqueira

Editora: Arte e Letra

Páginas: 136

 

 

Compre no site da editora: A leitora incomum.

Ou, se preferir, na Amazon: A leitora incomum.

julho 05, 2018

[RESENHA] SONETOS DE AMOR, DE LUÍS DE CAMÕES

Sinopse: “”Os amantes da melhor literatura têm um motivo a mais para celebrar: esta belíssima edição, em capa dura, com uma seleção dos melhores sonetos camonianos sobre o amor. Líricos, eletrizantes e insuperáveis, textos do autor de Os Lusíadas auscultam, a partir da forma poética difundida por Francesco Petrarca (o italiano reputado como o inventor do soneto), o coração de leitores apaixonados. ‘Luís de Camões amou muito, sofreu muito, teve gozo no seu sofrimento e escreveu dezenas de sonetos (e canções, elegias, odes etc.) numa repetida tentativa de entender o que era essa coisa simultaneamente terrível e sublime’, escreve Richard Zenith na esclarecedora introdução ao volume.”

 

Vou confessar uma coisa: embora as disciplinas de literatura portuguesa do meu curso de Letras estejam programadas, por assim dizer, para serem estudadas no quarto e quinto períodos, eu, já indo para o oitavo (2018-2), ainda não as cursei. Cinco disciplinas de literatura brasileira, duas de africanas e outras tantas de teoria literária depois, creio eu que estou preparada para enfrentar o grande poeta da língua portuguesa: Luís de Camões.

Se você, como eu, foi aluno de escola pública, talvez só conheça Camões basicamente pelo “amor é um fogo que arde sem ver…” e por mais algumas informações sobre Os Lusíadas, considerada a epopeia portuguesa por excelência, fundadora da nossa língua etc. Você há de convir que, por mais que o professor tente e se esforce, no geral, adolescentes não vão se interessar  muito por Os Lusíadas. Com sorte, apenas pelo soneto de amor mais conhecido da nossa língua. Os livros didáticos nem sempre são de grande ajuda na empreitada em favor do bardo português.

Resolvi conhecer Camões justamente por seus sonetos de amor. Afinal, é mais fácil e agradável ler sobre esse que é dos mais sublimes sentimentos humanos a começar com a aventura de Vasco da Gama pelos mares, desbravando territórios em nome da Coroa portuguesa.

Essa edição de Sonetos de Amor: Luís de Camões (Penguin-Companhia, 2016) é uma gracinha. A que eu comprei não é de capa dura, e sim um cartonado mais durinho, no mesmo estilo das edições da Penguin-Companhia. A capa lembra muito aqueles cartões românticos que as pessoas costumavam trocar antigamente. Tem alguns relevos, você percebe o carinho e o cuidado com a edição logo de cara. É um livro curto, você lê em algumas horas (poesia, não é recomendado ler tão rápido, guarde essa dica.) e também é uma ótima opção para presentear um apaixonado por literatura, por quem você também seja apaixonado (ou queira bem, mas não no sentido romântico).

Como toda a edição da Penguin-Companhia, o livro vem enriquecido com um magnífico texto de apoio. Nesta edição, o prefácio é de Richard Zenith, um dos maiores especialistas contemporâneos em literatura portuguesa e tradutor de Carlos Drummond de Andrade para a língua inglesa. O texto é uma espécie de minibiografia de Camões, que traz várias curiosidades sobre a vida do autor, inclusive sobre seus amores e desventuras.

Sendo assim, o meu convite de hoje é que você, caso não conheça profundamente a obra de Camões, comece por esses sonetos românticos. Se já conhece, a edição é uma ótima oportunidade para espalhar a palavra da literatura clássica portuguesa aos quatro ventos. O amor é universal e atemporal. E lendo textos tão antigos que dialogam tão perfeitamente com o nosso século a gente é capaz de entender a força que tem a literatura, o quão eterna ela pode ser.

 

 

268.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,

De pensamento vil nunca tocado,

Em minha tenra idade começado,

Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

 

De haver nele mudança estou seguro,

Sem temer nenhum caso ou duro Fado,

Nem o supremo bem ou ba[i]xo estado.

Nem o tempo presente nem futuro.

 

A bonina e a flor asinha passa;

Tudo por terra o Inverno e Estio deita;

Só pera meu amor é sempre Maio.

 

Mas ver-vos pera mi[m], Senhora, escassa,

E que essa ingratidão tudo me enjeita,

Traz este meu amor sempre em desmaio.”

 

 

Título: Sonetos de amor: Luís de Camões

Autor: Luís de Camões

Prefácio: Richard Zenith

Editora: Penguin-Companhia

Páginas: 96

Compre na Amazon: Sonetos de amor.

junho 28, 2018

[RESENHA] A ODISSÉIA DE PENÉLOPE, DE MARGARET ATWOOD

Sinopse: “Um pequeno episódio narrado por Homero serve como base para A odisséia de Penélope , segundo volume da Coleção Mitos. Trata-se da passagem em que Odisseu e seu filho Telêmaco enforcam as doze escravas que se deitavam com os pretendentes ao trono de Ítaca. Esses pretendentes, nobres e príncipes, tinham se aproveitado da longa ausência de Odisseu para se instalar no palácio real e promover banquetes e festas diárias em que as escravas prestavam diversos serviços. Pela suposta traição ao reino, as escravas são enforcadas.

O que levou ao enforcamento? Qual era realmente a postura de Penélope? “A versão da Odisséia não se sustenta […]; o enforcamento das escravas sempre me incomodou, e em A odisséia de Penélope esse incômodo atormenta Penélope”, explica Margaret Atwood, que deu às escravas o papel do Coro, chamando a atenção para os questionamentos que surgem de uma leitura atenta da Odisséia .

Em A odisséia de Penélope , Margaret Atwood subverte a narrativa original, centrada em Odisseu e suas peripécias, ao longo dos vinte anos em que esteve ausente de Ítaca. A esposa Penélope, personagem emblemática da fidelidade e da obediência feminina, passa a ocupar o centro da história, e a reconta de seu ponto de vista.

Dona de uma astúcia comparável à de Odisseu, ela se vale de inúmeros expedientes para sobreviver com dignidade enquanto o marido não retorna. Mas seus pensamentos, desejos e paixões nem sempre são os mais apropriados a uma casta rainha. Para recontar o episódio, Margaret Atwood usou várias fontes – já que a Odisséia de Homero não é a única versão da história -, e criou uma obra ao mesmo tempo muito bem-humorada e reflexiva.”

 

Quando Margaret Atwood voltou às rodas literárias com o seu fenômeno O Conto da Aia, que entrou para a lista dos livros mais vendidos quando Donald Trump assumiu a Casa Branca, e também pela adaptação homônima do seu livro em série do streaming Hulu, eu fiquei pensando: acho que já li alguma coisa dessa autora, só não lembro o que é.

Vasculhando aqui e ali (Skoob, obrigada por existir), lembrei que havia lido A odisséia de Penélope: o mito de Penélope e Odisseu, de Margaret Atwood, publicado no Brasil pela Companhia das Letras (2005). Lembrava um pouco do enredo, mas resolvi reler para confirmar (ou não) as três estrelas atribuídas ao livro no meu perfil no Skoob. Do título original, Penelopiad, a expectativa era de que a história fosse uma verdadeira Penelopeia. Mas com a leitura fica claro que não é bem assim.

Obviamente, as aventuras foram legadas a Odisseu, enquanto à Penélope restara apenas esperar e tecer a mortalha do sogro — truque inteligente usado para ludibriar seus pretendentes, uma vez que a mortalha era tecida durante o dia e desfeita a noite, e os pretendentes esperavam que ela terminasse o trabalho para escolher, finalmente, um noivo. Era o destino das mulheres, ficar em casa enquanto a ação era destinada aos homens. No entanto, apesar de não termos um destino tão glamouroso nesta epopeia em particular, isso não quer dizer que as mulheres eram seres de segunda categoria, menos importantes para a narrativa. Afinal, alguém lembra do porquê Odisseu foi obrigado a deixar a esposa e o filho pequeno em Ítaca para lutar a Guerra de Troia? Simplificando bastante, foi por uma mulher.

Essa mulher, Helena, é muito citada em A odisséia de Penélope. Infelizmente, o jeito com o qual a autora tratou o assunto me incomodou um pouco. Isso porque um livro escrito nos tempos atuais sobre uma personagem importante da literatura mundial — inclusive, Penélope conta sua história com esse olhar do presente, pois já está morta há séculos, — acabou reduzido-a a picuinhas e animosidades, uma repetitiva e cansativa inveja. Penélope, aqui, acabou sendo um pouco chata ao ressaltar — várias vezes — que a razão de seus infortúnios atendia pelo nome de Helena, a bela, formosa, a mulher com a qual todos queriam se casar, inclusive seu marido.

 

“Naquele momento minha prima Helena passou, esvoaçante, como o cisne de longo pescoço que pretendia ser. Exagerava o rebolado no andar. Embora o casamento em questão fosse o meu, ela queria ser o foco das atenções. Estava linda como sempre, talvez ainda mais: era intolerantemente bela. Vestia-se com perfeição: Menelau, seu marido, fazia questão disso, era podre de rico e podia se dar ao luxo. Ela voltou o rosto na minha direção e me fitou caprichosa, como se flertasse. Desconfio que ela flertava com o cachorro, com o espelho, com o pente, com o pé da cama. Precisava se exercitar.” (p. 39)

 

Não me entendam mal, não pretendo aqui elencar motivos para não ler esse livro, pelo contrário! Sou apaixonada pela história da Odisséia desde a infância, quando assisti ao filme pela primeira vez no colégio (em VHS!). Hoje percebo melhor que naquela época os acontecimentos até que Odisseu conseguisse retornar à Ítaca, matar os pretendentes sanguessugas de Penélope e também as escravas que, de certa forma, teriam conspirado com eles.

 

 

O motivo do meu incômodo com essa leitura foi, acredito, a quebra de expectativa. Esperei uma narrativa imponente, que fizesse coro a grande personagem que é a Penélope, mas recebi muita lamúria e o lugar comum da animosidade entre mulheres. A autora diz, na edição, que pesquisou e usou material diverso além do texto “original” atribuído a Homero, já que as histórias de tradição oral, como a Odisseia, variam de região para região e também de contador para contador. Talvez a história tivesse mesmo que ser assim, por vezes cansativa. Mas a leitura vale a pena, sem dúvida. O meu conselho é que você leia sem colocar Penélope — ou Atwood — em um patamar alto demais.

 

 

Título: A odisséia de Penélope: o mito de Penélope e Odisseu

Autora: Margaret Atwood

Tradução: Celso Nogueira

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

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